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A Escola Como Organização Aprendente – Será a Solução?

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Investigações levadas a cabo nas últimas décadas originaram a transformação de uma perspetiva de escola instrumental, retificada e como entidade com uma racionalidade única, para uma dimensão, como refere Friedberg (1993), “muito mais complexa, abstrata e fluida, de construção de jogo, de laço contratual, ou mais simplesmente de arena ou de contexto de ação” (p.111).

Os estabelecimentos de ensino são encarados por Sarmento (1998) como sistemas concretos de ação, onde os diversos atores da comunidade educativa se inter-relacionam entre si. A complexidade das organizações escolares têm na sua regulação o alicerce para o seu desenvolvimento enquanto contextos onde ocorre a interação de diferentes intenções e onde se estabelecem e desenvolvem diferentes lógicas de ação.

Segundo Barroso (1995), a autonomia da escola é o produto da harmonia de forças entre os diferentes atores, tais como governantes, professores, alunos e pais, pois estes todos detêm sempre algum poder de influência na organização escola. De acordo com Canário (1992), a organização escolar é ao mesmo tempo compreensível, ao nível do constrangimento perante o sistema e imprevisível, no que refere à inter-relação dos atores na ação local. A escola é estudada e analisada como um todo em que as partes estão em interligação entre si.

Para Alarcão (2011), quando ouvimos falar da escola pensamos apenas num edifício e esquecemos que na realidade a escola é um conjunto de pessoas, portanto deve-se possibilitar à escola a autonomia para que seja esta a autorregular-se e não estar dependente de regulação externa, uma vez que, desta forma iríamos perder todo o potencial existente nos atores que a compõe, e nós sabemos o quanto ele é valioso, não podendo dissociar a qualidade da autorregulação da escola da qualidade destes. Há portanto, que dotar a escola de competências, para que exista interação e diálogo entre os seus atores, de forma a gerar uma responsabilização da mesma na resolução dos seus problemas.

Santiago (2001) estabelece algumas condições que considera essenciais para a ocorrência da aprendizagem organizacional, que se traduz numa mudança da cultura organizacional, implementada onde se encontra representado o sistema de comportamentos, normas e valores ou seja, os padrões de referência que vão influenciar a forma de agir e avaliar os acontecimento e que, são aceites e partilhados por todos os atores da organização e que, de certa, forma lhe fornecem um caráter único.

Para o mesmo autor, estes valores têm que reunir as condições necessárias à promoção da aprendizagem organizacional, uma vez que estes influenciam de forma decisiva a comunicação, assim como as opiniões e formas de agir. Nesses valores deve ser incutido a liberdade de expressão, entre todos os atores, estabelecendo-se um estatuto igualitário de ideias, respeito mútuo, valorizando a colaboração e o diálogo. Contudo, há que respeitar a autonomia profissional dos seus atores. Deve ser promovida uma orientação não só para os resultados, mas fundamentalmente para os processos (liderança, canais de comunicação, participação, ensino-aprendizagem, a gestão curricular, etc.), uma vez que melhorando estes, vamos conseguir melhorar o clima organizacional.

Segundo Alarcão (2001), uma escola que “se pensa a si própria”, que jamais ignora os seus problemas, bem pelo contrário, envolve todos nos seus processos de tomada de decisão e de resolução, aproveitando essa envolvente para obter aprendizagem.

Como já foi referido, o desenvolvimento e aprendizagem da escola, não pode depender apenas da soma das partes, vai isso sim, ganhar forma nas permanentes interações dos indivíduos que a compõe, estamos portanto perante uma escola de pessoas, com pessoas, para as pessoas.

Santos Guerra (2001) diz que uma escola para obter o seu desenvolvimento, não se pode fechar à aprendizagem, não se pode deixar de questionar, ou seja, não pode estar presa a rotinas: “Tem de ter vontade de agir, olhos abertos para ver, a mente desperta para analisar, o coração disposto para assimilar o aprendido” (p.12)

Para este autor, deve haver capacidade de autocrítica, relativamente ao contexto ou contextos onde esta se integra. Deve planear, desenvolver e avaliar projetos adequados às suas necessidades, promover a qualidade do currículo, gerando altas expectativas nos alunos e considerar que a aprendizagem destes está intimamente ligada à dos professores.

É fundamental, o controlo, a reflexão e avaliação de todos os níveis da instituição, como refere Santos Guerra (2003), “é mais importante saber onde se quer ir que pôr-se a caminho sem rumo. Mais importante saber para onde se caminha que acelerar o passo em direção a nenhures” (p.19).

Num mundo cada vez mais globalizado, é com naturalidade que encaramos a mudança como algo de inevitável, a complexidade e a mudança serão nos dias de hoje aspetos que qualquer organização tem de ter em conta na sua gestão. É premente a necessidade destas estarem equipadas com as ferramentas adequadas, consistentes, para conseguirem lidar com estes fenómenos.

Estabelecer prioridades estratégicas e executá-las, para se adaptar a novos tempos, novas descobertas, à evolução do conhecimento, pois é o conhecimento que provoca crescimento, desenvolvimento e que vai moldar as organizações.

