Início Rubricas A Moda da Tecnologia e os Luditas

A Moda da Tecnologia e os Luditas

409
1

Há duas maneiras de olhar para a tecnologia e crianças: ou as ensinamos a usar ou elas vão aprender sozinhas.

A escola tem um papel fundamental a desempenhar. Os pais também.

A inserção de tecnologia na sala de aula não é uma panaceia para todos os males. A tecnologia mais recente, fantástica e com resultados pedagógicos comprovados na mão de um mau professor não serve para quase nada. Um bom professor (seja lá o que isso for!) com um giz e um quadro de ardósia pode fazer maravilhas!

(Um exemplo de aula fantástica dada apenas com um quadro. Conciso, claro e incrivelmente fácil de seguir – à parte do sotaque cerrado! Em 1986 Richard Feynman explicava como funciona um computador “por dentro” numa “lecture” fantástica que pode ser seguida por todos. O professor deve ser um especialista na área que ensina.
https://www.youtube.com/watch?v=EKWGGDXe5MA )

A utilização da tecnologia na sala de aula tem de ser pensada pelo professor: não pelo decisor político. Contudo compete ao decisor, político ou económico, garantir essas condições tecnológicas às salas de aula de todo o país, mas respeitando categoricamente a autonomia pedagógica das escolas e dos próprios professores. Mas infelizmente há escolas que nem aquecimento têm.

Parafraseando William Gibson “O futuro já chegou – não está é uniformemente distribuído.”

Tal é particularmente verdade para a escola pública portuguesa. Se há escolas que já têm uma quantidade considerável de recursos, projetos e, particularmente, experiência dos professores e equipas pedagógicas, há outras onde não há dinheiro para comprar um tampo de sanita, fruto de um limbo burocrático de ausência de responsabilidade.

A inserção de tecnologia na sala de aula carece de pensamento pelos próprios professores que a vão utilizar. São os professores, com aqueles alunos específicos à sua frente, que terão a noção de qual a metodologia que melhor funciona para aquele caso particular e qual a tecnologia que deve suportar essa metodologia. Não há uma regra, recursos ou tecnologia que se aplique a todos os casos. Contudo a tecnologia deverá estar disponível caso contrário estamos a limitar a autonomia do professor.

Claro que há sempre exageros.

Há sempre aqueles que levam a coisa a um extremo tal que a tecnologia passa a ser, em certa medida, o substituto do professor, o que me parece manifestamente excessivo. (https://www.ted.com/talks/sugata_mitra_build_a_school_in_the_cloud)

Há aqueles que são moderados e que dizem que sim a tecnologia pode ser importante, mas não sem uma visão, ou visões, clara e concreta que sustenha a sua implementação bem como um sistema de avaliação e reflexão adequado que acompanhe a implementação. Há aqueles que precisam de conhecer e ir estudar as diferentes tecnologias para ver se lhes interessam ou não, e que, especialmente, admitem que algo que funciona para uma turma ou alunos pode não funcionar para outros.

Há depois aqueles que vêem a tecnologia como um obstáculo ao desenvolvimento. Que olham para a tecnologia como algo prejudicial ao desenvolvimento das “aprendizagens fundamentais”. Aqui tecnologia referindo-se à que já não está instituída nas salas de aulas. Há aqueles que quando, por algum motivo, a tecnologia falha (ou é mal implementada) dizem a famosa frase: “no meu tempo é que era bom, não havia nada destas modernices.” Há os que o dizem sustentados numa posição conhecedora que, discordo, mas respeito. Há, por outro lado, os que pura e simplesmente nunca tiveram um contacto sério com alguns desses tipos de metodologias, mas mesmo assim não se abstém de opinar sobre algo que nem sequer viram ou usaram efetivamente numa sala de aula com alunos, quer por opção quer por falta de recursos.

A minha prática

Eu vejo-me como um moderado que acredita no papel importantíssimo do professor. Já abandonei várias tecnologias de sala de aula que não eram adequadas para o fim em vista. Já me mantive em tecnologias “antigas” e com resultados comprovados por achar que me resolviam o problema pedagógico em mãos e o que há de novo não está maturo o suficiente para as substituir, ou não traz nada de novo. Já fiz muitas horas de formação sobre diferentes metodologias de ensino com diferentes tecnologias tentando aprender com quem sabe sobre o assunto. Já adotei tecnologias em versão beta e paguei o preço de acompanhar o seu desenvolvimento inicial. Já inverti a ordem de conteúdos dentro da sala de aula porque me apercebi que a tecnologia facilitava a aprendizagem com uma ordem diferente, produzindo melhores resultados e uma maior motivação dos alunos.

Especialmente, já cometi alguns erros. E creio ter aprendido alguma coisa com os meus erros.

