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A Indisciplina E A Falta De Regras São Fatores Destruidores Da Educação – Salvador De Sousa

1997
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Sou professor aposentado, mas continuo muito atento a tudo aquilo que acontece nas nossas escolas, pois transtorna-me e fico muito entristecido quando algo de menos correto, na minha opinião, se passa nestes ambientes educativos e que é preciso pôr um ponto final para que não percamos o que de bom ainda existe.

Ao longo da vida, somos aculturados e a nossa integração vai sendo feita de acordo com a nossa carga genética, a nossa família, a escola, os nossos amigos e de todo o meio que nos envolve.

Isto, desde o nascer até morrer, somos fruto dessas envolvências e, durante este nosso caminhar, temos fases etárias muito mais influenciáveis por tudo aquilo que nos rodeia e a que Freud chama “o superego”.

Cada um de nós, fazendo essa retrospetiva, não precisa de recorrer a qualquer “enciclopédia” para fazer essa dedução. Somos, nesta vertente, fruto da educação e da orientação que tivemos na formação da nossa personalidade.

O que referi, vai servir de preâmbulo para o assunto que vou desenvolver e que me preocupa sobremaneira! Escolhi uma profissão que, continuamente, abracei com muito empenho e muito carinho e que, tenho a certeza, a grande maioria dos meus colegas, assim como todo os outros agentes educativos, também sente isso, pretendendo dar o seu melhor pelos seus educandos como de filhos se tratassem.

É isso que sempre aconteceu e acontece, trabalha-se em função dos alunos e nada acontece na escola contra os alunos. Pode haver uma ou outra exceção, mas testemunho que é muito difícil isso acontecer. O que não pode haver é, por vezes, interpretações erradas de certas atuações que são necessárias para se cumprirem as regras estabelecidas para bem de toda a comunidade educativa.

Fui, durante muitos anos letivos diretor de turma e, alguns, coordenador dos diretores de turma e sempre admirei a ligação entre a casa e a escola, o empenho, a presença assídua dos encarregados de educação, sinal de envolvimento e no grande auxílio que prestavam e, felizmente, muitos ainda prestam às escolas e a si próprios, porque estão a “cultivar” o seu futuro, preocupados com o amadurecimento do seu fruto.

Sabiam, no geral, distinguir as competências de cada agente educativo, respeitavam as regras estabelecidas pelos órgãos de cada estabelecimento escolar, sequenciavam, aprovavam e motivavam os seus educandos no processo de ensino/aprendizagem.

Reconheciam as competências dos professores e aceitavam as suas orientações científico-pedagógicas, incentivavam os seus educandos a acatar o cumprimento de regras por qualquer educador dentro do espaço escolar.

Hoje, nota-se uma grande decadência, felizmente, longe de ser geral, mas já é caso para perguntar: Para onde caminhamos com tanta indisciplina? Para onde caminhamos com certos encarregados de educação a pôr em causa os ensinamentos e as diretrizes dos professores, dos auxiliares de ação educativa e da própria direção das escolas?

Para onde caminhamos com alguns pais com a autoestima exagerada querendo ensinar aquilo que não sabem, pondo em questão ensinamentos dos docentes? Para onde caminhamos se não confiamos nos nossos agentes educativos que continuam, tal como no passado, a quererem o melhor para os seus alunos?

Para onde caminhamos com alguns pais a impedirem que os seus filhos, com dificuldades de aprendizagem, assistam às aulas de apoio?

Para onde caminhamos com tanta falta de educação, mesmo no interior dos recintos escolares, maltratando colegas/alunos, auxiliares da educação e, mesmo professores, proferindo palavrões nos recreios e cenas pouco recomendáveis num espaço de formação educativa?

É tempo de não deixar avançar essa virose que está a contaminar e a destruir tantos valores. Já há casos de alunos que sofrem de bullying por quererem aproveitar o seu tempo, respeitando as regras.

É preciso que os pais continuem a ser os primeiros grandes educadores dos seus filhos, educando-os para além do aconchego familiar, sabendo orientá-los, de uma forma sequencial, acatando as regras dos estabelecimentos escolares.

Se esse fio condutor, entre a escola e a família, for quebrado assiste-se a uma falta de equilíbrio que afeta o sucesso do educando, a sua motivação, destruindo o bom ambiente das escolas, multiplicando a desordem e contagiando outros alunos.

