Início Rubricas A formação tende a tornar-se uma política educativa.

A formação tende a tornar-se uma política educativa.

A formação exigida aos professores para progressão na carreira deixou de estar ao livre arbítrio das necessidades sentidas por cada professor tendo em vista colmatar as lacunas por si detetadas, antes passou a ser mais um instrumento da política educativa para se condicionar o ensino que os governos pretendem.

346
2

Neste último governo agravou-se a tendência da formação de professores se ter tornado em mais um elemento da política educativa para concretizar os objetivos do governo.

Este facto pode ser comprovado da seguinte maneira: em primeiro lugar são os temas lançados pelo governo, como o perfil do aluno, a flexibilidade curricular e a medidas para lidar com alunos com dificuldades (DL54) que foram os temas prioritários da formação no ano passado. Para este ano a formação vai-se centrar na avaliação, para articular esta com os temas atrás referidos. Mas, a grande decisão fica por tomar: o que fazer com os exames? Aqui falta ao governo coragem política, que é resolver se os exames continuam e passar o acesso para o superior para as universidades. Ainda hoje tive ações de formação sobre estes temas e houve unanimidade sobre a contradição disto com exames, cumprimento de programas e reuniões para os docentes articularem, que a existirem tornam o horário dos professores em quase como o dos motoristas, isto é, fazem horas sem lhes pagarem, nem sequer através de ajudas de custo.

Em segundo lugar, a formação sobre as alterações de normativos já referidas só é dada por pessoas que aprovam as medidas tomadas pelo governo e que estiveram nos grupos de estudo que as ajudaram a implementar. Ou seja, estreita-se o campo de recrutamento de formadores aos que apoiam os novos normativos.

Em terceiro lugar, como a regra que impõe que 50% da formação tem de ser formação específica, pode ser um escape ao esquema de centrar a formação nas novas políticas educativas, abrem-se exceções a esta regra, permitindo a título excecional que a formação não específica naqueles temas possa ser considerada específica.

A formação exigida aos professores para progressão na carreira deixou de estar ao livre arbítrio das necessidades sentidas por cada professor tendo em vista colmatar as lacunas por si detetadas, antes passou a ser mais um instrumento da política educativa para se condicionar o ensino que os governos pretendem. Estamos longe do conceito de autonomia das escolas e do reconhecimento do professor como um ser reflexivo. O novo paradigma é o professor ser um mero transmissor do que o governo decide, isto em contradição com o que se defende para os alunos, que não sejam recetores de conhecimento, mas analistas e criativos.

Concluindo, a autonomia é cada vez mais um «soudbite» sem qualquer relação com a realidade. Assiste-se é a cada vez mais à consolidação de um poder educativo centralizado no ministério da educação que pretende criar executantes.

Rui Ferreira

COMPARTILHE

2 COMENTÁRIOS

  1. Concordo e perdoem me se digo algo que nao deva, mas direi o que sinto. Receio que para alem disto, exista um certo lobismo, co.o em muitas outras coisas.
    Cmp

  2. Sinto exatamente o mesmo.
    As atuais ações de formação mais parecem sessões de propaganda, de doutrinação ideológica.
    Muito pior do que um professor / mero transmissor de conhecimentos, é um professor / transmissor da ideologia governamental.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here