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A coragem de uma máscara.

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Todos os dias, milhares de professores percorrem quilómetros para chegarem ao seu local de trabalho. Confinados ao carro, passam horas em estradas para não abdicarem das suas famílias.  Podemos pensar que procuram uma vida melhor ou uma oportunidade, mas isso é mentira. Eles apenas tentam não ficar em uma situação pior, porque foram empurrados para longe das suas casas, quando o seu horário foi extinto.

Mas será que deixou mesmo de existir esse posto de trabalho?

Não, Não deixou! O que aconteceu é que eliminaram turmas e os alunos dessas turmas extintas foram “engrossar” as outras. Além disso, muito do trabalho letivo passou a chamar-se não letivo! Tudo isto, perante a ameaça: se aceitas, vais trabalhar para mais longe; se não aceitas, ficas de fora.

Estranhamente, não se ouvem muitos protestos… Bem, quem protestaria? Com 12 a 14 horas fora de casa, reuniões para tudo e para nada, inspeções que raramente corrigem horários abusivos e direções que impõem a sua vontade pelo chicote ou pela camaradagem.

Depois, temos outros problemas: indisciplina e dificuldades de aprendizagem.

A indisciplina não é pior porque temos docentes de grande bravura. As dificuldades de aprendizagem não são maiores porque os professores trabalham diariamente para colmatar esses obstáculos.

Com turmas tão numerosas, salas de aula centradas no professor, aulas expositivas e com um mundo exterior bem mais apelativo, para muitos alunos, frequentar a escola é algo enfadonho.

Precisamos de professores motivados, com sede de ensinar e de construir um novo ensino em Portugal,  no qual os alunos assimilem não só os conteúdos do programa, mas também participem na compreensão da atualidade.

O perfil do aluno é uma boa ferramenta para concretizar essa ideia, mas sem outras iniciativas, não passará de mais uma carta de boas intenções, esvaziada de uma ação concreta.

A escola não é tudo e nela não tem que estar tudo, mas devem estar os guias e os companheiros da descoberta. A viagem do crescimento não é feita apenas com livros e gestos repetidos. São os fragmentos das histórias, as discussões e os olhares que nos mostram quem foram os nossos antepassados, quem somos hoje e o que seremos amanhã.

Com tantas decisões erradas, tomadas pelos três anteriores governos, os professores ficaram esgotados e privados da sua liberdade, com ainda mais dificuldades para desempenhar o seu trabalho.

Nesta época de máscaras, o professor não pode continuar a ser malabarista nem o atual governo deve ficar-se pelos remendos, é necessário fazer mais e melhor. Por isso, considero que é fundamental:

– Diminuir as áreas geográficas dos quadros de zona pedagógica;

– Diminuir o número de alunos por turma de forma acelerada;

– Aumentar a componente individual de trabalho do docente;

– Democratizar a gestão e organização escolar;

– Acabar com a municipalização da educação;

– Recolocar todo o pessoal não docente sobre a tutela do ministério da educação, dando condições de trabalho iguais para todos.

– Discutir a participação dos encarregados de educação na escola, abrindo mais a escola para a comunidade local e a criação de projetos de valor cooperativo.

Gonçalo Gonçalves, professor do 1º ciclo.

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