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“A escola do conhecimento apela à criatividade dos seus agentes educativos e dos seus alunos”

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Após a publicação do artigo Exemplos De Critérios De Avaliação Que “Abraçam” A Flexibilidade Curricularsolicitei ao diretor do Agrupamento de Escolas Nº1 de Abrantes, Jorge Costa, uma breve entrevista por escrito que gentilmente foi concedida.

O Agrupamento de Escolas nº1 de Abrantes tem estado na linha da frente da flexibilidade curricular. O que vos levou a mudar procedimentos e práticas?

O que levou o Agrupamento de Escolas N.º 1 de Abrantes a mudar procedimentos e práticas de avaliação foi o facto de termos consciência de que a forma como avaliávamos não colocava a avaliação ao serviço da aprendizagem. Os critérios eram, fundamentalmente, de ponderação, baseados em classificações obtidas em testes ou fichas de avaliação. Tínhamos, também, consciência da injustiça resultante da forma como avaliávamos (por exemplo a classificação de um teste no 1.º período influenciava a avaliação sumativa do final do ano, mesmo que o aluno, entretanto, já tivesse superado as dificuldades diagnosticadas).

Quais as principais alterações que implementaram na escola?

Genericamente, as principais alterações implementadas pelo Agrupamento foram ao modelo de classificação existente, intensificando o foco numa avaliação efetivamente formativa, assim como nos critérios de avaliação.

Seguramente que nem tudo foi fácil, na sua opinião, quais foram os maiores obstáculos que encontraram ao longo deste processo?

Nem tudo foi fácil. Nem tudo é fácil. Na minha opinião, os dois maiores obstáculos que encontramos neste processo também têm, eles próprios, um lado positivo. O primeiro obstáculo foi o volume de trabalho inicial nos departamentos e grupos de recrutamento, nos professores. O segundo obstáculo foi alguma resistência inicial de uma pequena parte dos docentes. O lado positivo destas duas dificuldades é o ter permitido a discussão e reflexão sobre a temática e a tentativa de se “encontrar o caminho”.

Uma das maiores críticas à flexibilidade curricular é que esta visa o facilitismo e a transição automática. Concorda com essa afirmação?

Não concordo com essa afirmação! O que se pretende é que os alunos aprendam mais e melhor. Em todo o caso, a modernização proposta pela flexibilidade curricular, que hoje as escolas são desafiadas a aceitar, de modo a serem elas próprias agentes da mudança, enfrenta as suas dificuldades. O maior constrangimento reside na diferença que existe entre o modo de fazer adquirido e o modo de fazer necessário para realizar as mais diversas mudanças. O passado tem quase sempre associado algum tipo de conforto (a manutenção do status-quo), e o futuro tem quase sempre associado um elevado grau de incerteza e de risco.  Por isso, não chega haver políticas educativas e suportes legislativos para que a mudança aconteça. O futuro das escolas não é construído, primordialmente, pelos dirigentes políticos ou pelos diretores. O futuro das escolas estará na capacidade de nos reinventarmos e será construído por cada um de nós, professores.

Os vossos critérios de avaliação apontam claramente para níveis de desempenho, afastando-vos das “amarras” das ponderações. Podia explicar-nos a vossa visão e o que pretendem implementar?

A nossa visão é a de que a avaliação formativa deva assumir primordial importância no processo de avaliação dos alunos e deva fornecer, a todos os envolvidos, feedback informativo sobre o desenvolvimento das aprendizagens, permitindo (auto)regular todo o processo de ensino/aprendizagem.

Pretendemos que os critérios de avaliação, de cada disciplina/ano, devam traduzir a importância relativa que cada um dos domínios e temas assume nas Aprendizagens Essenciais, e devam ter em conta, entre outros, os princípios fundamentais seguintes:

  • o conjunto de descritores previstos para uma disciplina/ano de escolaridade deve avaliar conhecimentos, capacidades e atitudes previstas nas Aprendizagens Essenciais e no Perfil do Aluno à Saída da Escolaridade Obrigatória;
  • os instrumentos de avaliação deverão ser diversificados;
  • um instrumento de avaliação terá tantas pontuações quantos os descritores dos domínios/sequências/temas/módulos e conhecimentos, capacidades e atitudes que estão a ser avaliados;
  • a dificuldade apresentada por um aluno e registada pelo professor no decurso da avaliação, num determinado momento do ano, não deverá ser considerada na avaliação sumativa, quando se verificar que o aluno superou o problema.

Estarão os professores preparados para largar o “rigor” das grelhas de Excel? Não teme uma falta de equidade na avaliação e incompreensão por parte de alunos e pais?

Não tenho nada conta as grelhas de Excel. Pelo contrário, entendo que as grelhas de Excel são um bom recurso para ajudar a avaliar. Em todo o caso, não podemos esquecer que avaliar é muito mais do que classificar.

Os alunos e os pais compreendem este modelo porque a avaliação é transparente e está ao serviço da aprendizagem. A equidade existe porque todos os alunos têm a oportunidade de, ao errarem, tentarem de novo.

E os exames? Como “casa” os exames que têm uma avaliação igual para todos com a vossa avaliação diferenciada?

Ao colocarmos a nossa avaliação ao serviço da aprendizagem, pretendemos que os nossos alunos aprendam mais e melhor. Se aprenderem mais, não vejo qualquer problema com os exames, na medida em que estarão melhor preparados.