Salvador de Sousa, in Diário do Minho 4-2-2019 

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3 COMENTÁRIOS

  1. A falta de ética é gritante. Um aluno injuria um professor na sala de aula e fica impune! A direção ainda diz: “Ah o aluno tem muitos problemas, o que quer o professor que nós façamos?”; se um aluno é incorrecto na rua, dizem logo : “lá fora não podemos fazer nada”! como alguém dizia: “está tudo dito!!!” A falta de qualidade nota-se a nível do corpo docente, os olhares, os comentários despudorados na sala de professores, as invejas. Assim é difícil. Muitos fazem da Escola o espaço da calhandrice, da bisbilhotice, muitas vezes segue-se um professor de referência, alguém que ensina bem e começam logo a fazer-lhe a vida negra! alto e pára o baile: “Aqui não podem haver génios, vamos fazer-lhe a vida negra”. Se algum professor responde à pergunta: “Como está colega?” com a resposta: “óptimo!” uiuiiiiii não o devia ter dito….é que se a vida é bela nós damos cabo dela!! sinceramente não sei que geração de professores é esta! é a gozação instituída, o descaramento e a presunção. A manipulação dos alunos é uma arte! Normalmente a receita é sempre a mesma: se é um bom professor, arranje-se-lhe problemas, processos disciplinares, afaste-se o mais possível, abafe-se, desvalorize-se! Viva o pagode, a incompetência! é isso que os alunos querem…telenovela! Há poucos meses um aluno foi acumulando faltas disciplinares e era dever do DT avisar os EE/pais. Qual quê? o professor é que é culpado, o aluno nega tudo, e depois fica tudo igual. Isto é um Portugal dos Pequeninos! Não há seriedade, se um professor dá mais participações disciplinares …”tem de ser visto”! então o professor mantem a disciplina, cumpre o seu dever e ainda tem de ser visto. Foi bom de início, nos primeiros 10 anos diria! e mesmo assim lembro-me duma ou outra turma difícil. Mas hoje! é uma guerra! ai do professor que “mantenha a disciplina”! tem de ir pela sombra para não se queimar. O que hoje não há é um sentido de estado, de dever, uma seriedade que vem da forma como falamos, da educação que nos damos a nós próprios, da postura, do olhar, da nossa forma de estar. Do passado nem isso resta. Nem tudo foi mau no tempo de Salazar..havia seriedade competência…algum aluno injuriava um professor!! hoje ainda é um herói aclamado! estamos a preparar Che Guevaras…..É ver as salas de professores com professores a quem só falta ter um megafone!! diretores de turma a resolver assuntos com alunos à porta da sala de professores, muitas vezes a urdir sobre o professor que está a entrar na sala. Também não se compreende como é que há Escolas cujas entradas confinam com esplanadas de café para onde os alunos “migram” intervalo sim intervalo não em vez de ir até à biblioteca, por vezes mesmo em Escolas modernas…e os alunos lá fora!!. Que mau aspeto, fazem esperas, comentam, gozam e fazem chacot, fumam mesmo com os professores a horas certas. Tudo falha, a ética, a responsabilidade. Lugar dos aluno é na Escola, a estudar e não a divertir-se. Já nem sei quem são os alunos indisciplinados…acho que os adultos que ali trabalham!!

  2. Concordo plenamente com tudo o que diz o colega. Eduquemos os pais para um maior respeito para com a autoridade e importância dos professores. Só assim poderemos avançar de forma mais positiva.
    Que fazer quando um Encarregado de Educação, perante queixas idênticas de todos os professores, continua a defender que o seu educando não faz nada e que os professores é que estão mal?

    • Caríssima colega, a solução seria esta:

      1. Videovigilância, solução barata! as câmaras estão ao preço da uva mijona, quanto mais não seja de forma discreta, tipo CIA. Mas isso, AH!!!! isso os alunos e pais não querem…mais é fácil desmentir um professor, na hora, por vezes de forma tão arrogante que até causa enjoo! que choradinho diante do diretor!! que teatro! a “confissão” da imagem vale mil palavras e é a rainha das provas!

      2. Depois, todos sabem que as Escolas são pequenas comunidades, tudo se sabe na hora, os alunos saem das salas de aula ( nem isso é preciso, eles já gravam!) e as notícias espalham-se como as chamas num dia quente e ventoso. Por isso, não há que ser hipócrita, a solução era um placard luminoso no átrio de entrada das escolas ( tal como certos restaurantes que vão passando os menús em letras luminosas) onde se divulgava o nome dos alunos, suas infrações disciplinares e respetivas penas exemplares ( nada suaves). A ver se havia heróis, come e cala assim é que devia ser. Mas…os mesmo alunos que saem da sala de aula e espalham as notícias são os mesmos que dizem que isso seria perda de privacidade!

      3. Dar prémios de produtividade aos professores em função do número de participações disciplinares…isso sim!! pois nenhum aluno gosta de enriquecer um professor! já acham que ganha demasiado para o que faz.

      4. Mais coadjuvantes nas salas de aula ,elementos vários que monitorizam em tempo real o comportamento dos alunos, sempre no respeito pela autonomia do professor.

      Conhece melhor solução para estes interessantes tempos modernos?

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