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A Importância Do Tom De Voz

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Para que serve a voz? Comunicar, cantar, expressar. Seja na forma que for a voz é um meio de expressão que usamos através da linguagem. Umas vezes muito bem outras menos bem. Tudo depende do que queremos transmitir e do que o outro absorve. Até podemos ter a melhor das intenções mas se o outro escolher o que quer ouvir, não temos grandes hipóteses.

A linguagem é um mundo tão vasto como a nossa mente. O poder que podemos disponibilizar através do que dizemos é inimaginável. O conhecimento que temos do outro é ínfimo perante aquilo que ele é. Achamos que o conhecemos no todo mas não é verdade. A mente esconde tudo se assim o quiser. Desde tenra idade que aprendemos que há coisas que não devemos dizer…  E ninguém nos ensina isso. Aprendemos porque necessitamos de (sobre) viver. E claro surge a mentira para responder ao outro com o intuito de “não me aborreças mais que não estou para aí virado”. Isto acontece a toda a hora. E mesmo que consideremos que estamos a ser isentos, sem intenções de manipulação do próximo, a verdade é que manipulamos um bocadinho… Quase sempre. O que dizemos é uma coisa, a forma como dizemos é outra completamente diferente mas que enquadrada num determinado contexto pode ser interpretada de qualquer maneira. Todos o fazemos e as crianças também.

Quando o professor está numa sala de aula e faz a sua preleção acerca de determinada matéria capta alguns mas não todos os alunos. Nem todos respondem ao que é dito, à forma como é dito e ao tom de voz.

A importância do tom de voz! As entoações que temos durante um discurso refletem o nosso estado. Para além de querermos transmitir uma informação que consideramos adequar-se mais aquele tom de voz, também temos a influência do nosso estado mental, físico, emocional. É impossível separar a linguagem, a nossa forma de comunicação verbal, daquilo que somos. Ora quando não consideramos que somos ouvidos fazemos o que fazemos com a televisão: se não estamos a ouvir bem aumentamos o som, mesmo que isso incomode quem está a nossa volta. Interessa que ouçamos o que é dito, tenha ou não importância. Quando falamos e elevamos o tom de voz, apenas nos queremos ouvir a nós próprios, como uma arma que dizima qualquer coisa a sua volta. Só a nossa voz ecoa na sala e quem ouvir ouviu!

Se numa preleção o orador aumentar demasiado o seu tom de voz corre o risco da assistência ficar incomodada. Talvez isto se prenda com o nosso início. Quando éramos bebés que bom que era ouvir o tom doce da voz dos nossos pais a embalar-nos e com um shhhhhh associado para nos acalmar. Um shhhhhh é ruído branco que nos tranquiliza, assim como as ondas do mar, o vento ou até os batimentos cardíacos. Voltamos às origens nos momentos que escutamos estes sons. Pegamos nestas âncoras, tal como um barco que quer ficar naquele porto, e escutamos e ficamos atentos. Contrariamente a isto se o som for elevado, agressivo, desadequado o mais provável é desligarmos e entramos num estado de “défice de atenção”. Ou então respondemos na mesma moeda. O outro eleva o tom e eu elevo mais. A partir daí é um escalar de linguagem menos própria por si só ou pelo tom que jamais encontrará solução.

A criança ainda está muito próxima do tempo no qual ouvia o bater do coração da mãe no ventre ou até o shhhhhh dos pais, embalado no seu colo para se acalmar. Quando ingressa numa sala de aula na qual o professor para se fazer ouvir eleva o seu tom de voz a níveis que a criança considera grito, dificilmente conseguirá manter a turma tranquila. A voz pode embalar tal como os pais faziam no colo quando os filhos eram bebés. Esse embalo vai ser recuperado pelas crianças e vão usar essa âncora para se sentirem seguros e escutarem o professor.

Baixar o tom de voz jamais significa falta de pulso para agarrar a turma, quer dizer sensatez, tranquilidade e compreensão.

Procurem escalar no sentido inverso, falar baixo, tranquilamente e verão que a criança copia os vossos atos. As crianças necessitam de um fio guia para terem uma âncora que lhes dê a segurança de que necessitam para seguirem o caminho. E esse guia pode ser simplesmente a vossa voz. Experimentem.

Vera Silva

Pediatra

Investigadora na linha de investigação a Escola e o Cérebro

Universidade Católica Portuguesa

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