Home Rubricas a mediação pedagógica (e social)

a mediação pedagógica (e social)

307
1

E já estamos no mês três. Não parece, ou parece óbvio de mais, mas já estamos no mês três, aquele que anuncia a primavera.

Na semana passada abordei três questões sobre a escola do futuro que agora individualizo a partir do meu presente (ou do meu contexto). Hoje sobre o papel de mediação do docente em contexto de sala de aula. Mediação a dois tempos, pedagógica (escolar e cognitiva) e social (educação e cívica).

Escrevi eu há uma semana atrás

A dinâmica de sala de aula tem mudado (…) quer por via de opções mais ou menos claras (…) dos professores, quer por implicações ou determinações das relações que no espaço das 4 paredes se determina -(…) diferenciação de públicos – percursos alternativos, vocacionais, ensino especial, entre outros.

A partir desta afirmação perspetivo que o futuro (o nosso presente) terá de passar por uma dimensão que há muito se pratica mas que não se assume de forma clara, racional e objetiva nas escolas por onde tenho andado. Consiste em afirmar o professor enquanto mediador e gestor da informação e não como elemento preponderante menos ainda central da ação em sala de aula. Afirmação que reforço com artigo do jornal Público já com algum mediaçãotempo, mas sempre pertinente e atual.

Que sentido fará ser o professor a transmitir as informações que circulam por aí? Que lógica existirá em o professor assumir a concorrência com plataformas digitais ou ao youtube? Que sentidos prevalecerão no predomínio do poder pastoral (missionário) dos docentes em contraponto a uma sociedade cada vez mais gráfica, visual e digital? Que pertinência se regista em ensinar conteúdos desgarrados e distantes do sentido das crianças – e já não falo apenas de interesses e/ou motivações, mas de compreensão apenas?

Outros exemplos agora práticos. Dois documentários, um no youtube outro na rtp ensina permitiram-me trabalhar, em menos de 90 minutos, todos os conteúdos inerentes ao que as planificações dizem ser necessárias 8 a 10 aulas de roma no período do império. Um colega de matemática ultrapassou um impasse com recurso a diferentes vídeos da Khan Academy sobre situações que os alunos teimavam em não ver resolvidas.

Isto é, a informação está no nosso bolso, no smartphone, no tablet, na ponta dos dedos. O que fazer com ela, como a transformar em algo útil ao indivíduo ou ao coletivo é o desafio da escola. Torna-se essencial destrinçar e clarificar na nossa cabeça o que é informação (tudo o que produzimos sobre o formato de notícias disto e daquilo) e o conhecimento (que implica utilização e transformação na ação). Nesta perspetiva o docente terá apenas de desenvolver, incentivar e assumir dimensões do pensar crítico, da organização e gestão da informação, da resolução de problemas, da dúvida e do questionamento de fontes e origens, processos e modos.

Que isto é coisa nova? Não, não é. Recordo um título que me marcou de forma significativa e que aponta para isto mesmo, da escola sem sentido à escola dos sentidos, António Torrado, ed. Caminho. Como recordo aquela que é a minha base de trabalho há muito tempo, a aprendizagem baseada em problemas e como considero algo impertinente quando, nas reuniões de avaliação e perante o item da resolução de problemas se olha para o professor de matemática, como se só ali, na matemática, se resolvessem problemas.

O docente precisa de ser um mediador pedagógico e escolar, em primeira medida. Mediador na desocultação de situações, no pensar e mostrar que as coisas não nasceram assim, ou que nem sempre foram assim. Mediador entre a curiosidade da criança e o contexto em que se insere, entendendo aqui como contexto, o seu espaço, o seu tempo e o conjunto de saberes que se figuram como predominantes.

Mas também mediador social entre o aluno e o conjunto de relações que tem e assume. Desde logo relações escolares, mas também familiares, sociais. Não por ser defensor da escola a tempo inteiro, mas por que é à escola que pedem contas quando as coisas não correm como se perspetiva que devessem correr. E é na escola e pela ação escolar (e educativa e social) que se forma o cidadão, a pessoa, o futuro.

Enquanto não formos capazes de assumir o professor como mediador (escolar e social) estou certo que a aulas continuarão a ser uma seca. Seca para os alunos em que as matérias, os conteúdos pouco ou nada lhe dizem e que pouco ou nenhum sentido lhe vêem. Seca para os professores que se sentem defraudados nas suas expetativas, no seu empenho e na sua implicação perante o desinteresse e a indiferença dos alunos. Seca que será sempre estimulante para as situações de indisciplina, pois os comportamentos serão difíceis de gerir e conter naquele espaço de 4 paredes.

Para a semana, qual novela ou sequela, os gadjets como elementos da modernização administrativa (pedagógica e escolar).

Manuel Dinis P: Cabeça

7 de março de 2016

1 COMMENT

  1. Um excelente artigo, mais um de uma sequela que promete e está a cumprir. Sobre o artigo, há muito professor que restringe o seu papel a um mero “ensinador” de serviço. O professor hoje em dia é um autêntico canivete suíço, adaptando-se aos conflitos, mediando situações, filtrando informação e transmitindo-a de forma cumulativa com os seus alunos. É um farol de sabedoria!!! Isto é o professor moderno e as tecnologias são as suas ferramentas. Saibamos analisar o que nos rodeia e ajustar-nos aos desafios que se colocam. Isto sim é uma reflexão. Obrigado Manuel 😉

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here