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Tenho 45 anos… vivo num quarto… vejo a família 2 dias por semana… Quem sou eu? Sou professor contratado…

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“Tenho o mundo suspenso em caixas”

“eu concorro de forma a poder dormir em casa”

“se ficas a chorar não vou…”

São apenas algumas das frases que foram proferidas por professores contratados na reportagem da SIC, intitulada “Longe de Casa”.

A faceta pessoal dos professores é muitas vezes esquecida. Se calhar esquecida não é a melhor palavra, ignorada, sim… ignorada, as escolas, os alunos, os pais, o Ministério de Educação ignoram sistematicamente a vertente pessoal do professor e quando digo vertente pessoal, refiro-me à estrutura emocional do professor.

Já aqui referi a máscara do professor, a que todos os dias é colocada a fim de cumprir a sua função. Quantas vezes não temos pessoas “partidas” por dentro em frente aos alunos? Ainda há pouco tempo soube de uma colega que estava grávida e que perdeu o bebé… um mês depois já estava a dar aulas…

Quando se fala no burnout docente, falta referir que este também surge pelo desequilibro emocional do professor. Podemos comparar a saudade a um vírus que afeta o sistema imunológico do professor, ficando este mais suscetível a outras bactérias: indisciplina, excesso de trabalho, burocracia, etc…

A vacina existe, mas muitos que a procuram encontram sempre a mesma resposta… está esgotada!

Sei bem o que é andar de um lado para o outro, procurar casa, galgar kms e regressar ao fim de semana. Lembro-me do dia em que a minha esposa me deixou em Moura e regressou para a norte, gajo que é gajo não chora, mas nesse dia não fui gajo… fui homem…

Não é justo porra! Não é justo uma pessoa ter 35, 40, 45, 50 anos e não ter direito a viver todos os dias com a sua família, a ter uma estabilidade geográfica e não passar o tempo a fazer planos, a ponderar entre a profissão e a família. A Constituição Portuguesa tem montes de direitos, mas falta lá um… o direito a ter família, a ser família e a usufruir da família.

Por muito que seja engraçado conhecer diferentes realidades e diferentes pontos do país, essa graça perde-se com o galgar da idade.

Ser professor é tão digno como qualquer outra profissão, verdade, mas a responsabilidade e complexidade da profissão deveria dar a este outro tipo de estabilidade, outro tipo de dignidade.

Pensar nesta dignidade teria sido a seu tempo fechar as vagas para se ser professor. Era mais digno dizer, “não! não há espaço para ti” do que aceitar tudo e todos, mas a propina… a mensalidade… falou sempre mais alto. Quem faz frente ao lobby das faculdades?

Infelizmente em muitas escolas, as próprias direções e colegas residentes esquecem-se do que é estar do outro lado, provavelmente porque nunca estiveram do outro lado, a sua primeira escolha foi e é, a sua atual escola. Não tem preço esta estabilidade e é triste quando assistimos a quem é de longe ser “rebaixado” com os piores horários ou as piores turmas. São os tapa buracos… descartáveis, substitutos, indivíduos como o Ministério de Educação lhes apelidou.

Se queremos uma escola humana, com princípios, ética, valores e direitos, deveríamos também pensar em todos esses aspetos quando recebemos um professor de longe. Lembrem-se… estão perante alguém que está amputado emocionalmente, que tem o corpo aqui mas a sua cabeça está a 200, 300, 400 km, ano após ano… ano após ano…

Ao professor resta a saudade que se confunde com a esperança de um dia poder dizer “Finalmente vou ser pai/mãe/filho/filha/marido/mulher… já não vou mais embora, hoje, amanhã e depois de amanhã, estarei aqui, sempre aqui…”

Mas hoje (ou amanhã bem cedinho)… resta a despedida e fazer mais uma viagem pois é preciso voltar a colocar a máscara.

Foi isto que imaginaram para as vossas vidas?

Professores contratados, sois o verdadeiro exemplo de amor à profissão! Obrigado pela vossa dedicação.

Alexandre Henriques

(carreguem na imagem para ver a reportagem)
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40 COMENTÁRIOS

  1. …não é nada! isso queria eu! és mas é um descartado, como eu, de usar e deitar fora, como o perservativo! querias ser ministro, não?! e quem mudava as fraldas aos meninos, enquanto os pais todos barbudos só fazem… m**[email protected]? «e num é que é xô cô vôca!» (ah! ah! ah!)

