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A excelente ideia de querer uma escola livre de plágio

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Ricardo Jorge, a quem a revista Visão desta semana dedica a capa e tão referido nos media ao longo deste ano por dar o nome ao Instituto que fundou (com a designação de Instituto Central de Higiene) e que se afirma como o “braço laboratorial do sistema de saúde português”, e Teófilo Braga, que foi Presidente da República durante alguns meses em 1915, protagonizaram há pouco mais de cem anos uma polémica azedíssima.

“Eu sei quem é Ricardo, e serenamente lhe lembro: Vá para o Porto Pireu”, escreveu Teófilo Braga. Ricardo Jorge não respondeu suavemente: “Esganiça-se a gritar-me – vá para o Porto Pireu, vá para o Porto Pireu! Que pilheria mordente a deste homem! Apetece-me responder-lhe portuguesmente que vá… para uma coisa com os mesmos pp e sonido semelhante ao tal Porto Pireu. E com a acertada interjeição me desavinha deste estafado estafermo”.

Quem começou a azedar a conversa foi Ricardo Jorge, que, furioso, invectivou Teófilo Braga por considerar que o professor de Literaturas Modernas no Curso Superior de Letras lhe tinha plagiado uma obra sobre Francisco Rodrigues Lobo, poeta do século XVI-XVII. O médico Ricardo Jorge publicara na Capital um conjunto de textos caracterizados por uma imensa violência verbal que cotejavam extractos do original e do plágio.
No primeiro desses escritos reunidos depois no livro Contra um plagio do Prof. Theophilo Braga. Dados para a etho-psicologia literaria duma pedantocracia [1], Ricardo Jorge cita o artigo e o parágrafo do Código Civil que tipificava o crime de Teófilo Braga: “Os autores de quaisquer escritos têm o direito de citar-se reciprocamente e de copiar os artigos ou passagens, que fizerem a bem do seu propósito, contanto que indiquem o autor, o livro ou o periódico a que as citações ou os artigos pertencem”.

O plágio não é um crime nascido com a Internet. Se é verdade que ela torna extraordinariamente simples o copiar e o colar, não é menos certo que também permite apurar com muita facilidade, ainda que, eventualmente, com algum dispêndio de tempo, o que foi copiado e colado.

Nas escolas, o plágio é uma prática banalíssima, não muito sancionada. Mas, no Verão, o indigitado ministro da Educação brasileiro não chegou a tomar posse por causa de suspeitas de plágio (e de ostentação de falsos títulos académicos). A circunstância de o procedimento ser punido por lei é, tratando-se de alunos, menos relevante do que aquilo que revela sobre um modelo de ensino. Prestar atenção ao plágio escolar é também, por isso, cuidar de incentivar aprendizagens de qualidade.

Promover a autonomia e o rigor ético é o que pretende o projecto “Uma Escola Livre de Plágio” dinamizado na Escola Secundária de Vila Verde pela Equipa “Uma Escola Livre de Plágio” e pela Biblioteca Escolar, com a colaboração do Clube da Rádio Escolar e do Clube de Multimédia e Comunicação. Para os promotores da iniciativa, que a professora bibliotecária Maria José Ribeiro coordena, o recurso sistemático ao plágio, “vulgo copy-paste”, deve-se a duas razões principais. Por um lado, à “falta de autonomia na construção do pensamento e do discurso”. De facto, “para muitos dos alunos, porque isso lhes é mais fácil, estudar é memorizar e é preferível comodamente reproduzir discursos e pensamentos alheios a construir um pensamento e saber próprios, ainda que construídos sobre uma base criteriosa de informação”. Por outro lado, à “falta de saber fazer: saberá um aluno fazer outra coisa que não copy-paste?” É que “o tratamento crítico da informação exige também uma aprendizagem e o recurso a estratégias que forcem o aluno a escrever o seu próprio texto, recorrendo, por exemplo, a exercícios afins dos que se dinamizam no âmbito da escrita criativa”.
A dinamização de cursos de curta duração sobre pesquisa e tratamento de informação; o lançamento de um concurso escolar intitulado “Não ao Plágio!”; e a ajuda na realização de trabalhos escolares, designadamente na selecção de fontes, na estruturação interna, no tratamento da informação, na revisão de texto e na referenciação bibliográfica, são algumas das actividades que a Escola Secundária de Vila Verde promoverá durante este ano lectivo.
“Uma Escola Livre de Plágio” é uma excelente ideia que deveria ser mais amplamente mobilizadora do trabalho dos professores portugueses, tanto mais que se sabe que muitos deles não lidam com a propriedade intelectual com o cuidado devido, aliás legalmente estabelecido.

Fonte: Diário do Minho

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