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3º Período | Consolidar À Distância Sim, Aprender À Distância Não!

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O Ministério da Educação mereceu um período de estado de graça pois ninguém estava preparado para o covid-19. Não se muda uma tipologia de ensino secular em 3 dias e apesar de estar longe do ideal, por uma questão de justiça intelectual, reconheço a tentativa de diminuir os estragos de um final de período/ano atípico.

Porém, começam a surgir sinais que justificam o som de algumas sirenes e que merecem ser ouvidas para que se evite um erro com elevadas consequências. Falo naturalmente do ensino à distância no 3º período.

Infraestruturas

Se as escolas estão reféns da falta de material e os seus professores são obrigados a adaptar sistematicamente as suas aulas, abdicando por vezes de aulas muito mais interessantes por falta de condições, o que dizer dos 17,2% de famílias portugueses que vivem abaixo do limiar da pobreza e 18,9% que não tem dinheiro para manter sequer a casa adequadamente aquecida.

O Ministério da Educação fala na utilização das Juntas de Freguesia, das
Bibliotecas, as Associações de Pais, as Associações de Solidariedade Social, os Bombeiros, os mediadores do Programa Escolhas, os mediadores de ONG, as organizações da Economia Social, para chegar a todos os alunos. Mas esquece-se ou ignora que as orientações são para permanecer em casa e diminuir o contacto social. Serão os alunos a dirigirem-se a essas entidades ou são essas entidades que lhes devem fornecer as condições que carecem?

Depois temos os “pequenos” problemas em ambiente familiar, a internet que é fraca, o computador que é velhinho, que precisa de ser partilhado pelo pai, mãe e irmão, ou que está situado na sala onde o primo e o tio estão a ver televisão, etc…

Portugal não está preparado ao nível de recursos para uma implementação imediata do ensino à distância em larga escala..

Inclusão

Se o ensino não chega a todos, lá se vai a bandeira da inclusão. Quem anda nas escolas sabe que por vezes está 1 professor destinado apenas para 1 aluno, são alunos que integram as turmas mas com diferentes tipologias de carências cognitivas e que precisam de um acompanhamento mais individualizado.

E o que dizer dos Centros de Apoio à Aprendizagem que têm a seu cargo alunos com diferentes problemáticas como o autismo?

Vai ser a Junta de Freguesia, os Bombeiros, ou o professor de Educação Especial que vai a casa desses alunos? Não vai, sabemos que não vai.

O ensino à distância mata a inclusão da forma como está idealizada. E não sou hipócrita ao ponto de criticar sem apresentar uma alternativa, mas reconheço que para este tipo de alunos não vejo uma alternativa aceitável. Infelizmente em período de crise, os mais necessitados são aqueles que mais sofrem, por isso devemos pensar muito bem no nosso 3º período para não aumentar ainda mais as diferenças sociais e pedagógicas.

Aprender longe do professor

É possível, não vou dizer que não é. Hoje em dia com as novas tecnologias podemos estar em casa a assistir a uma aula e até realizar trabalhos em grupo entre outras coisas. Porém, não é a mesma coisa e se a estratégia é avançar com um “camião sem rodas”, o que vai acontecer é que vamos ficar parados e dar cabo do motor.

Os pais não são professores! Os pais são os primeiros diferenciadores no sucesso dos alunos pelo apoio/não apoio que lhes prestam. Se no passado referi que a escola precisa de terminar na escola para diminuir a discriminação educativa, se vamos atirar a responsabilidade de ensinar para os pais, meu Deus… O que raio estão a pensar!?

Avaliação

Se o objetivo é avançar com o “camião sem rodas”, os professores vão ter de recolher e avaliar o trabalho dos alunos. Mas se os alunos não estão na sala de aula, quem garante que não foi o pai, a mãe, o amigo, ou o google que deu as respostas? Corremos o risco de estar a avaliar tudo exceto o próprio aluno.

Mas isso também pode acontecer na escola…

Verdade! Copiar é uma arte, mas o professor está no volante, vê, constata, verifica, “chateia”, em casa temos a certeza que assim será? Os pais terão condições, capacidade ou até interesse em fazer esse papel? E vão todos proceder da mesma forma?