  2. O meu marido tem 37 anos vive numa autocaravana e vê os filhos 2 dias por mês (quando corre bem… senão e só de 2 em 2 meses). Aceito que a vida dos professores é difícil, mas não vamos fazer deles coitadinhos. Há muitos portugueses que para desempenhar as funções inerentes à sua profissão se vêm privados da família, nem sempre com as melhores condições.

    • Não é coitadinhos, é a constatação de algo que não devia acontecer. Se vamos entrar em comparações vamos parar nos refugiados. Tudo é relativo, tudo pode ser visto por diferentes perspetivas. A reportagem da SIC é reveladora de uma realidade que muitos julgam não existir, ou não dão valor pois nunca passaram por isso. Eu passei por isso, não podia ignorar o que vi.

      • Atualmente têm a comunicgção social que dá relevo todos os anos a estas situações…Eu já trabalho à 30 anos e farta de ser contratada, aos 8 anos de serviço deixei um filho de 2 anos com os meus pais e fui para a Madeira e ninguém falava de nós. A comunicação social não nos dava o relevo que agora estes professores têm… porque será? Deixo a questão no ar e cada um que interprete como quiser. Não contem com os sindicatos que eles só lá estão para assegurarem o tacho deles, ainda não vi nenhum a fazer nada por ninguém.

    • Agora some a isso a incerteza de nunca saber se no fim do contrato ou no ano letivo seguinte se terá emprego… é sempre um adiar de tudo!

      • Triste. Acha mesmo que só porque estudou 4 ou 5 anos a distância da família é mais difícil de suportar? Essa sobranceria é só triste. Faz idéia de quantas pessoas não estudaram apenas porque não puderam? Desde quando o facto de ter estudado é critério para definir os sentimentos das pessoas? Enfim…..

  3. Sou contratada há 14 anos e também andei e ando por ai… Já começo a perder a conta às escolas em que trabalhei e aos quartos e casas que arrendei, como acontece com muitos outros colegas e que esta reportagem bem demonstrou… Todavia, depois de passar pela fase da motivação dos primeiros anos e da fase das saudades da família e dos amigos, de querer estabilizar e da ansiedade, agora estou numa fase tipo “anestesiada”, não sinto nada e tanto me faz a localidade que “me sair na rifa”… Não sei se é bom ou mau, talvez seja habituação ou mesmo uma espécie de desistência, mas levo muito melhor o barco!

  4. Coitadinhos e so vêm a familia duas vezes por semana.
    E aqueles que so vêm uma vez por ano em concondições que nem certos animais conseguem viver

    • não é serem coitadinhos! será que fica descansado sabendo que o educador do seu filho vive neste desajuste emocional? será correcto que os seus filhos tenham de lidar com isso? não é seguramente justo para qualquer profissional. mas estes moldam gerações e são fontes de inspiração para os mais novos.

    • Ó cunha, a sua resposta é representativa da falta que os professores fazem. A ignorância não é só não saber ler ou escrever. A mais perigosa é aquela que revelou, não saber pensar. Podia-lhe explicar porquê, mas as suas opiniões são tão redutoras que receio a sua capacidade de absorção. Um abraço e boas e melhores leituras, pode ser que ajudem a alargar horizontes.

  5. Eu com 42 anos, dois filhos, um no 10º ano o outro no 5º ano e após 3 anos sem colocação arrisco colocar o país todo no concurso… consegui colocação, mas também é o terceiro ano que estou a 600 km de casa. Estar com os filhos de 15 em 15 dias é muito difícil. Ter de os deixar, bem entregues (tenho grande apoio familiar), mesmo atravessando períodos difíceis… muito difíceis a nível pessoal (falecimento do pai deles, depressão, problemas de saúde de um filho, meus…) e ainda conseguir ultrapassar estes disabores todos da vida e olhar para os meus filhos e ver neles dois rapazes lindos, felizes, com sonhos, lutando por eles, com notas bem razoáveis é uma vitória. É uma decisão difícil, trabalhar longe… levar filhos, não levar… eles andarem sempre a mudar de escola, não está certo… dentro das escolhas, visto que tenho de trabalhar para lhes dar o mínimo que merecem, esta é a que considero menos penalizante para eles…
    Adoro ser professora, tentei arranjar outros empregos, mas também acham que sendo professor não conseguimos fazer mais nada, dizem: “Não tem experiência” Mas a verdade é que me coloco muitas vezes se estou a ser boa mãe ao colocar os meus filhos a viver longe da mãe
    Nisto tudo, nesta vida de professor contratado o que tenho de melhor e me dá forças é ver a coragem dos meus filhos em enfrentar a vida e ao mesmo tempo o que me entristece é não participar fisicamente e constantemente na vida deles. As tecnologias ajudam mas não há nada que substitua o contato físico entre os que mais amamos.

