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A Educação Física Nas Escolas. Uma Realidade Discrimimatória E Desvirtuada Dos Seus Objetivos

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Realidade antiga, esta. E Nefasta. E que ninguém parece querer saber, e mudar.

A disciplina de Educação Física é muito mais que uma disciplina para o desenvolvimento cognitivo e motor dos jovens, é também um meio fundamental para a promoção da saúde e bem-estar dos mesmos, e é também uma promoção da Saúde Pública, a curto, a médio e a longo prazo, com tudo o que isso implica de positivo ou negativo a nível económico e social. A obesidade, o sedentarismo, entre outras problemáticas aliadas às novas tecnologias, são realidades que a prática da Educação física pode combater de forma pertinente e eficaz, seja de forma circunstancial ou estrutural. Todavia, infelizmente, a disciplina de Educação Física tem demasiados constrangimentos e desenvolve-se de forma precária, limitada e discriminatória.

Esta disciplina é a única, no ensino básico e secundário, cuja sala onde é lecionada (pavilhão), integra na grande generalidade três turmas em simultâneo, totalizando por vezes mais de 70 alunos em aulas, para um espaço equivalente a um campo de Andebol. Sem contar que existe ao mesmo tempo, aulas de Educação Física nos espaços exteriores desportivos, onde nem sempre é possível a sua utilização devido às condições climatéricas, e quando assim acontece, duas, três, ou mais turmas não têm aula prática. Esta disciplina é a única que NÃO proporciona condições idênticas de ensino e aprendizagem a todas as turmas numa mesma escola.

Dentro da mesma escola existem turmas com boas condições para uma boa aula de Educação Física e existem turmas com condições medíocres para usufruir de uma boa aula de Educação Física. E relembro a realidade, dentro da mesma escola. Esta realidade é facilmente constatável em muitas escolas do país, E tomemos como exemplo a análise de dois horários de duas turmas (ficcionados mas uma realidade), tendo em conta a mesma disciplina, durante um ano lectivo.


Pavilhão dividido em 3 partes (A + B + C)

Turma 10 A

Segunda-Feira aula 50 minutos – Espaço de aula (A+B), metade do pavilhão disponível

Quarta-Feira, aula 100 minutos – Espaço de aula (A+B+C), todo o pavilhão disponível


Turma 10B

Terça–feira aula 50 minutos – Espaço de Aula (A), 1/3 do pavilhão *

Quinta-feira aula de 100 minutos – Espaço de Aula (C), 1/3 do pavilhão *

*Com a possibilidade de nem ter aula prática.


A turma 10B, de 3 em 3 semanas, pode inclusive não ter aulas práticas de Educação Física devido à rotatividade necessária quando se verificam 4 ou 5, ou 6 turmas, a ter aulas em simultâneo, e em função disso ter de fazer a aula no exterior, que não será possível realizar se estiver mau tempo. Pelo contrário, a turma 10A tem sempre aula prática assegurada, porque nos dias das suas aulas não existe necessidade de rotação nos espaços, dado ser a única turma, ou serem duas. Daqui se deduz que os alunos da turma 10B são altamente prejudicados, não usufruindo das mesmas condições da turma 10A, que lhes são igualmente legítimas. O tempo de prática motora, o tempo potencial de aprendizagem, assim como as condições de usufruir desses mesmos tempos, entre os alunos da turma 10A e da turma 10B é significativamente diferente, sendo que os alunos da turma 10B usufruem condições muito precárias para a prática da disciplina de Educação Física, ao contrário da turma 10A.

Esta realidade, altamente discriminatória, entre outras similares, não são raras e multiplicam-se por mais de 30 semanas, ou seja centenas de horas.

É uma realidade que se manifesta há longos anos. Existem no nosso país, escolas em que, dentro do tempo letivo definido, existem horas em que o pavilhão está vazio, sem qualquer turma presente e por outro lado existem horas em que estão 4 ou 5 turmas ou mais em simultâneo. E estas não são horas relativas nem ao tempo do almoço nem ao tempo destinado ao desporto escolar. Quais os critérios que conduzem a esta disparidade? Desconheço os critérios que estão subjacentes à elaboração dos horários, mas estou convicto, plenamente convicto, que não atende às várias peculiaridades que esta disciplina encerra.

O QUE É NECESSÁRIO?

É necessário outra interpretação, outra atenção para esta disciplina tão importante e isso deverá passar, no meu entender, por atribuir a esta disciplina uma prioridade real e objetiva na altura da realização dos horários das turmas. Passará por uma melhor feitura dos mesmos tendo em conta as especificidades acima referidas. Uma opção seria de, NO MÁXIMO, e tendo em conta os espaços interiores e exteriores, haver 3 Turmas em aulas, em simultâneo e não as actuais 5 ou 6, ou 7 turmas. Nesta nova realidade ficariam 2 turmas no espaço interior (Pavilhão) e 1 turma no espaço exterior. Excepcionalmente, devido ao mau tempo, ficariam 3 turmas no pavilhão.

Essa melhor realização dos horários poderá implicar que a grande maioria dos professores lecionem nos dois turnos existentes durante grande parte da semana. Será esse o grande problema? Levará também a que a maioria das turmas existentes funcione em dois turnos, de manhã e de tarde. Será esse o grande problema? Esta desejável mudança trará uma nova realidade, a meu ver, viável e compatível, necessária para que possam existir aulas de Educação Física, com igualdade, com o máximo de equidade nas condições oferecidas a todos os alunos e uma melhor qualidade do ensino e da prática da Educação Física, tão importante também em termos de saúde pública. E é bom relembrar que esta disciplina conta novamente para a média final de acesso ao ensino superior.

A presente e tão antiga realidade é nociva, injusta e prejudica um processo de ensino aprendizagem que se quer caracterizado por critérios uniformes e não discriminatórios, e que promova da melhor forma, com a maior qualidade possível a prática a disciplina de Educação Física. A realidade atual contribui para um algum desânimo quer de alguns professores, quer de alguns, que se traduz numa crescente desmotivação e desleixo para com esta disciplina. É urgente rever a elaboração dos horários, os seus critérios, as prioridades na elaboração dos mesmos para que a Educação Física seja potencializada na sua verdadeira expressão.

Pela nossa Educação, pelos jovens de hoje e de amanhã, façamos um esforço. Governantes, políticos, directores, professores, pais, encarregados de educação, alunos, têm a palavra.

Com os melhores cumprimentos

Sérgio Cunha Machado

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