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“A Generalidade Das Pessoas Ao Falar Sobre Os Professores Revela Uma Ignorância Gritante”

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Sou professor, mas antes disso também sou pai e tendo também vida fora dos estabelecimentos de ensino onde leciono, lido diariamente com os profissionais das mais variadas áreas do ramo privado.

Acompanho as notícias deste país, ouço comentadores e leio comentários e sinto-me muito revoltado.

A primeira razão é verificar que na generalidade quem fala sobre as os professores e as escolas demonstra uma ignorância gritante sobre a realidade do ensino.

Ouço dizer por exemplo que durante o tempo de crise nenhum professor perdeu o seu emprego. Nada mais falso. A classe profissional que perdeu mais profissionais foram precisamente os professores: eram 156 mil em 2010 e são atualmente 125mil. Como foram poucos os que se reformaram podemos afirmar que cerca de 30 mil perderam o seu emprego. Foram forçados a mudar de profissão e muitos mudaram de país. Os professores conhecem bem a dura realidade, lidam com ela todos os dias.

A diferença entre os privados e os professores é que no privado diz-se que os profissionais são despedidos, no caso do ensino diz-se apenas que diminuiu o número de professores.

A verdadeira questão é que no privado um trabalhador que está a prazo numa empresa durante 3 anos ingressa nos quadros, no caso dos professores podem andar 20 anos a serem contratados anualmente e não entram para os quadros. Porquê esta diferença de tratamento? Quem são afinal os privilegiados?

Os professores não são despedidos porque após 20 anos ainda não entraram para um quadro, mas tal como os outros também ficam sem o seu emprego e sem o seu ganha-pão, tendo que emigrar.

Ouço também dizer que os professores ganham acima da média. Não sei qual será essa média. A realidade é que um professor com 20 anos de serviço ganha cerca de 1200 euros mensais: cerca de 400 euros são para as deslocações entre a residência e a escola; no final do ano, após 40 ou 50 mil quilómetros, as revisões da viatura ficam em cerca de 1200 euros; contrariamente ao que acontece nas empresas é o professor que tem de arcar com as despesas das suas ferramentas de trabalho, computador, impressora, livros, etc. E nenhuma destas despesas pode ser abatida em sede de IRS, ao contrário do que acontece com os privados. Fazendo bem as contas,  se retirarmos ao ordenado de professor o que ele gasta para trabalhar, ficarão cerca de 600 euros. Mais uma vez pergunto, quem são afinal os privilegiados?

Ainda recentemente tive de contratar uma série de serviços a um topógrafo, um arquiteto, um engenheiro, um eletricista e um canalizador. Quando apresentaram os orçamentos choramingaram, que a vida está muito difícil, etc. Todos com carros de marca caríssimos ou carrinhas de caixa aberta novinhas em folha. Após o trabalho realizado e pago, sem demoras, com todo o tempo de serviço contabilizado, incluindo a cervejinha e as horas ao telemóvel, verifiquei uma atuação comum em todos estes profissionais… Até hoje nenhum me entregou a fatura!

Depois fazem as médias dos vencimentos. Mas as médias são apenas dos valores declarados, porque aquilo que não é faturado não conta. Quem são afinal os privilegiados?

Diz-se ainda que a profissão de professor tem estabilidade. Devem estar a falar da estabilidade de trabalhar 4 meses em Cinfães, 3 meses em Espinho e depois mais quatro meses em Sines, tudo no espaço de um ano. Experimentem andar com filhos de terra em terra, dizerem-vos que já não há apartamentos para alugar nem vagas em creches, com direções a exigirem que reponham as aulas de cursos profissionais sem pagamento de horas extraordinárias. Estabilidade? Mas que estabilidade é esta?

Ouço dizer que outros profissionais trabalham muito, 35 ou 40 horas… Só? Pergunto eu. Um professor para além das aulas que leciona tem uma carga burocrática totalmente avassaladora, chegando a fazer semanalmente mais de 60 horas para cumprir com o que lhe é exigido pelo ministério, pelas direções e pelos pais dos alunos.

Recordo um pai de um aluno que me ligou a dizer que só podia falar comigo, para receber as notas, a partir das 19:30 horas, eu acedi e esperei por ele na escola. Estivemos a conversar até às 20:30, no final da reunião o senhor foi para casa, ali ao lado, para jantar. Nem apenas por um segundo lhe ocorreu que eu estava a trabalhar desde as 08.30, ainda tinha 200 quilómetros pela frente até chegar a casa e que para estar ali, até aquela hora, tinha faltado à entrega das notas dos meus próprios filhos. Quem são afinal os privilegiados?

Verifico ainda que nada é cobrado aos pais, eles é que sabem, eles é que conhecem os filhos. Seria interessante colocar camaras de vídeo nas escolas e nas salas de aula para que os pais verificassem o que fazem os seus filhos. A maioria dos pais leva os filhos aos centros comerciais mas é incapaz de os levar a visitar um museu. Alguns recebem subsídio escolar mas depois levam os filhos à escola em carros de alta cilindrada. Um número significativo de pais dá aos filhos telemóveis de quase 1000 euros mas depois acham caro uma visita de estudo custar 15 euros. Mas afinal que pais são estes? Devo acreditar no pedopsiquiatra Daniel Sampaio e concluir que cada vez mais as crianças do nosso País são órfãs de pais vivos?

