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25 medidas para melhorar o sucesso escolar

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Até dia 22 de junho, as escolas têm de enviar à tutela o seu programa de promoção de sucesso escolar. A nossa colega Alexandra Lopes, teve a amabilidade de autorizar a publicação das suas propostas que devem merecer alguma atenção por todos os que se interessam pela educação.

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25 alvitres (modelo Cassandra) sobre  a promoção do sucesso escolar

Poucos temas despertam na sociedade tanta verbosidade como o tema do ensino. É bom sinal. Todos consideram que possuem uma dupla condição que os averba na opinião emitida. Por um lado, como testemunhas da sua própria experiência aprendente; por outro lado, como encarregados de educação, no plano ativo ou no plano hipotético. Discorrer sobre a educação é acreditar no futuro, embora não pareça. Para além dos mais negros vaticínios, encontra-se o ato promissor de pressagiar. Ninguém sabe o que o mundo vai ser quando um aluno inscrito na pré-primária entrar no mercado de trabalho. Três mais doze mais cinco. Como será o mundo em 2036? Será que estamos a preparar corretamente os nossos estudantes? Não podemos antedizer. O ensino é a ação sobre o imponderável.

No dia a dia, o coro da tragédia vai tonitruando: “Isto vai de mal a pior, hoje os alunos não aprendem nada, as escolas estão um caos, os professores etecetera e tal.” Calma, já na Grécia Antiga se dizia o mesmo. Sócrates, por exemplo, passou uma vergonha na peça de Aristófanes, caiu em desgraça, foi condenado à morte. A ingratidão faz parte da remuneração docente.

Mesmo perante as mais dramáticas imprecações, a escola existirá e terá sucesso. Um sucesso à medida da sociedade em que está inseria, mas sucesso. Esta é a verdade de Cassandra, difícil de acreditar por ser positiva a sua mensagem. A princesa troiana, que tinha o dom da profecia e a maldição de não ser tomada a sério, diria que esta temática já tem muitos séculos de acumulada retórica. No entanto, pensar com seriedade sobre a educação é um imperativo categórico de todas as gerações. A resistência contra o existente sustenta o devir.

Por conseguinte, aqui se elencam vinte e cinco medidas concretas, gratuitas e destinadas a uma comunidade específica. Nem todas estas ideias são novas, algumas estão apenas compiladas e dispostas de forma alternativa. Muito do trabalho docente segue por bom caminho. Oriundos da observação quotidiana e dum princípio de confiança proativa, que sustenta o próprio ato de ensinar, estes alvitres visam a promoção do sucesso escolar dentro de uma cultura de escola abrangente. Uma escola eficaz atinge bons resultados escolares e atinge muitos outros resultados, cumulativamente. Não havendo receitas para o sucesso escolar, a melhor forma de abordagem será certamente um modelo integral.

  1. Passagem de testemunho – Encontro dos professores da mesma disciplina em anos de transição de ciclo (6.º/7.º e 9.º/10.º). Observação das planificações, dos livros de ponto, dos manuais e apresentação dos alunos a integrar. Objetivo: Fazer a caracterização das turmas e evitar equívocos.

  1. Devagar se vai ao longe – Diluição das atividades de diagnose pelas duas primeiras semanas de aulas. Objetivo: Minorar o choque de transição de ciclo.

  1. Ritual de inauguração – Realização de uma reunião entre os encarregados de educação e todos os professores da turma no início do ano letivo. Breve apresentação dos conteúdos de cada disciplina e dos critérios de avaliação (visualizados em projeção), explanação das normas de funcionamento e visita ao espaço escolar. Duração máxima de trinta minutos. Objetivo: Aproximar a família da escola e personificar o ensino.

  1. Selecionador nacional – Atribuição das turmas “mais difíceis” e das turmas de ensino profissional por nomeação direta do diretor aos professores com experiência letiva no agrupamento e colocados a 1 de setembro. Objetivo: Realizar a gestão otimizada dos recursos humanos e dar cumprimento atempado às cargas horárias previstas pelos currículos.

  1. Pagamento mensal – Elaboração de um breve documento de informação mensal sobre a aprendizagem, a participação, a conduta e o empenho dos alunos. Envio do registo por correio normal ou eletrónico. Utilização parcial da componente não letiva dos professores para o preenchimento do modelo. Objetivo: Proporcionar uma melhor monitorização da vida escolar dos educandos.

  1. TPC, tantum quantumReflexão do conselho de turma sobre o tempo razoável que um aluno pode acumular com a sua presença na escola e divisão do crédito horário pelas disciplinas. Os professores devem estimar o tempo a dedicar ao TPC e dizê-lo previamente aos alunos. Objetivo: Homogeneizar e rentabilizar o tempo de estudo.

