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“A Meio De Uma Aula Do 1º Ano Ouvimos Uma Discussão Entre Pais”

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A frase faz parte de um comentário ao artigo Lembrem-se… Há Pais Que Estão Ao Lado Dos Alunos A Ouvir Tudo O Que O Professor Diz.

Qualquer professor sabe, e nem é preciso ser professor para o saber, que existem agregados familiares extremamente complicados, chegando ao ponto de ocorrerem situações de negligência grave e até de violência doméstica.

A título pessoal, já assisti a uma mão cheia de crianças que foram retiradas aos pais e entregues a instituições de acolhimento. São momentos que nunca mais se esquecem e nem mesmo a experiência diminuiu a intensidade do nó na garganta que se criou no momento da despedida.

As aulas síncronas como agora se chamam, fazem com que entremos todos na casa uns dos outros, numa fase onde todos têm de estar em casa. Se já existiam ambientes familiares complicados, a pressão da quarentena surge em alguns casos como nitroglicerina numa fogueira em chamas.

Os pobres coitados dos miúdos que vivem nesses ambientes, além de serem obrigados a permanecer nessas casas diariamente, são confrontados com a humilhação pública de verem a sua tristeza ser partilhada em direto, para todos os colegas de turma e professores.

São situações que ninguém controla e tal como referi no artigo citado, onde os professores devem lembrar-se que não estão apenas com os alunos quando estão em direto, as famílias também deveriam lembrar-se que o ruído e as imagens de fundo estão a ser partilhadas por todos, podendo mesmo estar a ser gravadas por terceiros como infelizmente já aconteceu.

A solução será naturalmente acabar com as aulas síncronas, limitando o contacto com os alunos a atividades assíncronas, mas não nos podemos esquecer que faltam mais de 2 meses para o ano acabar e estas ligações são também importantes para alunos e professores.

Apesar de defender que neste 3º período devemos apostar mais na consolidação de conteúdos, a ligação entre alunos e professores em direto, mantém o cordão umbilical e “pressiona” os alunos a permanecerem ligados à escola, numa fase onde o abandono está naturalmente a crescer.

Além disso, no próximo ano letivo, podemos estar a viver algo semelhante e como já referi, este 3º período deve servir para otimizar processos, pois ninguém pode garantir que daqui a 1,2, ou 5 anos, possamos estar a passar por algo semelhante ou até pior.

Quem veio de ambientes familiares complicados sabe bem o que isso custa, muda para sempre o ADN de uma pessoa e a memória nunca se apaga nem a revolta desaparece. Julgo por isso ser imperativo que as escolas tenham uma paciência extra para estes alunos, retirando-lhes muita da pressão avaliativa ou de realização de tarefas.

Lembro que muitos alunos só têm condições de trabalho nas salas de aula, as suas casas, infelizmente, são por vezes o anfiteatro do pior que a natureza humana tem e nem mesmo um adulto e até professor, conseguiria trabalhar nesse ambiente.

Ninguém está livre de passar a ver e a ouvir aquilo que já se sabia, mas que só era falado em privado nas consultas de psicologia ou em conversas particulares com o diretor de turma.

Tenhamos por isso a maturidade e sensibilidade para lidar com determinadas realidades.

Alexandre Henriques

1 COMMENT

  1. É por isso que é ilegítimo entrar em casa dos alunos e cobrar-lhes isso como uma exigência. É auto-convidar-se para o almoço. É falta de bom senso. Assim como é ilegítimo transferir estratégias de aulas presenciais para as novas tecnologias somadas às estratégias específicas das novas tecnologias. É duplicar o esforço. Ninguém aguenta, nem alunos, nem professores.

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