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A Escola E A Ascensão Social

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O SE Costa veio recentemente falar da escola como «elevador social», referindo a este propósito o papel do 54/18, como elemento integrador e que garante oportunidades aos mais desfavorecidos, ao garantir o sucesso a todos os alunos, através das chamadas medidas universais.

Por outro lado, um jornal explicava que «a indisciplina nas salas de aulas está a prejudicar o ensino e é um dos motivos pelos quais cada vez mais pais procuram explicadores para os filhos mais cedo, logo no 1.º Ciclo. A ansiedade e a pressão pelas boas notas justificam que já não se vendam apenas aulas particulares de Matemática, mas também para as línguas, as Ciências e, até, o Português».

Estas duas lógicas são contraditórias, ou o elevador social só funciona com as medidas universais, isto é, adapta a avaliação ao aluno, se o aluno não teve sucesso com o nível normal de exigência, reduz-se o mesmo; ou funciona com mais esforço, com mais repetições, nas explicações.

O SE Costa acredita na solução da escola se adaptar ao aluno, enquanto os pais, conhecendo a vida, optam pela segunda, o aluno é que tem de estar preparado para o nível normal de exigência.

Por outro lado sabemos que quando se diminui o grau de exigência, o que acontece é a desvalorização social do ensino. Por exemplo, hoje, muitas licenciaturas são desvalorizadas socialmente, porque os alunos saem das faculdades impreparados, pelo que de seguida se passa a exigir o mestrado. Quando o ensino facilita, exige-se o grau seguinte. Mais uma vez a lógica social, resolve o problema dos facilitismos, desqualificando-os.

Concluindo, estamos perante dois modelos para se ter sucesso, ou se baixa o nível de exigência, as chamadas medidas universais, no modelo do governo, ou suprime-se a falta de exigência da escola, com as explicações, a escolha dos pais da classe média. Os pais ainda acreditam na escola pública, mas cada vez mais complementam-na com as explicações.

O elevador social é para os pais o sucesso com exigência e quando a escola não o garante procuram-no no privado, a tempo inteiro, nos colégios, ou parcialmente nas explicações. Mas este modelo não está ao alcance dos mais pobres por não ser gratuito. O que a escola pode fazer é reduzir as turmas, aumentar a coadjuvância, reforçar as horas nos anos de exame recorrendo ao crédito horário, etc. (tem-no feito timidamente devido às restrições financeiras), nunca reduzir a exigência.

Fazendo-o, será que caminhamos para uma escola pública das medidas universais e para os mais pobres, havendo ao lado uma escola privada para os mais ricos, mesmo que por enquanto esta escola privada seja só a das explicações?

As duas velocidades no ensino, ou seja níveis diferentes de exigência na avaliação (conceito usado na Europa para níveis diferentes de integração económica), significam descriminação e limitação da escola, em termos de elevador social, para quem usufrui das medidas universais. Os pais da classe média têm claramente esta perceção e recorrem às explicações para a contornar.

Rui Ferreira

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