    • Chorei ao ler o seu testemunho. Escrevo ainda.com os olhos cheios de nevoeiro. Paarabéns pela sua força e coragem. De certeza.que os seus filhos sabem que têm uma.mãe lutadora e maravilhosa. Muita força e felicidades para todos. 😘😘

    • Catarina força e muita coragem.
      Tenho muita pena do que dizem e fazem dos professores neste pais… os meus pais foram professores a vida toda e via bem como era.

  6. Tenho um enorme respeito por estes profissionais. Aqueles que têm como função ensinar os nossos filhos, aturar os nossos filhos, contribuir de alguma forma para que os nossos filhos sejam seres melhores e mais felizes.
    Mas, também uma enorme admiração, pela coragem que muitos têm, para levar a vida que levam… Uma vida sem planos, uma vida sem certezas, uma vida de insegurança… uma vida sem direito a ter uma familia a tempo inteiro..
    Eu sei que não seria capaz…
    Obrigado

  7. A verdade é que a grande maioria deles não tem vontade de melhorar a carreira. Aceitam o que lhes dão de bom grado e quando se lembram que afinal são um bocado explorados, resolvem se com as merdas das greves. É por isso que não passam da cepa torta!

  8. Não sou professora, mas não acho correto aquilo que fazem com os nossos educadores e não é por ser assim à muito tempo que vamos deixar que assim continue, porque também não é bom para os nossos educandos não saberem se tem os professores no prencipio das aulas, e muitas vezes começarem mais tarde porque as colocações foram feitas tardiamente por isso à que mudar o sistema

  9. Coitafinhos dos professores.e os que tiveram de deixar a familia.e só a vem de ano a ano? Se nao estao contentes com a profiçao que tem.de certesa que perto deles á empresas de construçao!

    • Não são coitadinhos. Escolheram. Escolheram estudar 17 anos ou por aí. Para ir para a construção não é preciso estudar.
      Os professores são os que transmitem o conhecimento. No seu caso suponho que frequentou a escola pouco tempo a julgar pelo numero de erros que vi no esperto (diferente de inteligente) texto com que nos presenteou. Como dizem por cá “Calado és um poeta.” E não o estou a tratar por tu (não se vá dar o caso de não perceber).
      Cumprimentos.

  10. Bom dia, apesar destes comentários serem de 2017, são sempre actuais. O que estranho é : – Porque será necessário os professores serem deslocados? Será que nas cidades e aldeias e vilas, não têm professores para nelas darem aulas? Há aqui alguma coisa muito mal explicada… ou os professores escolhem ir para onde houver trabalho, ou o programa informático utilizado tem de ser revisto. Será que ainda o governo não conseguiu um programa eficaz de colocação para os professores médicos etc.. ? Se os professores arriscam trabalhar para um local não longe doa sua casa..apenas sou a favor de que deveriam ter um subsidio para alojamento, tal como os políticos. De resto…é como os emigrantes.. a vida nem sempre é fácil, e à falta de trabalho, muitos têm necessidade de fazer esforços suplementares…quantos enfermeiros emigraram,, à conta de melhores salários ? Tudo tem um preço.

  11. Dentro da notícia retiro o seguinte trecho:
    “Pensar nesta dignidade teria sido a seu tempo fechar as vagas para se ser professor. Era mais digno dizer, “não! não há espaço para ti” do que aceitar tudo e todos, mas a propina… a mensalidade… falou sempre mais alto. Quem faz frente ao lobby das faculdades?”

    Vou mais longe e digo: já era e é sobejamente conhecido que há e havia excesso de professores, porque as pessoas escolhem essa vertente sabendo o que os espera? Facilitismo? masoquismo? pressão do canudo?
    Não é só atirar as responsabilidades para o governo que deveria ter fechado as vagas (o que acho injusto, porque não devemos negar a quem quer mesmo seguir essa área), assumam as vossas responsabilidades …

    E digo isto relativamente a todos os outros cursos com pouca saída profissional, o estado deveria fazer esse levantamento e quanto menos saída mais propinas pagam, p.e 10 vezes mais propinas que o curso com mais saída … assim baixava-se as propinas dos cursos que mais falta fazem ao país e aumenta-se as propinas dos cursos para os quais o pais não tem necessidade.