  1. Testes, dividir para reinar – Realização de dois minitestes e de um teste global por período e por disciplina. Marcação dos testes em conselho de turma. Testes e minitestes, com aviso prévio aos alunos, realizados na sala de aula, em 90 ou 45 minutos, exceto em ano de exame nacional. Objetivo: Obrigar os alunos a estudar com regularidade e não «aos solavancos».

  1. Testes, menos mas melhores – Aperfeiçoamento dos instrumentos de avaliação. Os testes globalizantes devem conter obrigatoriamente a cotação total e parcial, devem ser dirigidos a uma única turma e devem espelhar com absoluta fidelidade o ensino ministrado. Cada professor cria o seu próprio teste, partindo de uma matriz comum, estabelecida em departamento. Deve ser tomada particular atenção às gralhas do enunciado, ao protocolo citacional e à novidade do instrumento de avaliação. Não se recomenda a reciclagem de testes de anos anteriores ou de testes publicados. Objetivo: Avaliar com maior exatidão os alunos e transmitir uma imagem mais profissional da escola.

  1. Compromisso de divulgação e transparência – Correção dos testes com o registo das cotações parcelares, a identificação dos erros de expressão escrita e eventuais observações pertinentes. Envio das notas por correio eletrónico ao diretor de turma no próprio dia da entrega dos testes. Recomenda-se a disponibilização escrita dos critérios de correção. Objetivo: Indicar claramente aos alunos e aos encarregados de educação as lacunas do seu processo de aprendizagem.

  1. Sala de aula, an empowerment zone – Deslocação, progressiva, do eixo de rotação do ensino. Descentralização do poder expositivo do professor e atuação sistemática do aluno. Realização gradual de mais trabalho de pesquisa e de mais partilha inter pares. Objetivo: Responsabilizar o aprendente e partilhar com os alunos o prazer de ensinar os outros.

  1. O caminho faz-se caminhando – Observação e avaliação do processo de aprendizagem e não apenas do resultado da aprendizagem. Monitorização e registo do trabalho desenvolvido e maior valorização do cumprimento de tarefas. Inserção do trabalho realizado nos critérios de avaliação. Objetivos: Desengatilhar a angústia dos professores e dos alunos face à avaliação sumativa dos resultados e possibilitar que todos os alunos participem no processo de aprendizagem, independentemente dos resultados quantitativos. Associar o critério da quantidade ao critério da qualidade.

  1. ¡Nos encantaria escucharte! Criação de uma ficha anónima para avaliação do ensino. Análise de todas as disciplinas no que concerne à clareza dos conteúdos lecionados, à dinâmica do trabalho, à criatividade das estratégias, à capacidade comunicativa do professor, etc. O diretor de turma solicita o preenchimento do questionário no final de cada período, consciencializando os alunos para a importância da objetividade e da imparcialidade. Tratamento da informação recolhida de forma sigilosa e construtiva. Objetivo: Incentivar a participação crítica dos alunos numa perspetiva responsável e valorativa.

  1. Reuniões de avaliação alunocêntricas Realização de reuniões de avaliação centradas claramente nos alunos. Diálogo dos docentes sobre cada um dos elementos da turma e registo individualizado em ata. Justificação pormenorizada de cada uma das notas insuficientes atribuídas. Votação por unanimidade no caso da segunda retenção de um aluno. Objetivo: Partilhar informação e obter uma visão integral do aluno nas várias aprendizagens.

  1. Kindness, niceness, politeness and care – Apuramento da comunicação oral e escrita com os alunos e encarregados de educação através de uma cultura da gentileza e do elogio. Dar as boas vindas, agraciar a presença, parabenizar, gratular a atenção, etc. Objetivo: Melhorar a comunicação e dar um exemplo ético aos alunos.

  1. A parábola dos talentos – Aumento da verificação estatística, incluindo a análise da coorte por disciplina, por turma, por ano e por ciclo. Objetivo: Verificar com rigor a perda escolar (isto é, o número total da retenção) e perceber as suas causas. Comparar as médias externas com o número de alunos examinados.

  1. Estatística para todos – Observação periódica das estatísticas em versão reduzida com toda a comunidade escolar. O diretor de turma apresenta aos alunos e aos encarregados de educação um conjunto de diapositivos sobre o desempenho escolar da comunidade. Duração máxima de dez minutos. Objetivo: Partilhar a informação, incentivar o sucesso e/ou reconhecer as melhorias.

  1. Diplomas de participação – Criação de diplomas na categoria “Esforço e empenho” e na categoria “Cooperação com a comunidade escolar”. Atribuição de três diplomas por turma e divulgação dos premiados. Objetivos: Promoção de uma escola participada e com valores. Reconhecer o valor dos alunos que não conseguem entrar no quadro de excelência.

