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“A escola ou faz uma revolução ou morre”

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Gostavam de ser professores ou ter os vossos filhos numa escola assim?

*Escrito por uma jovem professora de 73 anos 😉


CARTA ABERTA SOBRE A EDUCAÇÃO: A REVOLUÇÃO NECESSÁRIA NAS ESCOLAS

Neste tempo em que as novas tecnologias invadiram e tendem a dominar todas as áreas da nossa vida e em que crianças de dois anos clicam no telemóvel da avó e escolhem a música que gostam, não podemos querer que as nossas crianças e jovens se sujeitem a escolas e sistemas de ensino absolutamente démodé.

Assim sendo não pode a Escola continuar a seguir os modelos do século XVI, sob pena de ela própria se “suicidar”. A Escola ou faz uma revolução, ou morre.

Não faltará muito para que apareçam as primeiras escolas virtuais, sem necessidade de professores e de edifícios, com todos os inconvenientes e frieza que isso contém. Pode parecer um cenário improvável, mas é só uma questão de pensar mais além com os dados que temos.

Para que haja esperança no futuro é necessário formar pessoas capazes de pensar-reflectir, com imaginação, espírito criativo, capacidade crítica e comportamento ético.

Para tal é preciso mudar rapidamente de paradigma:

1. A ESCOLA NÃO É UM LUGAR PARA ENSINAR, MAS UM LUGAR PARA APRENDER.

O ensino centra-se no professor. A aprendizagem centra-se no aluno; ele é o construtor da sua própria aprendizagem. Isto implica que o professor imagine e crie metodologias de autoaprendizagem que levem o aluno a descobrir e a pensar, sendo que o papel do professor é acompanhar e orientar o aluno nesse caminho de descoberta.

Ex: no 1º ano o aluno aprende a ler sozinho, com um método-jogo de autoaprendizagem da leitura, com o qual atinge uma velocidade de leitura praticamente normal (nunca vai soletrar) contribuindo para o aumento da autoestima, porque é entusiasmante e para um relacionamento harmonioso entre todos os alunos, porque eles precisam uns dos outros para jogar.

Na Matemática a manipulação do método Cuisenaire [jogo versátil e divertido] leva o aluno, sem esforço, desde as simples contagens às quatro operações básicas até à noção de potência e raiz quadrada; pode ainda ser utilizado para outros conceitos.

2. A PROGRESSÃO ESCOLAR NÃO DEVE FAZER-SE MAIS POR TRANSIÇÃO DE ANO, NEM BASEAR-SE SÓ EM TESTES DE AVALIAÇÃO.

A transição escolar deve fazer-se por níveis, tal como nos jogos dos telemóveis e não deve obedecer a nenhum calendário. O aluno transita assim que superou o seu nível, podendo haver alunos em diferentes níveis, ou o mesmo aluno estar em níveis diferentes nas diversas disciplinas.

Ex: uma criança pode estar no nível 9 em História e no 5 em Matemática.

Cada nível deve conter os módulos programáticos. A aprendizagem deve fazer-se por módulos e o aluno não deve passar de módulo enquanto o não manipular com muita segurança.

3. A ESCOLA PRECISA DE SER UM ESPAÇO ABERTO ONDE A INFORMAÇÃO E A COMUNICAÇÃO CIRCULE, O SABER NÃO PODE MAIS FICAR TRANCADO NAS SALAS DE AULA.

 O edifício escolar deve ser constituído por núcleos e não por salas de aula.

Ex: Deve existir um núcleo para a Matemática, outro para as Ciências, outro para as Artes etc. A biblioteca pode ser o núcleo do Português .

Os núcleos devem conter materiais diversos tanto de consulta como de manipulação. Os alunos não precisam de ter materiais ou livros próprios, nem devem haver livros únicos ou obrigatórios; A aprendizagem é uma experiência de descoberta e o aluno deve poder circular no núcleo e descobrir, ou ser levado a isso, o que lhe convém.

4. O ENSINO EXPOSITIVO CENTRADO NO PROFESSOR NÃO TEM MAIS CABIMENTO; A INDISCIPLINA NAS SALAS DE AULA HÁ MUITO QUE O VEM PROVANDO.