Relativamente aos bons e maus professores, há canais próprios para fazer queixas. Se as queixas forem fundamentadas há lugar a procedimento disciplinar e o professor é expulso. Mas é muito raro que isto aconteça, porque será? (As queixas revelam-se infundadas?) Em todas as escolas onde trabalhei ao percorrer o País sempre encontrei bons profissionais e profundamente esforçados e dedicados à profissão, capazes de trabalhar até à 2:00 da manhã agarrados ao servidor para que os alunos no dia seguinte tivessem internet. E se por acaso me deparei com alguém mais desiludido com o miserável “patrão” que é o ministério da educação não o condeno, porque considero que a razão e a justiça estão do seu lado.

As faltas dos professores são um mito. A percentagem total das aulas que não são dadas são irrisórias. Se por acaso há baixas médicas estas são passadas por um médico. Porque quando se trata de saúde o assunto deve ser entregue aos profissionais da área. As faltas dos professores são de facto muito visíveis, porque quando um falta cerca de 150 alunos fica sem aulas, mas quando um técnico de logística falta (sim, porque também falta) ninguém dá conta…

Quando se trata de ensino, obviamente o assunto deve ser entregue aos professores e não a meros opinadores de circunstância, são aqueles que conhecem os programas das disciplinas, que passam mais tempo com os alunos e são também quem melhor conhecem as dificuldades dos alunos.

Ouço dizer que nos outros trabalhos quando um trabalhador falta os restantes trabalhadores assumem o trabalho do que falta, não prejudicando os clientes. Pois bem, isto só no mundo da fantasia de um conjunto de iluminados que marca jantaradas em que o tema principal é malhar nos professores. Felizes aqueles que marcam jantaradas, porque se fossem professores estava um em cada canto do País. Ainda há pouco tempo tive de fazer uma reparação na rede fibra ótica na casa que arrendo e por seis vezes estiveram presentes equipas de uma empresa privada que não procederam a qualquer intervenção porque faltava uma qualquer instrução num dos tablets deles, foi só um mês e meio á espera…E depois ainda dizem que os clientes não são prejudicados. Numa dessas vezes um dos técnicos até apareceu completamente bêbado. Não me venham falar do profissionalismo dos privados em comparação com o público.

Fala-se da cultura do medo nas escolas (imposta por professores?) mas nunca ouvi falar de um professor que tenha agredido um encarregado de educação, o que geralmente é notícia são encarregados de educação a agredir professores.

Quanto à suposta “luta” dos professores esta visa sempre melhorar o sistema de ensino em Portugal. É uma luta que é feita principalmente em prol dos alunos e sai do bolso aos professores, porque cada dia de greve é religiosamente retirado do parco vencimento dos professores. Quando alguns fazem almoçaradas e jantaradas para malhar nos professores esquecem que devem a liberdade a Portugueses que lutaram por melhores condições de vida, não a pensar em si, mas a pensar nas franjas mais desfavorecidas da população. Alguns estão em jantaradas mas esquecem que as condições de vida que agora têm não foram dadas, foram conquistadas por Portugueses que lutaram, levaram porrada e alguns morreram, para hoje estarmos aqui com a liberdade possível nestes tempos que correm.

Lamento que a luta dos professores por um sistema de ensino condigno, com condições para os professores e para os alunos seja reduzida a um pretenso “comício individual”, até porque a luta dos professores é também um exemplo para os alunos. Esta ensiná-los-á a ser mais exigentes e combativos com quem nos dirige e representa.

Não compreendo estes ataques dos pais aos professores (porque é disso que se trata), até porque o objetivo é comum, que os filhos de uns e alunos de outros tenham o melhor ensino possível e no futuro possam abraçar uma profissão que os realize, sejam socialmente ativos e vivam em felicidade.

Sr. Prof. Zé
(Professor e Pai)

Comentário retirado do artigo 

Um outro olhar sobre as aulas, o que se passa nas aulas, com a minha revolta

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1 COMENTÁRIO

  1. Ainda no outro dia li, penso que aqui, um comentário de um pai indignado, porque os professores não pensam nos alunos e nas suas famílias. Se há alguém em que os professores pensam é nos seus alunos! E na família dos professores alguém pensa? E nos filhos dos professores alguém pensa? Sou mãe e professora; quando há uma greve os meus filhos também são prejudicados! Pena e que as pessoas só olhem para os seus umbigos e prefiram ouvir o discurso do bota a baixo. É melhor, porque de outra forma, teriam de pôr a mão na consciência e fazer uma análise ao seu próprio comportamento e, isso, dá muito trabalho e trabalho e coisa que a maioria não quer! Por isso, aponta o dedo e diz mal, porque é mais fácil… infelizmente!

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