  1. Um bocadinho de ensino artístico – Mobilização parcial da carga horária não letiva para a implementação de um bloco letivo semanal dedicado à arte ou ao lazer. Execução de atividades extracurriculares: música, canto, karaoke, dança, xadrez, desenho livre, teatro, declamação, jogos informáticos, caminhadas, modalidades desportivas, etc. Diminuição de apoios e tutorias e substituição destes tempos por tempos de monitorização, por parte dos professores, das atividades geridas e desenvolvidas pelos alunos. Note-se que os professores não têm de praticar nenhuma atividade, podem tão-somente observar e orientar as dinâmicas geradas pelos jovens. Objetivos: Melhorar a satisfação global dos alunos em relação à escola. Criar um ambiente de estudo mais salutar, baseado em relações interpessoais mais amistosas.

  1. Semana da doação – Entrega de manuais escolares, livros, brinquedos e roupas sem interesse para o próprio. Objetivos: Ensinar e praticar a solidariedade. Valorizar a reciclagem e as práticas de consumo consciente.

  1. Mais saúde, mais amigos – Participação em atividades desportivas destinadas a toda a comunidade (professores, funcionários, alunos e respetivas famílias). Realização de uma grande caminhada anual, um passeio de bicicleta, uma aula de zumba, um dia dedicado à dança, etc. Objetivos: Estimular estilos de vida mais saudáveis. Criar um ambiente de estudo mais salutar, baseado em relações interpessoais mais amistosas.

  1. Ici, je suis chez moi.– Organização de atividades com vista à melhoria das relações sociais. Convívio de Natal e de Páscoa: lanche e baile no refeitório. Comemoração de efemérides. Limpeza coletiva do espaço escolar e dos jardins no final do ano letivo. Objetivos: Desenvolver o sentimento de pertença a uma comunidade. Criar um ambiente de estudo mais salutar, baseado em relações interpessoais mais amistosas.

  1. A imaginação é o princípio da criação – Valorização militante de um modelo de ensino/aprendizagem criativo. “A imaginação é mais importante que o conhecimento. O conhecimento vem, mas a sabedoria tarda” – dizia Einstein. Organização de seminários de motivação e criatividade através da apresentação de pequenas palestras pelos docentes sobre as suas ideias ou práticas letivas. Sessão aberta à comunidade escolar. Objetivo: Melhorar a qualidade do ensino e a motivação dos alunos.

  1. Cultura sem fronteiras – Vulgarização das práticas interdisciplinares. Incentivo, planificação e relato das aulas ou atividades articuladas entre dois ou mais professores. Realização de trabalhos de pesquisa cuja avaliação reverta para várias disciplinas. Partilha dos trabalhos realizados com alunos de outras turmas e de outros níveis de ensino. Dinamização de aulas lecionadas pelos alunos mais velhos para os alunos mais jovens. Objetivo: Promover uma visão alargada da cultura. Melhorar as práticas letivas. Concentração do esforço dos alunos. Valorização do trabalho e da missão de quem ensina. Gentrificação de todos os níveis de ensino.

  1. Da nossa aula vê-se o mundo – Acionamento de transliteracias. Uso recorrente de informação veiculada através suportes diversificados, nomeadamente on-line: audição de temas musicais, visualização de filmes e programas de interesse cultural, consulta de dicionários e enciclopédias, visitas guiadas a museus, visionamento crítico da imprensa, de vídeos, de posts de bloggers, etc. Utilização responsável e pontual de dispositivos eletrónicos como telemóveis, tablets e computadores dentro da sala de aula. Aproveitamento dos saberes e interesses dos alunos para dinamização do ensino. É vital que a ponte se construa nas duas margens, ou seja, o professor deve estabelecer ligação entre o universo referencial dos alunos e os saberes ensinados. Objetivos: Melhorar a qualidade do processo do ensino aprendizagem. Incentivar a atualização permanente dos conhecimentos. Promover um ensino verdadeiramente colaborativo. Ligar a escola ao mundo. Assinar um compromisso com o futuro.

  1. 1+1=1+1 – Implementação de um modelo de ensino diferenciado e respondente. Cega às necessidades e aos interesses dos alunos, a massificação do processo de ensino promove apenas o insucesso escolar. O professor deve adaptar, dentro dos limites razoáveis, os conteúdos e as estratégias de aprendizagem aos seus alunos e, para tal, deve escutá-los e negociar com eles. Paralelamente, deve estabelecer metas diferenciadas para cada um. Em 1799, foram depositados, nos Arquivos de Paris, dois protótipos que representam o metro e o quilograma. Não servem para avaliar ninguém. A avaliação tem parâmetros muito subtis. Cada professor deve exercitar-se na prática da anamnese e depressa descobrirá que esqueceu grande parte do que aprendeu ao longo da vida. Os conteúdos que ensina aos alunos serão rapidamente esquecidos. (Mnemósine, a mais desleal das nove musas!) Desta feita, a avaliação deve abrir o escopo. Objetivo: Melhorar o ensino e a avaliação dos alunos.

 

Alexandra Lopes, professora

 

Campo Maior, 31 de maio de 2016

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