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A Escola Educa E/Ou Ensina?

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A propósito de um texto de uma amiga minha (que partilho aqui no final deste texto) tive uma discussão/reflexão sobre a dicotomia entre a escola que educa e a escola que ensina.

Se há algum tempo atrás considerava que existia uma linha clara de separação entre ambas, atualmente acho muito pouco provável, ou se não impossível, colocar ambas em caixas absolutamente separadas.

Há atividades que são da escola e não da família? Há. Há atividades que são da família e não da escola? Também. Mas há igualmente um espaço onde inevitavelmente ambas se tocam e não há nenhum problema com isso.

Um dos projetos mais interessantes implementados nas escolas é o Desporto Escolar. Este projeto permite a todos os alunos a possibilidade de poder experimentar vários tipos de desporto. Modalidades que, em muitas situações, milhares de alunos não poderiam experimentar. Não seria bom serem experiências em família? Sim. Mas se por um lado permitem vivências que poderiam não ter espaço no seio familiar permite, por outro lado, criar o gosto por determinada modalidade e continuar através da família.

Aprender a andar de bicicleta faz parte das memórias infantis de muitas crianças. Eu aprendi a andar de bicicleta com o meu pai. O meu tio tinha-me oferecido uma BMX encarnada e cansava o pai rua abaixo, rua acima. Não foi fácil, ainda tive de usar quatro rodas por algum tempo, até que duas finalmente bastaram. Recordo-me destes momentos e recordo-os em família. Mas eu tive a sorte de me terem oferecido uma bicicleta, dos meus pais o poderem fazer e de saberem a importância de promover esta aprendizagem e de outras sem ser preciso o empurrão da escola.

Na escola lêem-se histórias e isto não retira os momentos de ler histórias em família, complementa, e em muitos casos promove esta atividade. Recordo-me bem da reciclagem, a escola foi o principal meio de educar para uma utilização mais responsável e trouxe para casa de muitas famílias esta consciencialização.

A escola é responsável, por inerência, por educar para uma sociedade mais responsável devendo ser cada vez mais um espaço de reflexão e pensamento crítico (tenho dificuldade em pensar a escola num espaço que apenas transmite conhecimentos). Não pretende, nem deve pretender, sobrepor-se a momentos que devem ser de família mas sim a potenciar e a complementar aprendizagens que também são em família.

Numa sociedade que apregoa mais sustentabilidade, uma forma de vida cada vez mais saudável e onde em cada vez mais locais se fomenta a utilização de bicicletas como meio de transporte diário, inclui-la no currículo não nos deverá chocar ou fazer achar que rouba aprendizagens que devem ser no seio familiar. Por essa ordem de ideias quantas atividades e experiências teria a escola de se negar a fazer diariamente por poderem ser consideradas atividades de família. Quem traça o limite? Não existe porque há, naturalmente, um espaço comum. Aquele espaço que coloca escola e família de mãos dadas pois são ambas, no seu equilíbrio e complementaridade que educam, uma criança.

Joana Almeida

(https://www.publico.pt/2019/03/31/sociedade/opiniao/criancas-bicicletas-escola-liberdade-1867458)

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2 COMENTÁRIOS

  1. Ainda estou para ver os psicólogos exigirem a quem de dever que os pais devam ter horários de trabalho que lhes permitam ter tempo para os seus filhos; exigir a quem de dever que se organize o trabalho ao invés da exploração para que as crianças tenham, efectivamente, pais; exigir a quem de dever um travão à crescente desregulamentação do trabalho que precariza os pais que precisam pagar contas; exigir a quem de direito que os pais possam ter tempo de ser pais e quando não tiverem essas competências que existam respostas; exigir a quem de dever que se paguem ordenados condignos ao custo de vida para que as crianças possam ter acesso a estímulos necessários nas idades adequadas; a exigirem a quem de dever que as crianças não passem o dia inteiro na escola e possam ter tempo e espaços para desenvolver outras aptidões/ diversões e brincadeiras …

    Aquilo que vejo, continuamente, é a escola (lugar de trabalho) levar com tudo e com todas as disrupções e disfunções sociais, familiares, económicas e afins… ora as crianças, supostamente e quando têm pais presentes, aprendem precocemente como comportar-se à mesa, na praia, na igreja, no médico, no jardim, … a dirigir-se aos mais velhos, a reconhecer diferentes códigos de linguagem e de comportamento; …;deveriam chegar à escola e perceber que ali é o seu local de aprendizagem/ de trabalho e não o parque infantil, o clube de artes ou a associação recreativa…

    Ora as escolas carecem, crescentemente de psicólogos clínicos e crescentemente de gabinetes de saúde mental…
    A escola não precisa de psicólogos para ensinar os professores a ensinar (saber, conhecimento, ciência, trabalho e disciplina…) – cada qual no seu lugar! Mas precisa dos psicólogos para que trabalhem a desmotivação, que trabalhem a falta de auto-estima, que trabalhem a resistência à frustração, que trabalhem os desequilíbrios emocionais, que trabalhem a agressividade e violência, que trabalhem o saber estar e respeitar, que trabalhem a família que precisa de ajuda, …, fatores estes que justificam MUITO do insucesso dos alunos e cujas raízes estarão lá muito, muito atrás… algures na infância, quando precisaram pais e “não os tinham”…
    O insucesso dos miúdos radica muito mais nestes aspectos do que nas matérias, conteúdos, nos processos de ensino,… isto é no ensinamento (devo ter acabado de dizer uma barbaridade demodé) dos seus professores…

    Já agora tenho amigas psicólogas que preferiram colocar os seus rebentos nos “S. Joões de Brito”, nos “Manéis Bernardes” , nas “Santas Cecílinhas”…

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