Como já se percebeu, o papel professor é orientar e facilitar a aprendizagem do aluno. É também um avaliador, não sendo contudo o único; devendo a avaliação constar de três momentos com diferentes ponderações: avaliação feita pelo professor, autoavaliação em que o aluno propõe e defende a sua nota e a avaliação feita pelos pares.

A avaliação é um momento precioso para desenvolver a capacidade crítica e o sentido de justiça, logo desde o 1º ano de escolaridade.

5. OS ALUNOS NÃO SÃO ARMAZÉNS PARA ENCHER DE CONHECIMENTOS.

O que é importante não é apenas o conhecimento , mas o que se faz com ele, ou seja: o aluno deve ser capaz no fim de cada módulo de saber utilizar e manipular o conhecimento adquirido em diferentes situações.

6. A ESCOLA DEVE FORMAR NÃO PARA O SABER FAZER, MAS PARA O SABER PENSAR.

O aluno deve aprender a fazer mas não de uma forma mimética, mas reflectindo e compreendendo o que está a fazer.

7. UMA DISCIPLINA DE ÉTICA PRÁTICA DEVE FAZER PARTE DE TODOS CONTEÚDOS PROGRAMÁTICOS DESDE A INFANTIL ATÉ AO FIM DA UNIVERSIDADE.

Como disciplina prática deve incluir acontecimentos ocorridos na própria escola e outras situações, que levem os alunos a reflectir e a apresentar soluções

A ética além de dever estar sempre presente no contexto do espaço escolar – entendendo-se por espaço escolar todos os intervenientes: alunos professores, empregados, sendo que é talvez necessário criar pequenos cursos de formação e tempos de reflexão nessa área, tanto para empregados como para professores.

Fui professora muitos anos e dói-me ver o estado a que a Escola chegou, por isso, aqui deixo um manifesto das minhas opiniões.

Como pessoa, acho que todos nós devemos e podemos contribuir com as nossas ideias para um mundo melhor. Como dizia o presidente dos EUA “a questão não é o que pode o pais fazer por ti, mas sim o que podes tu fazer pelo teu país”

Fonte: Visão

 

9 COMMENTS

  1. …a escola já está num estado de quase-morte! nada a poderá salvar ao fim de muitos anos de incompetência de doutos políticos que passaram pelo ministério de educação: nenhum teve «tomates» para empreender fosse o que fosse!

  2. Concordo em absoluto! Por onde começar, Eis a questão! Esta escola terá de se organizar de forma totalmente diferente e não irá servir as editoras. Por outro lado, terá de investir em materiais próprios que não podem ser roubados. Terá de ter mais espaço para menos alunos, logo não será minimamente rentável – até porque terá de por os professores a criar situações de aprendizagem em grupo, o que implica uma mudança radical na sua formação em exercício porque deverá ver valorizado esse esforço enorme de partilhar os seus próprios manuais e de interagir com os seus pares para criar sinergias. Parece-me muito possível mas pouco desejável pelas “maravilhosas” chefias desta nossa educação. Ser á que a nova Ordem terá algo a dizer sobre isto? Espero bem que sim, já que alia aprendizagem efetiva a responsabilização de todos os intervenientes (incluindo EEs).

  3. Com o devido respeito; o Construtivismo é só mais uma teoria, que vários cientistas contestam; a auto-aprendizagem é um mito, muito pior na aprendizagem da Leitura e da Escrita, por exemplo está provado, em diversos estudos, que os ditos ”métodos modernos”, como o Método Global, prejudicam, em primeiro lugar, as crianças de estratos sociais mais desfavorecidos. Não é de todo verdade que crianças do 1º ano de escolaridade tenham capacidade de auto-análise do Currículo (ainda há um currículo?) , embora não me repugne que se faça uma abordagem, necessariamente simples, de auto-avaliação , nestas idades. Dizer que a escola de hoje é igual à do século XVI só pode ser dito por brincadeira, embora alguns o repitam incessantemente… Para quem lança frases ao vento, que ficam sempre bem porque parecem libertárias, aconselho a obra , excelente, de Rómulo de Carvalho ” História do Ensino em Portugal”. Este último livrinho é, de facto, um calhamaço, faz doer as pestanas, e provoca nos indivíduos uma coisa que se chama: aprender de facto como era o ensino e como ele se foi transformando, profundamente, ao longo dos tempos… Não está na moda, o tal livrinho, e o estudo demorado das coisas, embora tenha sido escrito por um Mestre que admiro , profundamente, um Homem que transmitia conhecimentos e que também era um grande poeta.