(Na minha prática, faço um mix de tecnologias, que vão desde o quadro branco com canetas (que uso pouco porque a minha letra é horrível e os alunos não ficam com aquilo que eu escrevi na ordem em que escrevi e com a ênfase que escrevi- prefiro o OneNote + Projeção ou o recente Whiteboard da Microsoft que me corrige desenhos), à videoconferência com peritos a quilómetros de distância. Uso Microsoft Teams, Skype, Stream e PowerPoint (no que sobreviveu do fantástico Office Mix). Mas também uso, canetas, esquadros e sutas. Gosto especialmente de lápis HB em papel de fotocópia para esboçar qualquer coisa. Eu acho que desenho muito bem – os alunos dizem-me que não. Faço muitos “gatafunhos” em papel de rascunho com grupos de alunos, só para transmitir ideias. Gravo reuniões com alunos em Teams para garantir que a opinião de todos fica registada. Uso o Planner para planear tarefas com alunos, equipas e outros professores. Gravo algumas aulas em sala de aula em vídeo e dou-as aos alunos, durante ou no final da aula. Incentivo os meus alunos com dislexia ou disgrafia a usar as ferramentas de aprendizagem que os ajudam a ultrapassar as suas dificuldades sem estigmatizar. Uso sólidos geométricos em madeira (Dos antigos! De madeira mesmo como tinha a minha avó professora primária!) para explicar projeções – porque em 3D dentro de um écran 2D eles raramente percebem o que se está a passar, por muito interessante que seja a ilustração – falta uma dimensão. É o que funciona para mim e especialmente para os meus alunos.)

A “sorte”

Mas eu tenho a sorte, enquanto professor, em ter acesso a este conjunto de tecnologias. Tenho a sorte de poder optar. Tenho a sorte de praticamente não usar papel desde 2002. Tenho a sorte de todos os meus alunos terem pelo menos um computador dentro da sala de aula que, apesar de idosos, funcionam. Não deveria, contudo, ser “sorte”.

Todos os professores deveriam ter as condições para poderem optar, para poderem escolher qual o caminho que querem percorrer com os seus alunos dentro da sua sala de aula face a alunos e conteúdos. Não deveriam estar limitados pelo acesso à tecnologia.

Por isso, não vejo com bons olhos quando se olha para algumas implementações de tecnologia e se rotulam de “modas”, sem se conhecer o que se está a passar efetivamente nos casos concretos naquela ou noutra escola, se de facto há ou não um suporte pedagógico associado, se há ou não um pensamento individual por parte dos professores e coletivo da própria escola.

Haverá, decerto, escolas que saltam para dentro do comboio só porque é um comboio que se está a mexer, sem saberem muito bem para onde vão. Mas não haverá bons professores nessas escolas que vão dar bom uso a essa tecnologia e que por ela ansiavam? Particularmente é injusto chamarem “maria vai com as outras” a escolas e professores que fazem um esforço pensado e planeado na implementação pedagógica de uma tecnologia integrada numa visão e que já estão “no comboio” há muitos anos.

Há uma tendência quase ludita entre alguns atores da educação de que qualquer tecnologia pedagógica diferente é “moda” e por isso, por definição, é má. É este salto de raciocínio que considero incorreto. Há que distinguir as implementações, mas mais do que tudo há que disponibilizar os recursos aos professores para serem eles a decidir e a implementar ou não na sua sala de aula.

Poder-se-á falar, sem dúvida alguma, da racionalidade dos investimentos, das negociatas que por vezes surgem, dos interessados privados, etc. Mas, infelizmente, isso pode ser dito sobre quase tudo em Portugal neste momento. Não é um problema específico, o que deverá entristecer e enfurecer todos os portugueses. A hierarquia dos investimentos é algo de muito difícil decisão, sendo que a meu ver, indubitavelmente, se deve começar por garantir a todos os professores condições dignas em vencimento e carreira, garantidas que estejam as condições de acesso para todas as crianças à educação. Por puro egoísmo pessoal essa será naturalmente a primeira medida. Por racionalidade pragmática também: trabalhadores mal pagos e sem perspetivas de evolução poderão fazer um bom trabalho?

Infelizmente há muitos professores que querem fazer este salto e usar outras tecnologias, outras metodologias, mas que não conseguem porque as suas escolas têm apenas cadeiras, mesas e um quadro que de interativo tem muito pouco porque está avariado há vários anos!

 

NOTA IMPORTANTE

Creio que as ferramentas referidas são todas gratuitas para educação, com exceção dos sólidos de madeira! Mas há ferramentas similares da Google, da Apple (para quem tiver dinheiro para equipar uma escola inteira com hardware da Apple!) e de outros fabricantes. Contudo o problema do respeito do Regulamento Geral de Proteção de Dados, e mais concretamente da proteção da privacidade dos alunos e encarregados de educação, mantém-se, independentemente do fornecedor de aplicações. Saliento que deve ser a escola a contratualizar essas ferramentas e não o professor. Mas isto é assunto para outro artigo!

COMPARTILHE

1 COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here