Tem de existir disponibilidade para o conhecimento, para deslindar novas áreas, novos saberes, para progredir e não ficar limitada ao conhecimento que já domina, uma vez que, para se encarar com naturalidade este processo de mudança é fundamental as organizações se irem adaptando.

A realidade de hoje já não é a mesma de amanhã, a constante transformação do ambiente que rodeia as organizações, obrigam a que estas se adaptem para daí retirar a sua satisfação. Mas, para que esta acompanhe a mudança, deve ocorrer no seu interior um ajustamento.

Será a partir da postura organizacional e pedagógica, que varia de escola para escola, e de contexto para contexto, que cada estabelecimento escolar se apropria do instituído para congeminar o construído e desse modo, interferir com a uniformidade para implementar a pluralidade.

Senge (1998) afirma que é na capacidade de aprender dos indivíduos que está o progresso das instituições, mais do que nos recursos materiais, naturais ou com as competências tecnológicas. Mas para que escolas, famílias, empresas, se constituam em “learning organization” ou escola que aprende se fizermos a analogia do conceito, é necessário que aprender não signifique apenas e só, reproduzir comportamentos ou memorizar conteúdos determinados, mas sim constituir e possibilitar na organização capacidade de reflexão e consequente autotransformação.

Neste sentido, para mudar as escolas, é preciso que as mudanças necessárias não ocorram apenas nas organizações de que fazemos parte, ou nos outros ao nosso lado, mas dentro de cada um de nós. Como afirma Senge (1998), “temos uma profunda tendência para ver as mudanças que precisamos de efetuar como estando no mundo exterior, não no nosso mundo interior.” (p. 23).

Como Senge (2005) salienta, na realidade, instituições aprendentes são aquelas que todos os seus atores e o próprio currículo interagissem de uma forma ativa e inovadora como realidades vivas em desenvolvimento. Mas para que isto aconteça, de facto, é preciso uma grande transformação e mudança, por ventura, uma verdadeira transmutação em todos os seus segmentos e componentes.

A escola enquanto organização terá de assumir um papel de permitir que as competências de cada indivíduo sejam uma ferramenta de trabalho para o futuro de cada um. É necessário um projeto onde a participação de todos os atores conscientes que a mudança não será instantânea, mas não poderá continuar a ser protelada.

Neste sentido, Benavente (2001) diz que:

Uma Escola mais democrática, onde todos aprendam, mais flexível, em que a uniformidade dê lugar à diversidade, uma escola com mais qualidade, em que as aprendizagens formais sejam aprendizagens reais, uma escola com identidade em que todos gostem de trabalhar é, certamente, um objetivo nobre, urgente mas difícil de alcançar. (p. 9).

Em síntese será este o caminho que todas as organizações escolares têm que trilhar se querem tornar-se aprendentes.

Alberto Veronesi

Bibliografia

Alarcão, I. (2001). Escola reflexiva e supervisão. Uma escola em desenvolvimento e aprendizagem. In I. Alarcão (org.) Escola reflexiva e rupervisão. Uma escola em desenvolvimento e aprendizagem. Porto: Porto Editora.

Barroso, J. (1995). Os liceus: Organização pedagógica e administração (1836-1960). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

Benavente, A. (2001) Portugal, 1995/2001: reflexões sobre democratização e qualidade na educação básica. Revista Ibero-americana de Educação, n.º27, (pp 11 – 18)

Canário, R. (1992). O estabelecimento de ensino no contexto local. In R. Canário (ed.). Inovação e projeto educativo de escola. Lisboa: EDUCA.

Friedberg, E.(1993). O poder e a regra: dinâmicas da ação organizada. Lisboa: Instituto Piaget.

Santiago, R. A., (2001). A escola também é um sistema de aprendizagem organizacional In, , Isabel Alarcão (Org.), Escola reflexiva e supervisão, Uma escola em desenvolvimento e aprendizagem., Porto: Porto Editora, P.p. 25-42 (ISBN 972-0-34734-1).

Santos Guerra, M. A. (2001). A escola que aprende. Porto: Edições Asa.

Santos Guerra (2003) No coração da escola: estorias sobre a educação Editor: Porto: Asa.

Sarmento, M. (1998), Autonomia e regulação da mudança organizacional das escolas. Revista de Educação, vol. VII, nº 2, 15-26.

Senge (1998) A Dança das Mudanças. HSM Management. Book Summary 1998, São Paulo, p. 5-21, 2000

Senge, P. et. al. (2005). As escolas que aprendem. Portalegre, Brasil: ARTMED.

2 COMMENTS

  1. Excelente exposição, colega. Muito util para todos refletirmos. Obrigada pela sua recolha e compilacao?

  2. Recomendo vivamente a consulta de http://www.redecomunidadesdeaprendizagem.org
    Recomendo a aproximação ao Pedagogo visionário José Pacheco que não conseguiu sozinho implementar “as comunidades de aprendizagem”, foi para o Brasil e agora orienta e acompanha a formação pelo Portugal (incluindo as Ilhas) inteiro! Quem quiser acompanhar é só procurar contacto nesse sítio da NET

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