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A escola, afinal, não vai, de novo, para casa

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Depois da turbulência que aconteceu no ano letivo passado, e depois do modo como, nessa altura, a escola perdeu o rasto a uma percentagem assustadora dos seus alunos (fala-se de 1/5 a 1/4), estamos de volta a um novo confinamento. Numa altura em que este “estado de alerta covid”, permanente, não para de trazer constrangimentos e alarme às crianças e aos adolescentes, e os agita, e os assusta, e lhes “rouba” vida, a escola manter-se-á em funcionamento.

É claro que, entre “frequentar” a telescola ou viver a escola, presencialmente, a diferença é imensa. E foi claro que uma resolução como esta mereceu uma aprovação próxima da “unanimidade” pelos pais e pelos professores. Mesmo que quase dois milhões e meio de pessoas a não confinar nos façam temer pelas consequências que isso possa ter para o número de infetados por covid-19. E mesmo que a escola não seja um “local seguro”, como se afirma; porque, apesar de ter dado provas de uma responsabilidade cívica inacreditável, não é imune à transmissão viral.

Seja como for, aquilo que vai acontecendo, todos os dias, na escola só nos pode incomodar. E revoltar! Porque, por melhores que sejam as suas intenções de proteção, não é razoável que a escola tente contornar os riscos da propagação de um vírus expondo as crianças e os professores ao frio intenso, ao ruído e a correntes de ar geladas. Não é razoável que a “palavra de ordem” dos nossos filhos seja: “Sala gelada, cabeça parada!”. Nem que – seja em Serpa seja em Seia, em Trás-os-Montes como em Lisboa – a fórmula” para acarinhar a educação seja: “Enrola-te numa mantinha que isso passa…”. É verdade que existe uma pandemia. Que ela funciona como um “terramoto”. E que tudo isso vira a escola do avesso. É verdade que os professores – com uma generosidade inacreditável e com um sentido de responsabilidade profissional único! – tentam manter a escola a funcionar como se “nada” se estivesse a passar. Mas nada disto nos sossega.

Depois daquilo que se perdeu em 2020, termos uma escola com tantos constrangimentos a condicionarem as aulas e os recreios, uma escola que funciona em bolhas e a “bater o dente”, e com um novo confinamento para quase todos, recomenda-se que não se perca de vista que nada daquilo que se continua a perder será, facilmente, recuperado. E, muito menos, nos tempos mais próximos! Mesmo que as escolas conseguissem, rapidamente, regressar aos seus níveis de desempenho anteriores. Tudo isto se vai traduzir em perdas – de conhecimento, de rendimento escolar, de projetos de vida e, até, de rendimento per capita – a longo prazo. Que serão desiguais para os alunos, as suas famílias e as suas escolas. Até porque dois anos escolares a funcionar com os constrangimentos duma pandemia trazem lacunas graves a diversas áreas do crescimento e do conhecimento das crianças. Que enviesam os seus resultados escolares, os seus gostos e as suas opções futuras. Comprometem os seus sonhos e os seus projetos. E “atropelam” muitos dos sucessos de carreira que poderiam ter.

Esta é, pois, uma situação muito difícil. Que, de forma serena (mas clara), deveria transformar a escola e o seu futuro numa “questão de Estado”. E que deveria, entre outros assuntos, “marcar a agenda” das eleições presidenciais. Mas que, ao contrário, parece não suscitar a preocupação e o alarme que o nosso futuro deveria merecer.

Até quando vamos nós continuar a afirmar que “vai ficar tudo bem”, enquanto a escola vai sendo “atropelada” com tantos e tão graves sobressaltos? Não seria este o pretexto óbvio (e esclarecido) para que todos nos sentássemos a pensar a escola, a 20 anos de distância, agora que os nossos filhos nos demonstram, todos os dias, a sua sagacidade diante da função que reconhecem que a escola tem nas suas vidas e, agora (ainda), quando os professores calam, com elegância e com uma determinação únicas, todos aqueles que os imaginavam como a “força de bloqueio” em relação a quaisquer mudanças do sistema educativo?

Escola “fechada”, cabeça “parada”; será mais este o slogan, neste momento. Com aspas, é claro. É verdade que nem a escola fechou nem a cabeça parou. Mas que, às vezes, a escola parece ser um “assunto fechado” para quem planeia e decide a educação, isso parece. E que a cabeça dos agentes políticos dá “ares” de estar muito “parada”, em relação a ela, também é verdade. E não devia ser assim! Para calamidade, já basta esta! Porque nós precisamos de uma escola que pense. Uma escola “mexida”. Que crie planaltos e que “rasgue” avenidas. Uma escola que se ponha em causa e que se reinvente. Até porque as situações de calamidade ajudam a fazer escolhas inadiáveis – que têm de ser ousadas e corajosas. E que têm de ter um “nervoso miudinho” amigo do futuro.

Ora, ao pararmos, de novo, e ao reconhecermos a importância de tomar a escola como uma exceção, precisamos de repensar a escola! Porque o mundo muda – muitas vezes! – de dentro para fora da escola! E, numa altura em que o mundo parece estar nos “cuidados intensivos” – considerando a distribuição de recursos, a economia, a natalidade, a segurança social, o clima ou a política, por exemplo – reinventar a escola, em tempos de pandemia, não é uma vacina: é uma prova de vida! Um assomo de garra. Um exercício de fé na inteligência. Um “mãos à obra!” que, mesmo quando estamos assustados, nos leva, de novo, a respirar com liberdade.

Eduardo Sá

Fonte: Escola Amiga

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