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8 anos congelados – O amor à camisola é muito bonito mas não paga contas…

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dinero-congelado-1024x500Terminou hoje a contagem decrescente que iniciei no mês passado para os 8 anos de carreira congelada.

Não vou ser hipócrita e dizer que não penso em dinheiro e que trabalho apenas por amor à camisola e que o mundo é cor-de-rosa, puro e fofinho… Tenho ambições pessoais e quero dar o melhor à minha filha, e o amor que tenho por ela só por si não lhe assegura o futuro…

Ser professor é vestir uma das camisolas mais nobres que existem. Acredito que este orgulho é um sentimento partilhado pelos meus colegas e apesar de ultrapassarmos as nossas competências e responsabilidades diariamente, também nós temos vidas para além da escola, dívidas para pagar e objetivos pessoais e familiares que gostaríamos de satisfazer.

Falar sobre dinheiro não devia ser tabu e o objetivo de ter uma vida melhor e de realizarmos os nossos sonhos, enriquecendo se possível através do nosso trabalho, honesto e dedicado, não devia por em causa a nossa honorabilidade. Mas num país que tem tantos desempregados e que tantos vivem abaixo do limiar da pobreza, dizer o que acabei de dizer fica mal. O nivelamento por baixo é uma prática comum e a máxima “só estou bem se os outros estiverem tão mal como eu” revela a pequenez da nossa mentalidade.

Sei bem os privilégios que tenho quando me comparo com os outros, mas também sei as expetativas legítimas que tinha quando ingressei na carreira. Aliás, o motivo pelo qual eu e tantos como eu abandonámos a nossa cidade/vila/aldeia foi com o intuito de melhorar as nossas vidas. Uma década depois, houve uma evolução, mas uma evolução no sentido contrário ao pretendido… E não há nada pior que mudar as regras do jogo queimando planos a curto, médio e ao ritmo que isto vai, longo prazo.

O quadro que se segue mostra os anos de congelamento. Estamos a falar em pelo menos dois escalões, acrescidos da inflação, do aumento brutal de impostos (IRS, Segurança Social, etc), da contribuição para a ADSE e dos cortes nos vencimentos. Mas pior do que tudo isto, é não existir uma data, uma luz ao fundo do túnel, uma mensagem de esperança que nos motive e faça acreditar que o pior já passou. Esta incompetência ao nível da inteligência emocional que este e anteriores governos apresenta(ra)m é de um amadorismo atroz, ao nível do seu desempenho.

congelados
Créditos SPN

Quando tanto se fala na motivação docente e na importância que essa tem para a melhoria da educação em Portugal, o reconhecimento da responsabilidade, importância e competência dos professores devia vir refletida nos seus vencimentos. Palmadinhas nas costas não pagam dívidas e medalhas de orgulho de pouco valem quando precisamos mudar de carro e não há dinheiro para o pagar…

Mas isto não é só pedir… a inclusão da palavra competência no parágrafo anterior, não foi por acaso. Exigir condições laborais implica também estar disponível a melhorar o nosso desempenho. E melhorar o nosso desempenho passa obviamente pela formação/avaliação. Já muitos tentaram avaliar os professores e o resultado foi sempre negativo. Não concordo com o modelo de avaliação vigente, trata-se de uma não avaliação e uma não avaliação não é benéfica para ninguém. Não somos todos iguais, uns são melhores outros são piores, é assim em todo o lado. A antiguidade não pode ser o único fator de progressão, é redutor, não nos dignifica e estou claramente contra os sindicatos e colegas que a defendem.

É preciso descongelar a carreira mas também é preciso estar disponível a abrir as portas da sala de aula numa perspetiva formativa e não punitiva. Avaliar os professores não pode ter como principal intuito “castrar” a progressão na carreira com cotas discriminatórias. Essa avaliação precisa de ser feita por avaliadores formados especificamente para essa função e no local onde se verifica a competência de um professor -a  sala de aula.

Os próximos meses vão ser férteis em negociações para a elaboração do próximo orçamento de estado, nada vai mudar, mas ao menos que se abram as portas da esperança a curto/médio prazo, com ou sem geringonça…

6 COMMENTS

  1. Os meus parabéns pela sua visão sobre a avaliação. É tal e qual o que penso desde que toda a polémica sobre a avaliação veio ao de cima no tempo de MLR.
    Mas, sem carreira descongelada, qualquer tipo de avaliação é apenas um faz de conta ridículo que para nada serve para além de encher caixotes de papéis inúteis.

  2. A curta e mesquinha mentalidade portuguesa está espelhada na máxima “só estou bem se os outros estiverem tão mal como eu” revela a pequenez da nossa mentalidade.” Não admira que, quando alguém reivindica os seus direitos, se há quem esteja pior se escute imediatamente frases lembrando isso mesmo: há quem esteja pior!!! Eu sei,. Na Etiópia, são aos milhões. Mas isso não me faz feliz! Nem me retira a vontade de exigir uma melhor aplicação dos dinheiros públicos que não passe pelo esbanjamento de milhões e mais milhões para os bancos que distribuem reformas milionárias aos seus administradores… etc. etc.

  3. Queixo-me do mesmo mal. Infelizmente, temos sido (des)governados por gente incapaz, incompetente, desonesta, mentirosa e por aí fora. Não sou ou fui professor. Fui considerado funcionário público por ter sido admitido POR CONCURSO, para os CTT em 1959. Sinto-me humilhado por ter dado tanto de mim próprio, com prejuízo para a própria família, e por culpa de algumas pessoas (governo) que nunca trabalharam na vida, nem sabem o que isso é, terem o desplante de me roubarem subsídios de férias e Natal e finalmente, não cumprirem com o que me foi prometido, no que respeita a actualizações de reforma. Congelamentos para uns e centenas de milhares de € para outros. HÁ QUEM CHAME A ISTO, “DEMOCRACIA”.
    DESCULPEM-ME OS PROFESSORES POR ME METER NESTA GUERRA MAS, DEMOCRATICAMENTE, TAMBÉM ESTOU METIDO NO MESMO SACO

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