Não, não e não…

Ensino à distância para os alunos mais novos

Tenho lido sistematicamente a mesma coisa nas redes sociais. Acham que o ensino à distância vai funcionar para um aluno de 6 anos? Pois é… Nesta altura já deve conseguir ler e escrever alguma coisa, mas tenho muitas dúvidas que consiga ir ao email ou ao google classroom. Ou seja, sobra para os pais, e tal como a “pescadinha de rabo na boca” voltamos ao mesmo. Os pais têm condições? Percebem de informática? Onde está a equidade no ensino?

A solução da entrega de material educativo via CTT pode entrar aqui e até noutros casos. Não vou gozar com esta solução como li muitos fazerem, em tempos de emergência todas as opções devem ser analisadas e desde que se salvaguarde as questões sanitárias, não sou contra. Porém, irá surgir um problema temporal, pois o tempo que demora a entrega a casa e a devolução à escola, torna o ensino ainda mais distante.

Não se pode colocar no mesmo patamar alunos de 17 anos com determinadas valências tecnológicas e de autonomia, com alunos de 6, 8, 10 ou 12 anos.

Professores

Estamos perante uma classe envelhecida, onde muitos não veem com bons olhos as novas tecnologias. Basta constatar as dificuldades em implementar um ensino flexível, fugindo ao modelo tradicional, para perceber que a mudança é um processo longo. De repente vemos professores a ter de trocar o seu “palco” e o seu marcador pelo teclado de computadores.

Justiça seja feita, os professores mostraram ser dignos de um “P” maiúsculo, conheço casos de professores que foram comprar portáteis do seu próprio bolso para poderem ajudar os seus alunos.

São nos momentos difíceis que se vê a verdadeira natureza das pessoas e de uma forma geral, tirando alguns excessos nos TPC, os professores mostraram que podemos contar com eles para o que se avizinha.

Então que raio se faz?

Se os princípios Constitucionais da equidade, da inclusão, da igualdade estão postos em causa, não deve a escolar avançar sem que todos possam estar no mesmo comboio da aprendizagem. É um absurdo avançar na matéria e ter a plena consciência que vão ficar alunos na estação. É um atentado à verdadeira essência da Escola Pública, uma escola feita por todos e para todos.

Retiremos a pressão de dar novos conteúdos, retiremos a pressão da avaliação, retiremos a pressão de querer chegar a todos da mesma forma. Este 3º período deve ser um período de consolidação de conteúdos já lecionados, aproveitando uma oportunidade rara de ter tempo.

Vivemos em situação de emergência, na casa do “Manuel” o irmão pode estar em quarentena, o avô pode estar nos cuidados intensivos, o computador pode estar avariado, etc. O foco não está neste momento no ensino, está na saúde das pessoas!

A escola deve fazer tudo para manter a ligação com os seus alunos, mas não deve criar mais situações de stress e ansiedade para alunos e suas famílias.

Não me interpretem mal, não defendo que se deva desistir de tentar chegar a todos, mas por favor, não aumentem as assimetrias e tenhamos noção da realidade e não de uma utopia que se quer impor em meia dúzia de dias.

Ninguém sabe se o “bicho” morre até setembro e se não fará uma pausa regressando mais tarde. Dotar e testar em pequena escala agora, talvez seja mais prudente, para que no futuro possamos massificar com mais segurança e mais certezas

O mundo não acaba se durante 1 mês e 1/2 os alunos fizerem apenas revisões de conteúdos. Quando aos mais pequeninos, deixem os miúdos brincar… Têm a vida inteira para recuperar…

P.s- eu sei que não falei dos exames, isso merece um artigo exclusivo.

Alexandre Henriques


Ou Governo muda modelo do ensino à distância ou põe em causa a Constituição, alertam constitucionalistas

19 COMMENTS

  1. Creio que a postura a adoptar é pacífica.E creio que o que está no documento do ministério aponta essencialmente para o que sugeres. Existem três problemas:
    1- alguns professores que exageram e acham que têm de dar sempre muitos conteúdos. E algumas escolas e a gestão de algumas escolas pode exagerar nessa pressão.
    2- os professores que estão sempre contra. ” Quem quer faz quem não quer arranja uma desculpa”. Na minha opinião a classe docente aumentou e muito o seu prestigio social nestes dias pela resposta que foi capaz de dar. espero que assim continue mas com calma. Não se podem colocar os alunos a ter 7 horas em aulas síncronas
    3- a necessidade que terá de ser feita daqui a uns dias de definir “exames” avaliações e provas. Será isso que vai definir como serão as aulas .

