Home Escola A escola como lugar de entretenimento – João André Costa

A escola como lugar de entretenimento – João André Costa

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Neste Domingo, o Telejornal da RTP dedicou uma reportagem ao balanço do primeiro mês de aulas depois do confinamento, enviando para o efeito uma equipa para entrevistar os pais e alunos de várias escolas Secundárias.

E o balanço é simples e peremptório para os pais entrevistados: o regresso à escola tem sido uma desilusão.

Isto porque, e de acordo com os mesmos pais, estamos a enviar os nossos filhos para um espaço carregado de regras que não deixa as crianças viver o seu dia-a-dia.

O seu dia-a-dia? Interrogo-me, para de seguida ouvir a explicação, ou não fossem os dias das crianças feitos para o convívio, a brincadeira, jogar à bola e a correr.

Acrescentam os mesmos pais a sua indignação pelo facto de a escola não permitir aos seus filhos a vivência da adolescência, supostamente violando os seus direitos como crianças e menores que são, retirando-os do contexto social em benefício do enfoque académico.

Resultado: nem as crianças podem ser crianças, nem os adolescentes podem adolescer.

Estupefacto diante da estupefacção destes pais, diante do écran pergunto-me se por acaso está o mundo virado do avesso?

E o que pensam os pais deste país? Ser a escola um local de recreio para onde vamos essencialmente para socializar?

Ou não será antes a escola um lugar de aprendizagem por excelência?

Sejamos pragmáticos: um aluno que frequenta o ensino Secundário não está senão a frequentar o curso de ensino Secundário.

Aquando do seu término, o aluno trará debaixo do braço um certificado, o certificado do ensino Secundário completo e concluído.

O aluno está, por conseguinte, a estudar, sendo da competência da escola o leccionar dos objectivos das mais variadas disciplinas de modo a dotar o futuro aluno com as competências básicas para, findo o ensino Secundário, enveredar pelo mundo do trabalho ou pela progressão dos estudos.

E se a componente social é inerente aos intervalos e aos tempos antes e depois das aulas, esta não é de modo algum preponderante, não garantido por si só a aquisição de quaisquer habilitações académicas.

Em resumo: as crianças e adolescentes vão para a escola para aprender.

Infelizmente, quando temos pais cuja visão da escola é a de um campo de férias, estamos diante de pais, mas também de filhos e futuros adultos cuja valorização da educação é próxima de zero.

E se o problema é a presente pandemia, ainda menos se entende a indignação de quem já sabe à partida ser a socialização um dos modos de propagação da doença.

Deste modo, não se compreende a sua surpresa diante da rigidez das regras em vigor, regras essas estabelecias para salvar vidas, a começar pelas vidas dos nossos filhos.

Estarão os pais sequiosos de ver nos filhos a adolescência que nunca tiveram? Incapazes de compreender o seu papel de educadores no incentivo da curiosidade e da aprendizagem dos mais novos? Igualmente incapazes de compreender a relevância do seu papel de facilitadores de conhecimento na estreita colaboração com a escola e os professores?

Se um dia fui à escola, tal foi com um único intuito: aprender. E aprender sobre ciências, sobre biologia, ter média para entrar para a faculdade, estudar e aprender.

Parede uma premissa simples, a de se ir para a escola para aprender. Infelizmente, os pais deste país não parecem estar de acordo e até prova em contrário a escola é, e continuará a ser, o local de eleição para o convívio, a brincadeira, para jogar à bola e correr: a escola como lugar de entretenimento, portanto.

Parafraseando Daniel Sampaio, mais de vinte anos depois peço, por favor, inventem-se novos pais!

Fonte: DeAr Lindo

3 COMMENTS

  1. Nem acreditei quando li…. Estão loucos só pode… Em vez de preocuparem em proteger a saúde dos filhos!!!!! …. Que coisa mais controversa

  2. Vou mais longe, continuamos a precisar de inventar um novo país.

    O artigo, muito oportuno, fez-me recordar Manuel Paiva [“Como Respiram os Astronautas e outros problemas de Física Biomédica”, Lisboa, Gradiva, 2004, pp. 101-103], que pela sua pertinência e atualidade passo a transcrever:

    “«Tens que perceber que somos um país muito pobrezinho…»., dizia-me nos fins dos anos de 1950 uma tia, por afinidade, sem filhos, que vivia num palacete rodeada de empregadas domésticas (…). Quarenta anos depois, uma pessoa que não era da minha família, mas que tinha responsabilidades de representação de Portugal em Bruxelas dizia-me: «…o professor Paiva deve compreender que nós somos um país muito pobrezinho…» No dia 26 de junho de 2004, um conhecido empresário português declarava no semanário luso de maior tiragem: «Prevejo que o futuro do nosso país seja o turismo e mais nada. Não vale a pena remar contra a maré porque é uma questão de tempo. O nosso país é muito pobre e não tem recursos de matérias-primas.» Mas o que é que estas três pessoas têm em comum? Exprimem opiniões que estão nos antípodas da Declaração ou Estratégia de Lisboa! (…)
    (…) Quanto ao ensino, é duro constatar que os investimentos importantes já feitos ainda não resultaram, pelo menos na Física e na Matemática, domínios em que os jovens portugueses mostram, em geral, uma aflitiva ignorância! É como se houvesse algo estruturalmente errado. Penso que em Portugal não se valoriza suficientemente o esforço intelectual e parece-me evidente que o dinheiro sem cultura não muda a mentalidade dos novos-ricos. Os fundos comunitários, depois do privilégio régio, do ouro do Brasil e de outras tradições medievais, habituaram uma certa camada da população portuguesa a crer que basta o dinheiro dos outros para resolver os problemas, o que é contraditório com o espírito de iniciativa indispensável `criação de empresas no domínio I&D. Quanto à mudança de mentalidades, continuo a pensar, que é o ensino básico que terá o papel essencial.”

    Depois de um sorriso de primavera com a geração mais bem preparada de sempre, parece que as forças de resistência ao esforço, ao rigor se instalaram, razão pela qual a escola como elevador social está “avariada”. Tal como Manuel Paiva, porque o ensino básico não está a cumprir o seu papel. Quanto às responsabilidades, são diversas, mas parece não haver força suficiente para mudar radicalmente o que nos impede de avançar. E lá voltamos aos problemas de sempre, como se de um fado se tratasse!

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