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A Comida Que Vai Para O Lixo E Os Alunos Que Querem Repetir E Não Podem

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Um contrassenso numa realidade demasiado presente…


“Posso repetir a comida?”

Por causa do meu trabalho não são raras as vezes em que almoço em cantinas escolares. Ponho-me na fila dos alunos, sento-me à mesa dos alunos e como o mesmo que os alunos. E onde quer que vá o cenário parece repetir-se, numa espécie de jogo de imitações: as bandejas regressam ao postigo do refeitório de pratos cheios e os restos vão-se atulhando num balde — que por acaso é o balde do lixo.

No outro dia, ao almoço, não pude despegar os olhos de um tabuleiro que um aluno carregava: no prato empilhava-se esparguete com carne, ainda a fumegar, e à maçã tinha sido roubada uma trinca de um dente. Depois de este tabuleiro ter sido arrumado no carrinho dos desperdícios, os meus colegas e eu — que ainda principiávamos a refeição —, começámos o mesmo debate de sempre.

Porque discutir o problema lembra um pouco a história do velho, do burro e da criança, e não há respostas contundentes. “Se todos os portugueses comessem arroz ao jantar e não rapassem o prato, mais de uma tonelada de arroz iria para o lixo”: são números que se ensinam aos alunos, mas nem é preciso invocá-los — ou então é de todo urgente que o façamos. Nem a comida que sobra nem a que as pessoas põem de lado — e falo das situações com que me fui deparando dentro dos refeitórios escolares — é, na maioria dos casos, aproveitada. As funcionárias da cantina garantem-nos. Sim, temos recintos escolares onde a comida ainda é confeccionada in loco e onde a gestão alimentar é mais empática, mas temos muitas cantinas abastecidas por empresas externas. E essas empresas disputam concessões entre si; a que apresentar orçamentos mais baixos vence a corrida ao refeitório.

A preços reduzidos, claro está, a qualidade do conduto não pode ultrapassar certos limites. E há leis a cumprir, doses a servir, e não vale a pena propor que se arranjem meios pratos para quem come menos. Mas depois os alunos queixam-se de que a comida é desenxabida e os pais desses alunos queixam-se de que os alunos se queixam, e à noite esses pais e esses alunos tomam um jantar que nutricionalmente ainda consegue ser mais pobre do que o almoço da cantina. E, entretanto, a comida que sobejou foi posta num saco no contentor… Dantes havia quem se certificasse de que os meninos não deixavam grãos de arroz no prato, hoje atiram-se pacotes inteiros para o lixo.

Quando terminámos a refeição, fomos ao bar da escola tomar café: qual não foi o nosso espanto ao verificar que o aluno de há pouco — beneficiário dos Serviços de Acção Social Escolar — pedia agora uma tosta mista. Provavelmente daí a nada iria dar um pulinho à loja de gomas e comprar um saquinho de “tijolos”.

De pouco adianta estigmatizar ainda mais a criança (porventura não tem culpa, porventura já eu a terei sido por distracção), mas é um facto que a nossa mentalidade tem obrigatoriamente de ganhar outros apetites. Porque não podemos cruzar os talheres e fingir não reparar. Porque é de comida, de alimento — da vida que em nós se transforma em vida — que falamos. Porque nada havia de incomestível no esparguete com carne. E porque – perdoem-me agora o desiderato – olhar para tabuleiros cheios de comida desaproveitada quase nos deixa com náuseas, metaforicamente falando.

André Almeida Paiva, in Público 6-2-2019

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1 COMENTÁRIO

  1. Uma mãe pediu ajuda. Será que posso receber as sobras da cantina para por na mesa dos meus filhos? Família depauperada, desemprego de ambos os progenitores, cinco bocas. não pode ser, resposta. São regras. Os argumentos impostos “lá de cima” são obscenos – prevenir possíveis intoxicações alimentares. Como disse? O que falta na mes das crianças, sobra nos caixotes do lixo. O que falta de humanidade, sobra de indecência política.

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