  4. Da autora Carla Macedo Martins fica resenha sobre o livro:
    ”Vigotski e o “aprender a aprender”: crítica às apropriações neoliberais e pós-modernas da teoria vigotskiana. Newton Duarte, Campinas: Autores Associados, 2000, 269p.

    Como o título indica, o livro Vigotski e o “aprender a aprender”: crítica às apropriações neoliberais e pós-modernas da teoria vigotskiana se propõe a analisar a incorporação da obra do psicólogo Lev Semenovich Vigotski (1896-1934) ao universo ideológico neoliberal e pós-moderno e sua conseqüente desvinculação da matriz teórica marxista.

    …o lema “aprender a aprender” é um representante das pedagogias que retiram da escola a tarefa de transmissão do conhecimento social objetivo. Esta concepção pedagógica se aproxima – e até se confunde – com o pós-moderno, pois, para este último, de forma semelhante aos ideários construtivistas, o conhecimento estaria centrado nas estruturas de percepção e ação do sujeito e na sua capacidade de se adaptar a novos ambientes.

    Assim, a equivalência entre o pensamento vigotskiano e o ideário do “aprender a aprender” tem como conseqüência a transformação do primeiro em um instrumento útil para o esvaziamento do processo educacional escolar, cuja importância e centralidade são postas à prova exatamente pelo ideário pós-moderno. Por este caminho, Duarte demonstra uma questão central em sua investigação: a aproximação de Vigotski aos ideários pedagógicos do “aprender a aprender” implica uma apropriação deste estudioso ao pós-moderno e ao neoliberalismo.

    Quanto à segunda questão, o autor inicia a discussão observando que o relativismo culturalista, com sua ênfase nas interações lingüísticas intersubjetivas, é bastante caro ao pós-moderno – ou, nas palavras do autor, ao “niilismo pós-moderno”. A aproximação do pensamento vigotskiano com o relativismo culturalista como uma forma de incorporar este pensamento ao ideário pós-moderno é, assim, evidente. Portanto, traduzir a dimensão social da mente presente em Vigotski em termos de uma ênfase nas interações intersubjetivas resulta em uma apropriação pós-moderna do pensamento vigotskiano….”

  5. É preciso gostar muito de ser professor e sair da escola no tempo certo para se continuar a ser professor!

  6. A propósito de trabalho e repetição de processos… mas aqui já parece ser bom porque é futebol…
    ”É verdade que todos os golos, passes, fintas e exibições que vão gravar o nome de Cristiano Ronaldo na história apareceram com uma boa dose de talento. Mas também é verdade que o jogador português é, muito provavelmente, um dos futebolistas que mais trabalha, treina e pratica todos os lances que o fazem brilhar dentro das quatro linhas.”
    Jornal Observador

    • Continua e ideia que fazer diferente implica menos esforço, menos dedicação. Se eu quero ensinar os alunos a passar e a receber uma bola, posso colocá-los frente à frente 30 minutos e vão evoluir, mas tb vão desmotivar e não vão querer fazê-lo novamente. Agora, se eu lecionar o mesmo conteúdo, utilizando uma metodologia diferente, como uma pequena competição entre os diferentes alunos, ou um simples jogo dos 5 passes, todos vão aprender o mesmo conteúdo, mas continuarão motivados pois gostam do que estão a fazer. ESTA é a principal diferença e é isto que tarda em ser percebido por muitos agentes educativos.
      Sim à exigência, sim à motivação dos alunos, sim à adaptação ao seu nível cognitivo.

  7. Olá, também sou uma jovem com 55 anos
    Realmente, prescrevo o que diz, ainda hoje brinquei num triciclo dentro de uma loja, após uma formação no sindicato, embora me sinta desgastada a cair para o lado, ser professor/educador é uma forma de estar na vida. Todos vamos necessitar de apoio de psiquiatria, fisioterapia e se não nos unirmos….o centeno, irá ficar contente…por não tem reformas a quem pagar,
    Bem hajam, porque nem medalhas de cortiça vamos ter. Porque a cortiça está na moda!!!!!!!!!!!!!!!!!

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