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A Inc-Ilusão e a Flexilhaçada

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As escolas do País encontram-se atualmente completamente imersas em burocracia criada pelos inenarráveis despachos 54 e 55 de 2018. As vagas de papéis são autênticos tsunamis que tudo levam à frente, impedindo os professores de se dedicarem ao que de facto é importante: o processo de ensino aprendizagem.

A primeira vez que li o despacho 55/2018, em cada parágrafo não consegui evitar que na minha mente surgisse a palavra palhaçada… (e juntando à flexibilidade a palhaçada obtém-se Flexilhaçada!).

Fala-se muito em articulações, mas o próprio ministério da educação com todo o seu peso e gorduras não consegue fazer dois programas/competências essenciais articuladas. Basta verificar que a disciplina de Físico-Química necessita de funções exponenciais no 7.º ano, mas em matemática só são dadas no 8.º ano. No 9.º ano seria já necessário os alunos terem conhecimentos de trigonometria, mas esta só é lecionada a Matemática no 10.ºano. No 10.º ano, na Física, seria importante que os alunos tivessem já a noção do que é o círculo trigonométrico, mas só é dado em matemática no 11.º ano. No 11.º, na Química, os alunos tem de fazer operações com logaritmos que só são dados na Matemática do 12.º ano. Irra! Sobre a competência do ministério da educação a fazer articulações estamos conversados. Este ministério não faz o seu trabalho! Criam a confusão e a seguir exigem articulações entre as várias disciplinas às escolas.

O 54 não é melhor. Trata-se de retirar os alunos com mais dificuldades de um ensino individualizado e adequado, para os atirar, sem qualquer rede, para o meio da sala de aula onde já encontram 30 alunos, cada um com os seus anseios e espectativas. A cartilha é sempre a mesma: diminuir o número de professores, neste caso do ensino especial. Esta cartilha esconde-se atrás do consenso que a palavra “inclusão” arrasta. Mas a aplicação deste nefasto 55/2018 é a própria negação da inclusão.

O que seria de Hellen Keller sem o ensino e acompanhamento individualizado de Anne Sullivan. https://pt.wikipedia.org/wiki/Helen_Keller

Nunca teria atingido a brilhante capacidade de intervenção na sociedade se lhe tivessem aplicado a falácia das medidas universais, seletivas e adicionais, inventadas, segundo creio, por um tal de David Rodrigues.

À Escola mais do que esta ilusão da inclusão cabe o papel de preparar Homens e Mulheres para a vida adulta. É altamente prejudicial para um país que a pretexto de uma pretensa inclusão na escola seja imposta uma exclusão aterradora para o resto da vida.

Ao aluno deve ser incutido a noção de esforço e superação, qualquer que ele seja, quaisquer que sejam as suas dificuldades ou condições sociais. Só assim conseguiremos uma sociedade com Cidadãos Plenos.

Aqueles despachos remetem para um terceiro documento que é o perfil do aluno à saída da escolaridade obrigatória que já foi demonstrado ser um desenvergonhado plágio de outros países e de documentos da OCDE. Na minha opinião o prefácio de d’Oliveira Martins é de um pedantismo de chamar vómito.

Completa-se assim a trilogia de uma nova religião que eu (metaforicamente…) designo por Flexilhaçada. A Flexilhaçada tem um conjunto de bispos e acólitos que à semelhança da IURD se autodenominam os detentores da verdade e os verdadeiros salvadores. Acredito que quando se cruzam nos corredores do ministério ou da Universidade Nova se cumprimentem com um muito reverencial “em nome do perfil, da inc-ilusão e da flexilhaçada”. São dotados de uma soberba e arrogância desmedida.

Ou outros… são os “rasteiros”. Aqueles que nada sabem. Sem a bênção da flexilhaçada ainda estariam a “entreter meninos”.

Esta nova religião não se limita a espalhar a palavra, tal como qualquer “boa religião” vende-a. Através de livros, de Ariana Cosme, a 12,90 euros (https://www.portoeditora.pt/produtos/ficha/autonomia-e-flexibilidade-curricular/22208776) ou em ações de formação do IAVE, de Hélder Sousa, a 75 euros (http://iave.pt/index.php/formacao-de-professores/acoes-em-curso).

A religião também tem um braço armado, inquisitivo e inspetivo, deambula pelas escolas a impor critérios de avaliação absurdos e incoerentes, que nem ela própria é capaz de aplicar nos seus exames nacionais.

Os bispos e acólitos por vezes reúnem-se e dão prémios uns aos outros. São todos muito felizes. Quem não concorda com eles é logo excomungado.

Fazem-me lembrar uma praga de processionárias, as lagartas dos pinheiros, que se deslocam em fila, a cabeça de cada uma agarrada ao rabo da que a precede, lá no alto das árvores. Depois de destruir o pinheiro descem e passam ao próximo. Todos na aldeia sabiam que no terreno, na transição de um pinheiro para outro, bastava retirar uma da fila para que todas as outras se espalhassem aleatoriamente. Nenhuma sabia o caminho!

Os Professores serão sempre livres de escolher os seus Mestres. É um dos motivos porque é tão odiada a classe docente por certos grupelhos de privilegiados.

Não me converto nem nunca me converterei à Flexilhaçada, pois eu li José Régio, Professor que tanto me ensinou:

“Vem por aqui” – dizem-me alguns com os olhos doces

 Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: “vem por aqui!”

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali…

Também li Rómulo de Carvalho, Professor do ensino secundário. Encontro mais sabedoria numa linha de Rómulo de Carvalho ou num verso de António Gedeão do que em todos versículos desta miserável Flexilhaçada.

Seu eu fosse religioso, perante a aproximação da Flexilhaçada, eu diria Vade Retro.

Mas como não sou, fico-me por uma expressão de um mero Zeco Rasteiro:

“Vão para o raio que vos parta”

 

Sr. Professor Zé

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3 COMENTÁRIOS

  1. Tem toda a razão, a confusão está instalada e os critérios são a cereja no topo do bolo.
    Perguntou-me se alguém perceberá para onde quer ir, se é para ir para algum lado…
    Por mais que tente, tudo isto transcende a minha racionalidade.
    Definitivamente, viva António Gedeão para manter a sanidade mental. Só a palavra poética é total!

  2. Perfeito retrato do que se passa na realidade das escolas! E aquela dos flexipalhaços quando se cruzam nos corredores…está demais🤣🤣
    PARABÉNS pela análise tão ‘na mouche’!

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