Enquanto observador do fenómeno educativo, quais deveriam ser as prioridades na área da Educação para os próximos anos?

O acesso à educação é um direito de todas as crianças e jovens, tendo como princípio a igualdade de oportunidades. Este exórdio é um desígnio difícil de alcançar, considerando as inúmeras variáveis internas e externas à escola. Há aspetos em que, por muito que a escola e os seus professores se esforcem, dificilmente se consegue obter resultados sem uma ação conjunta e devidamente concertada com outros responsáveis sociais.

Muito do insucesso escolar tem causas externas à escola, e esta, sozinha, tem muita dificuldade em ultrapassar problemas de ordem social, económica, cultural,… Muitos dos alunos com insucesso e principalmente com absentismo elevado, provêm de famílias socialmente desfavorecidas, com alguma pobreza socioeconómica e, em que, por vezes, a miséria moral e existencial acontecem. Quando digo miséria moral, não estou a falar de qualquer valorização religiosa, mas sim de um problema cultural, da falta de valores de civilidade e de bons hábitos na educação dos filhos. Assim, existindo outras pobrezas tão graves quanto a pobreza socioeconómica, como as pobrezas de ordem moral e existencial, que também causam graves problemas a muitas crianças e jovens, bem como a toda sociedade, importa conjugar esforços para se tentar minimizar e ultrapassar este problema de origem cultural. A pobreza, seja de que natureza for, não pode continuar a sentenciar os nossos alunos ao insucesso escolar.

É minha opinião que as prioridades se deveriam agora focar no que está a montante da escola, de forma a se cumprir a equidade.

O que o faz levantar de manhã para ir para a escola?

Vou todos os dias para a Escola, entusiasmado, porque acredito na escola do conhecimento humano no sentido mais amplo e estou empenhado nela.

A Escola que, em tempos, foi o veículo principal de acesso à informação, hoje, não pode competir com as novas formas de acesso à informação que são, atualmente, um bem de acesso livre e tendencialmente gratuito. O conhecimento, por outro lado, é a “digestão inteligente” da informação. Podemos dizer que, a partir de toda a informação que nos rodeia, devemos selecionar a informação que nos interessa para um determinado contexto, “digerir” essa informação, para extrair nova informação e investir essa nova informação em ações concretas, produzindo conhecimento. 

A escola do conhecimento apela à criatividade dos seus agentes educativos e dos seus alunos. Os professores têm a missão de dar condições pedagógicas aos seus alunos que estimulem a sua criatividade e que os libertem do professor e da própria escola. Educar implica libertar e só educamos alguém quando esse alguém se liberta de nós. Ser criativo e inovador é poder errar, aprender com os erros e corrigir a trajetória, é ser capaz de agir e ter ferramentas intelectuais e emocionais que ajudem a construir o futuro.

Muito obrigado pelo tempo que dispensou e felicidades para a comunidade educativa de Abrantes.

6 COMENTÁRIOS

  1. Não assino por baixo, porque a criatividade, não existe sem conhecimento e trabalho duro, o senhor diretor mostra algum bom senso e parece que fará o que é necessário para que os alunos , de facto, aprendam, em vez de ser escravo de uma ideologia… Esperemos que dentro do seu agrupamento as escolhas sejam feitas ouvindo os professores e virando de modo , se forem por caminho errado…

  2. Concordo no geral com o que é dito. Aliás, é o que é dito por quase todos os directores e ó o que parece ser correcto.
    “A escola do conhecimento apela à criatividade dos seus agentes educativos e dos seus alunos. Os professores têm a missão de dar condições pedagógicas aos seus alunos que estimulem a sua criatividade e que os libertem do professor e da própria escola. Educar implica libertar e só educamos alguém quando esse alguém se liberta de nós.”

    No entanto (e há sempre um no entanto ou vários), o que acima transcrevi esbarra com a realidade em muitas escolas. Como conciliar esta retórica com a prática com as condições em muitas escolas onde não há sinal de internet, onde os PCs estão a precisar de manutenção e o videoprojectores projectam em cores néon. Quando projectam.
    Ser admoestado por deixar alunos do secundário serem livres de escolher outro espaço onde querem trabalhar em grupos que não a sala de aula onde “devem” estar e onde não há condições para um trabalho social diferente e onde se tropeça constantemente uns nos outros?. Ser admoestado se algum grupo de alunos se movimenta nos corredores porque é suposto estarem todos na respectiva sala de aula? Ser admoestado porque há mais algum barulho numa sala de aula porque os alunos estão a realizar um jogo e estão empenhados fazendo um pouco mais de barulho perfeitamente normal? Ser admoestado por um funcionário que abre a porta e diz que o som do documentário está alto? E quando se questiona tudo isto, ouvir-se dizer que o funcionário faz o seu papel?

    Gostaria de perguntar a este director o que pensa sobre estas questões.

  3. Nem dá para comentar esse Sr. pois os seus valores humanos e de solidariedade pelos seus pares ficam muito aquém do expectável.

    • … não conheço o senhor, mas se a prática não bate com a retórica, como diz a Luísa Capelo, tudo a favor se esboroa… Mas não conheço o agrupamento, nem a equipa de gestão, pelo que devo estar calado!

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