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A Escola “Catedral do Tédio”?

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10458549_10202266446615809_6164479351172012278_nTodos nós, desde que não desmemoriados, nos lembramos dos tempos em que estávamos do lado de lá, de rabo sentado nas cadeiras que adornavam as salas de aula que frequentávamos na nossa condição de alunos e todos nós, desde que não desmemoriados, guardamos lembranças deste e daquele professor, maioritariamente desta ou daquela professora, que o género feminino já era dominante à época, de quem gostávamos particularmente e cujas aulas passavam a correr tanto que quando tocava para fora pensávamos para connosco “Já?!” e, por vezes, chegávamos mesmo a verbalizar o “Já?!

No campo oposto, todos nos lembramos dos professores, raros os que eu apanhei enquanto aluna, que literalmente eram capazes de matar disciplinas ou porque não se faziam entender pelos alunos e não se preocupavam minimamente com o assunto, ou porque eram incrivelmente entediantes e davam as aulas como quem está a cumprir um frete ou a executar um enorme e longo bocejo, ou porque abordavam anedotas em vez de abordarem as matérias que era suposto leccionarem… ou…

É claro que para além da variável professor tínhamos ainda uma outra variável, deveras importante, que era a variável matéria que, enquanto alunos, nos agradava mais ou menos, para a qual éramos mais ou menos dotados… mas muitas vezes esta variável estava intimamente ligada a uma simpatia e mesmo amor que podíamos ou não sentir pelos nossos professores, pelos nossos “setores” como era usual chamar-lhes aí pelos anos setenta e oitenta.

Lembro-me de algumas professoras minhas, excepcionais, todas diferentes entre elas, uma escrupulosamente cumpridora, perfeccionista, profissional exímia, organizada até dizer chega que nos obrigava a pensar para progredir, no caso na disciplina de Filosofia; outra exuberante e emotiva cujas aulas eram carrosséis, também de emoções, explorando matérias, maravilhosas, de … Português; outra, serena, competentíssima, próxima dos seus alunos, bela como só ela, às voltas com matérias e documentos na disciplina de História que dissecávamos; uma outra, com alma de artista, escritora e poetiza que não cumpria os programas de Moral no tempo do Estado Novo e abordava connosco uma barbaridade e um escândalo de matéria de Educação Sexual… ai a moral da época!; outra que adorava desfiar-nos para a experimentação e em cujas aulas fazíamos experiências que eram olhadas por nós com enorme curiosidade, constantemente estimulada para a disciplina de Ciências Naturais; e aquela outra professora que saía connosco da escola para desenharmos Amarante em dias de sol radioso e que dentro da sala de aula estava em constante movimento orientando o nosso trabalho…

E, do lado oposto, também me lembro daquele professor que assassinou, literalmente, a disciplina de Matemática… que nunca mais foi a mesma, ficando eu com uma contagem de tempo, matematicamente falando, antes dele e depois dele.

Resumindo, muito embora a tutela tenha uma enorme, se calhar até a maior, quota parte da culpa da Escola ser hoje vista por muitos alunos como uma gigantesca “catedral do tédio” porque impõe aos professores e aos alunos ritmos de trabalho desumanos e alucinantes, que derivam de currículos onde se confunde quantidade com qualidade e que mal deixam tempo para a respiração, para a reflexão, para a interpretação, para a consolidação, para a experimentação, para a aula-oficina, para a visita de estudo, para o trabalho de campo, para o trabalho interdisciplinar… de tal maneira andamos todos pressionados pelo cumprimento dos programas quilométricos a que estamos obrigados e que são fonte de stress para toda a comunidade educativa, e ainda pelo facto da tutela nos ter complicado a vida nas escolas até ao limite do inconcebível e de nos impor trabalho com alunos que nem é contabilizado como tal, estafando literalmente os professores e isto só para dar estes exemplos porque muitos outros haveria para dar, a verdade é que muito pode ser feito por cada um de nós. Porque podemos sempre não desistir de pressionar a tutela para que mude o que tem de ser mudado e que é urgente e porque cada um de nós pode, apesar de tudo, fazer “diferente” quando se apresenta à frente de cada uma das pessoas em formação acelerada que se senta nas cadeiras que recheiam as nossas salas de aulas e compõem a(s) turma(s) que lhe(s) foi ou foram distribuída(s).

E aí podemos, talvez, aspirar a não pactuar com escolas e com aulas que sejam catedrais do tédio. Porque também as há. Sempre houve. E depois há as outras, no seu oposto, as que passam a voar…

E este post pretende ser apenas um ponto de partida para uma reflexão que pode e deve ser feita por cada um de nós e nada mais do que isso.

Para que a escola não seja uma “catedral do tédio” é preciso que os alunos contem

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