  2. De acordo. A muitos escapa também um pequeno pormenor. A situação dos professores atirados para longe do seu domicílio, que subsistem pagando por um quarto olhos de cara (e sem recibo sequer), frequentemente sem acesso a internet e que até agora contavam com os equipamentos das escolas. Vão dar aulas por telemóvel?

  3. Boa noite, gostava de saber o que pensam de dar continuidade a este ano lectivo no próximo, isto é, propor que os alunos não transitem e assim todos juntos terem tempo para desenvolverem as competências e os desempenhos previstos, bem como reflectirem todos sobre esta experiência completamente nova. Seria isso também uma oportunidade para estabelecer mais laços entre toda a comunidade escolar?
    Obrigada.

    • Concordo que essa é a solução mais razoável e justa. Julgo até que, apesar dos muitos estragos que a atual situação de emergência causa e continuará a causar, esta é uma oportunidade de ouro para todos terem/termos mais tempo para consolidar, aprofundar conhecimentos, desenvolver competências, estabelecer laços entre todos os intervenientes neste sistema de ensino! Espero que não vinguem os “velhos do Restelo”, os que sempre acham uma perda de tempo fazer uma paragem mais demorada numa estação. Muitas vezes, parar não é uma perda mas sim um ganho, a vários níveis!

  4. Tenho um filho de 7 anos(1 ano) que estou a ser literalmente professora dele, estou a dar os conteúdos que deviam ser dados na escola. Estou com muitas dificuldades na matemática, pois como devem de calcular a maneira de fazer as coisas é muito diferente, e como é de esperar não tenho a mesma linguagem que a professora, logo como ele vai apanhar o comboio se ele não está a conseguir? Quando ele chegar à escola estará muito para trás e de certeza que não consegue acompanhar. O que vai acontecer? Insucesso, frustração… Para além de não conseguir manter o filho com atenção, porque na mesma casa está o Joaquim a Maria e o Manel..

  5. Segundo informação disponível, os exames vão ser realizados, não se sabe quando mas vão, CONTEMPLANDO TODA A MATÉRIA!!! Já estão elaborados e impressos!!!! Adaptações e mudanças nesta matéria a esta altura não são possível!!!
    Só no resto.
    Professores, familias e alunos, façam-se à vida!!!! E depressa!!!

  6. Estando nós quase no final do ano em que muitos alunis se esforçaram por trabalhar e ter boas notas, em que o 3 período sempre rondou o mês e meio com as atividades de final de ano, em que as matérias estão quase todas dadas e em que os alunos podem passar com o 2 periodo se não tiverem elementos de avaliação, a ideia de não acabar o ano ou de o anular é ridícula e deixaria muitos alunos trabalhadores e empenhados bastante desmotivados e revoltados. Francamente…

  7. Uma reflexao crítica, bem argumentada, justa e oportuna. O princípio da equidade deve ser o fundamento e alavanca de todo este novo processo. CONSOLIDAR. Sim. É isso que deve ser feito. De resto… é encher chouriças.

  8. Tenho uma criança de 6 anos, não sou professora. Tenho pensado exatamente naquilo que o Alexandre expressa neste texto! Tenho sérias dúvidas se estou a ajudar o meu filho ou se por outro lado a limitar o seu desempenho escolar.

  9. Irena, Esses professores que moram longe (tipo são de Braga e leccionam em Lisboa) foram para casa. Duvido que hoje em dia algum professor não tenha computador.

  10. Andreia Brites – Se há coisa que um professor não faz é prejudicar um aluno ou deixar que um aluno saia prejudicado de uma situação que lhe é alheia. Já pensou bem nas consequências que uma retenção pode ter na vida de uma pessoa? Mais vale fazer passagens administrativas. No próximo ano (quando isso for…) logo aprendem o que não aprenderam neste!

  11. Um artigo que só vê problemas e dificuldades insuperáveis. Vamos todos parar porque o processo não é perfeito, porque haverá injustiças, porque alguns ficarão para trás? O modelo atual já é imperfeito, injusto e muitos ficam para trás. Tem é que se tomar medidas de apoio. Não adianta querer resistir à maré que aí vem. Parece-me que quem terá maior dificuldade serão alguns professores, e não os alunos.

  12. Concordo plenamente. Nem todos têm a opção de ter aulas online, nem todos têm um ambiente sossegado em casa para estudar,…

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