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A avaliação dos alunos devia incluir o grau de dificuldade familiar?

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puzzle-brainO que eu vou escrever de seguida é uma mera utopia, a sua praticabilidade é nula em virtude da sua complexidade numa já complexa avaliação de alunos… mas… e se o grau de dificuldade familiar fosse incluída na avaliação dos alunos? Os resultados seriam os mesmos?

10:25, hora de começar mais uma aula, estão todos presentes exceto uma aluna, uma colega sussurra-me que a Maria (nome fictício) está no balneário a chorar por motivos familiares…

Faço o que não devo, deixo os meus alunos (estamos a falar de alunos de ensino secundário e que dá para confiar) e vou ao balneário.

Ó Manel (nome fictício tb), dá o aquecimento que eu venho já…

Entro no balneário com a devida autorização e encontro uma imagem de fazer dó. A aluna sentada no chão, de lenços na mão, chorando compulsivamente…

O que dizer naqueles momentos… Tento acalmá-la para que consiga dizer alguma coisa, mas o silêncio impera… pergunto-lhe se é da escola o problema, abana a cabeça e diz que não, pergunto se o problema é em casa, abana a cabeça a dizer que sim… pergunto-lhe se quer contar um pouco do que se está a passar, abana a cabeça novamente a dizer que não…

Não vou forçar, não me diz respeito, é preciso respeitar a sua privacidade, a sua dor…

Penso para mim que tenho os alunos à espera mas não quero sair assim, não com ela naquele estado… Espero 1, 2 minutos sentado ao seu lado e digo-lhe…

Eu sei que agora tudo parece errado, tudo parece sem solução, que nada vai mudar e que o destino está traçado… não faz mal sentires-te triste… também já estive desse lado e sei que não é fácil… por vezes só resta mesmo chorar… chora o que quiseres, manda tudo cá para fora… vais ver que daqui a pouco já te sentes melhor e quando acabares a aula se calhar ainda vemos um pouco desse sorriso… vá… fico à tua espera… e depois se quiseres falamos com mais calma sem ser neste chão duro do balneário que eu já não tenho idade para estas coisas… (vejo um ligeiro sorrir…)

Dou-lhe um beijinho na testa, um afago no cabelo e digo-lhe “até já”.

A aula decorreu e antes mesmo do final vi-lhe aquele sorriso, fiquei feliz por ela…

E depois? Como será o chegar a casa? Quantos alunos depois de um dia de escola preferiam não regressar a casa?

Todas as crianças deviam no final do dia ir para um refúgio calmo, harmonioso, feliz. Algumas têm essa sorte… outras nem por isso…

Na sala de aula são todas iguais e são tratadas por igual, tirando os alunos com necessidades educativas especiais, em que lhes é permitido critérios e condições específicos na avaliação e durante as aulas, as necessidades/carências emocionais são sistematicamente ignoradas e desvalorizadas. No meio de 20/25/30 alunos, com metas para cumprir, currículos para dar e em alguns anos com exames no final, não há tempo para essas “mariquices” das carências emocionais. É sempre a andar, quem ficar para trás, fica… paciência… A escola hoje é um filtro… o 1º filtro social…

Um aluno que em casa quer estudar e está com fome pois o jantar foi uma sopa, um aluno que em casa quer estudar e partilha o quarto com 3 irmãos que não param de brigar, um aluno que em casa quer estudar e lhe pinga chuva no caderno, um aluno que em casa quer estudar mas ainda tem de fazer a lida da casa e cuidar dos irmãos, um aluno que em casa quer estudar e precisa de estar de casaco por causa do frio, um aluno que em casa quer estudar e não consegue por causa dos gritos entre pai e mãe, é o mesmo aluno que no dia seguinte estará sentado ao lado do colega que usufrui de explicador privado, pais que o apoiam, vive uma casa quente envolta em amor e tem sempre uma barriguinha aconchegada….

Ambos os alunos estarão lado a lado, como numa grelha de partida, mas enquanto um tem uma equipa de mecânicos de fórmula 1 a apoiá-lo, o outro, pode contar apenas com a sua vontade de vencer, sozinho, e com obstáculos em cada esquina…

Ao serem afixados os resultados um terá sorte se tirar positiva, outro brilhará com os seus 18 valores e ficará com a sua carinha laroca em exposição no quadro de honra. Um terá as portas da faculdade escancaradas, o outro terá a sua realidade escancarada…

Afinal quem é o herói? Até que ponto é que a mediania é mediana? Até que ponto se dá importância às cruzes que alguns alunos carregam? Quem é que deveria estar no quadro de honra? Quem é que deveria ter os holofotes apontados em vez dos dedos críticos e ignorantes? Quem?

É a vida dizemos nós… É a vida porque a aceitamos como tal… numa mera interpretação mediana da realidade…

*Dedicado aos “meus” quadros de honra…
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1 COMENTÁRIO

  1. Muito pertinente, mas extremamente difícil, como refere, de transportar para a realidade. De facto, há alunos que são verdadeiros heróis e esta frase tem tanto de verdade como de triste: “Quantos alunos depois de um dia de escola preferiam não regressar a casa?”

    Aproveito para dar a conhecer um novo projecto de divulgação de ofertas de formação profissional em Portugal, entre outros assuntos pertinentes, como a empregabilidade.
    http://www.maiscursos.org/

    Obrigado.

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