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1º De Maio – Dia Do Trabalhador

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Comemora-se mais um dia do trabalhador, e embora exista o conhecimento e a consciência das conquistas alcançadas, atualmente, parece uma empreitada complicada debater ou reivindicar direitos laborais.

Relativamente ao contexto escolar, sendo um tema de abordagem curricular, uma grande parte dos alunos facilmente debita o factual, a dificuldade está na reflexão e na extrapolação para a realidade concreta do dia-a-dia.  A título de exemplo, não raras vezes, ao se abordar o trabalho infantil, e talvez pela ausência do confronto direto com esta realidade, fico com a ideia que os nossos alunos a entendem, ou como algo ficcionado, ou um “mal necessário”. Penso que não sou caso único, que ao confrontar os alunos com o facto de existirem crianças a trabalhar por um dólar/dia para que possamos satisfazer as nossas comodidades, recebeu como resposta o argumento ”que era importante continuar a comprar esses produtos, pois assim, essas crianças recebiam pelo menos esse dólar”. Aflorar a questão da exploração laboral, acaba na reprodução do discurso veiculado “mais vale explorado e ganhar algum, do que não ter nada”. Se nos cingirmos à importância e ao valor do trabalho escolar, começa a cair em saco roto, já que cada vez mais temos alunos a beneficiar do facilitismo instalado e a perspetiva de um futuro para todos aqueles que se esforçam, não parece traduzir-se numa realidade tangível.

No que concerne ao mundo dos adultos, a conjugação de fatores, como a precariedade laboral, a exploração, o desemprego, o medo, o ressentimento, a ignorância, o umbiguismo, a desinformação, e a má formação adensam esta problemática, resultando na oposição entre trabalhadores, na crítica e ataque a todos que ousam lutar por aquilo que é seu de direito, na proliferação de discursos assentes no desconhecimento das características específicas das diferentes profissões, na exigência de igualdade sem qualquer critério, na falta de respeito pelos direitos dos outros e inclusive, na tentativa de cercear a liberdade de terceiros, quando a mesma, nos é inconveniente. Racionalizar, refletir, pensar e agir em conformidade está, completamente, fora de moda. Quem vai acompanhando, minimamente, a luta de grupos profissionais vai ficando estupefacta com a deficitária literacia cívica que grassa no país. A ignorância disfarçada de liberdade de expressão serve para veicular verborreia contra os direitos consagrados na Constituição. São os camionistas de produtos tóxicos que não se percebe as suas exigências, afinal só conduzem camiões, e ao porem em causa a economia do país, deveriam ser proibidos de fazer greve. Os enfermeiros, que ao reunir um fundo para pagar a greve, estão comprados pelos privados, logo não se podem queixar. No caso dos professores, a luta pela melhoria das condições laborais e valorização profissional é alvo de uma oposição cerrada, incompreensível, num país dito desenvolvido. Sendo professores, melhor do que ninguém, temos a noção das circunstâncias económicas das famílias dos nossos alunos, logo, em comparação, é normal que nos olhem como profissionais mais afortunados. Sendo uma profissão de alta exposição, pelo contacto diário com centenas de pessoas, o escrutínio é maior, e somos um alvo fácil à crítica e ao ataque. Tendo em conta a formatação através da opinião publicada, mesmo não sendo fundamentada, o sermos em grande número, leva a que se gere o medo perante as nossas reivindicações. A propaganda do ministério e do governo tem contribuído para que muitos tenham metido na cabeça que são patrões dos professores e que podem impor as suas regras dentro das escolas. O facto de continuarmos, na adversidade, à procura da aprovação de terceiros, de usarmos como estratégia o ataque, a vitimização, discursos à CMTV, continuar a permitir e contribuir para a fragmentação da classe, manifestar completa incapacidade para se organizar e agir, tem impedido de todo a reviravolta necessária para sair do poço sem fundo, em que nos encontramos. Combater a opinião pública é uma tarefa inglória, até porque está provado que um grupo significativo de cidadãos confia no trabalho dos professores, e muitos têm consciência que não nos limitamos a despejar conteúdos. Muitas crianças e jovens e respetivos encarregados de educação reconhecem a ajuda e o apoio diário que lhes é dado. A recuperação dos 942 do tempo de serviço, o respeito pelo contrato de trabalho e pela carreira só são entendidos por aqueles que partilham as mesmas circunstâncias. A precariedade, o nomadismo, o abuso laboral, o envelhecimento, o desgaste, a idade da reforma não são problemas específicos da classe docente, e talvez por isso, seja difícil granjearmos a solidariedade que gostaríamos. Só fruto da ingenuidade, é que é possível pensar que contamos com o apoio da sociedade para levar a luta a bom porto. Para se alcançar um resultado positivo e justo, os professores precisam de definir objetivos coletivos, pautar-se por princípios que promovam a equidade profissional, deixando de parte as suas injustiças ou necessidades pessoais, começando, desde logo, por promover a mudança dentro das próprias escolas.

Cassilda Coimbra

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