    • Antonio Silva, concordo em absoluto, da mesma forma que penso que qualquer curso subsidiado pelo estado tenha uma obrigação por parte do aluno , após a licenciatura, efectuar serviço ao estado pelo período X… Há muitos alunos que após o curso emigram apenas porque ganham mais lá fora que cá. Afinal qualquer empresa que financie um trabalhador, espera com essa formação , que ele lhe dê algum retorno. Em relação ao Estado, que paga o curso com o dinheiro dos contribuintes, deveria também, exigir que após o mesmo, fosse prestado um serviço , remunerado, claro, de x anos, proporcionalmente ao investimento feito.

  12. Interessante….Durante três anos estive a 300 Km de distância de casa, via a minha família duas vezes por ” MÊS ” , vivia numa camarata com péssimas condições que também tinha que pagar…Quem era eu…Agente da PSP, ganhava talvez um terço do que ganhava um professor e com uma agravante, não podia como ainda não se pode…. fazer GREVE..

  13. Então desculpe o seu irmão anda a engana-la, esta é mesmo para rir..Um agente das PSP ganhar mais que um professor, a menos que esse agente seja um oficial, o seu irmão pode dizer-lhe o que quiser, mas faço-lhe um desafio, vá ver a tabela de remunerações de ambas as profissões.

  14. Não preciso indicar-lhe um escalão…veja a tabela remuneratória de ambas as profissões com o mesmo tempo de serviço e obterá a resposta..Se eu estiver enganado só me resta concluir que o seu irmão recebe mais mas com serviços remunerados incluídos..Espero que me tenha feito entender..

  15. Oh… Sr. Professor.
    Abandone a carreira pois vai ser sempre assim, eu trabalho a 22 anos na função pública na área da educação e ganho o ordenado mínimo, a minha esposa também é o que ganha, tenho 3 filhos e se tiver que ir ao médico tenho de pagar tudo, pois parece que quem ganha esse valor assim tem de ser, não tem direito a isenção.
    Já estive a analisar e o melhor é deixar de trabalhar, não me chateio, não me canso, posso ficar a dormir até mais tarde… Só tenho de ir para um bairro social e pedir o rendimento de inserção social… Vejam os benefícios, habitação gratuita, se não tiver de comer recorro a uma instituição para esse efeito, saúde gratuita… Na escola tudo gratuito, manuais, materiais.,refeições… É ainda aproveito para ir chatear quem lá está a trabalhar… Se não puder pagar a eletricidade ou a luz vou assistente social e ela trata disso… Conclusão este país é maravilhoso para quem não quer trabalhar… E já viram que a segurança social oferece o dinheiro dos contribuintes a pessoas que nunca descontaram e que não nunca vão descontar para lá…
    Sr. Professor ganhe juízo… Vá mas é para junto da sua família…

  16. Mas que raio de resposta é essa… Só porque estudou já tem direito a estar perto de casa??? Quer dizer que as outras profissões não têm o seu valor??? Não quer estar longe de casa… Mude profissão… Pois tem estudos que o permitem…

  17. O relato é um facto… Triste e doloroso. E só quem passa por elas sabe que o é, principalmente quando há filhos. Fui contratada 17 anos. Durante esse tempo fui colocada em 31 escolas, distribuídas entre Viana e Setúbal, porque pertenço a um grupo disciplinar onde até 2017 nem uma pessoa vinculou por ter conseguido 5 contratos completos consecutivos, tão grande é a oferta no grupo! Durante os 3 primeiros anos de vida do meu filho, ele fazia 700 kms por fim-de-semana, para estarmos com o pai. Em 2017 vinculei… Longe! Alguns me criticam por ter concorrido para longe. Fi-lo porque estava cansada das injustiças dos descontos da segurança social, incertezas de direito a desemprego , e até cansada de conhecer 500 alunos ou + num ano letivo, às vezes de distritos diferentes ( o que implica outras preocupações, com alojamento, por exemplo). Será que quem se compara, até aqui nos comentários, também tem estas condições? Não me queixo, atenção! Só quero partilhar que… muitos contratados, quando o deixarem de ser, continuarão como estão. Ser professor é realmente uma prova de resistência emocional. Força a todos!

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