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1 Minuto De Silêncio Pela Equidade Na Avaliação Dos Alunos

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Estou no presente momento a fazer formação em flexibilidade e avaliação de aprendizagens. Na última sessão, falou-se sobre avaliação e surgiu um powerpoint muito bonito com uma série de características de como deve ser vista a avaliação pelas lentes da flexibilidade curricular. Enquanto líamos as diferentes palavras, muitas das quais de elementar bom senso, reparei que não constava a palavra “Equidade”.

Quem frequenta os conselhos de turma já ouviu a expressão, “se mudo a nota deste tenho de subir a do outro”, e que na outra turma as notas eram isto e aquilo. Todos sabemos que as classificações não devem ser comparadas, não sendo inclusive aceites nas reclamações dos encarregados de educação, mas a realidade é que são, pois está na natureza do ser humano comparar-se e comparar, só assim é capaz de balizar o conceito de sucesso. Aliás, o sucesso só existe, pois o insucesso é seu siamês, sem um, nunca existiria o outro.

Pois bem, a Educação do século XXI, como agora se apregoa, não compara, não se preocupa com o vizinho do lado, é única e indivisível, como se uma impressão digital se tratasse. Se o conceito do ensino diferenciado é perfeitamente justificável, pois os alunos são efetivamente todos diferentes, a parte da avaliação também deveria ser diferente. Pois… é aqui que a realidade nos dá uma chapada na cara e prova que os unicórnios ainda não passam de meras fantasias.

Vejamos as incompatibilidades existentes:

Critérios de avaliação

Estes não são individuais, são transversais, sendo aprovados em conselho pedagógico e disponibilizados a pais e alunos. Se a avaliação passa a ser diferenciada, os critérios devem também ser diferenciados, de aluno para aluno. Até aqui, a “coisa” ainda pode ser encaixada, como por exemplo acontece em algumas disciplinas, por limitações óbvias dos alunos onde o bom senso deve prevalecer (ex: um aluno de 120 kg pode não conseguir fazer um pino), mas acima de tudo, por não terem condicionantes que mais à frente falarei.

O ajuste das percentagens, como por exemplo dar um peso maior ao esforço do aluno, não pode ser incluída à posterior, os critérios são fixos, foram selados no início do ano e um professor por si só não os pode ajustar à sua turma, aos seus alunos. A apregoada flexibilidade, choca de frente com a inflexibilidade dos critérios de avaliação.

Escalas de avaliação

O “Zé” olha para a pauta e vê que teve 4 a matemática.

O “Manel” olha para a pauta e vê que também teve 4 a matemática.

Os alunos estão em níveis diferentes, o “Zé” domina os conteúdos com relativa facilidade, e o “Manel”, apesar de estar bastante longe do nível do “Zé”, é um aluno esforçado e dedicado.

Equidade, zero, diferenciação, 100%. Mas o “Zé” e o “Manel” têm 10 anos de idade, os pais do “Zé” e do “Manel” são o padeiro da zona e a peixeira da freguesia. Ambos cruzam-se na rua e dizem:

Pai do Zé – Olha lá, como é que o teu filho teve a mesma nota que o meu se nem sabe fazer contas de dividir e o meu sabe?

Mãe do Manel – Por aquilo que me disseram, ele esforça-se muito e por isso teve 4…

Pai do Zé – Pois, eu também me esforço muito e não ganho o que o meu patrão ganha…

É muito difícil para uma criança/jovem e para certos pais que estão fora do sistema de ensino, formatados pelas regras da sociedade, perceberem que o diferente pode ser igual, pois se é diferente devia ter uma classificação diferente.

Esta alteração ao modelo social, protegido pela capa da pedagogia é um obstáculo significativo, que levará muitos, até mesmo dentro do sistema de ensino, a apelidar esta flexibilidade como um facilitismo encapotado. E se pensarmos apenas na aquisição de conteúdos, existe um efetivo facilitismo, mas a sociedade não vive apenas de conteúdos, vive de relacionamentos, de empenho, dedicação e muito mais… O sistema de avaliação quantitativo não está minimamente ajustado a este modelo de ensino.

Exames

Lembram-se da condicionante que falei mais acima?

Cá estão eles, os exames, esse ser todo poderoso que assombra tudo e todos e que rasga qualquer teoria mais ou menos flexível.

Podemos falar em diferenciação isto, flexibilidade aquilo, mas depois surgem exames iguais para toda a gente… Humm!!! Deteto aqui alguma incoerência ou é apenas problema meu?

O modelo de ensino vigente sofre de esquizofrenia, por um lado temos a sala de aula, onde contam os processos, do outro lado temos um modelo “resultadista” tão ao agrado do anterior Ministro Nuno Crato e que são os exames.

A minha formadora garante que ignorar a rigidez do programa resulta, e que nos exames os alunos até têm melhores resultados. Não vou naturalmente duvidar da colega, até porque afirmou que tem conhecimento de causa, mas confesso que tenho muita dificuldade em compreender que o ritmo próprio, a diferenciação, pode levar a bons resultados num exame, sabendo de antemão que os programas/aprendizagens essenciais são extensos. Mas isto sou eu e mais de metade dos alunos que andam explicações no ensino secundário…

Em resumo:

A equidade morreu, mas ao espremer a laranja do ensino, o sumo que sai sabe ainda muito a equidade. A diferenciação com todas as suas vantagens, pode e deve ser integrada no ensino, mas se queremos uma avaliação diferenciada, então meus caros, deixem-se de hipocrisias e mudem também os critérios de avaliação, os exames e o sistema de avaliação.

Alexandre Henriques

3 COMMENTS

  1. Peço desculpa, devo ser de entendimento lento, então para que são necessários critérios de avaliação e reuniões de professores e, já agora, conselhos de turma?
    Isso é formação ou deformação? Nas leis da República também será assim, no desporto, no cinema, na literatura?
    Haja paciência!

  2. Os exames são um elemento fundamental para avaliar a qualidade do sistema. ”Meter” alunos na universidade com notas internas vai criar uma desigualdade inadmissível. Alunos que desconhecem os conteúdos curriculares, são alunos que desconhecem conteúdos curriculares, ponto! Criar um embuste em prol de uma suposta igualdade, ritmos de aprendizagem, sem os alunos nem saberem nada é uma vigarice, sem mais. O que faz a flexibilidade, na prática, é criar um mecanismo em pirâmide que, afunilando, as medidas, gera sucesso artificial, tudo o resto é demagogia. Esta ideia que é tudo igual, não o sendo, , é uma corrente ideológica neoliberal, que visa ”adormecer” os indivíduos , criando a ideia que todos podem ter sucesso, inclusive académico, e deste modo aceitarem melhor um sistema que criará as desigualdades, brutais, a montante, quando os agora alunos chegarem ao mercado de trabalho. No mundo real serão pagos a menos de mil euros, terão trabalho indiferenciado e mal pago, nenhuma ideia de classe, nenhum conhecimento sociológico ou filosófico, trabalhadores dóceis, portanto… Para domesticar bem a plebe nada melhor que umas atividades modernas de raiz orientalizante, como o mildfulness e quejandos, para que a besta aguente bem a albarda, e se sinta recompensado pelo seu interior, mesmo que seja explorado até ao tutano e mal consiga pagar as contas no final do mês… A marcha de instrumentalização ideológica em curso quer deitar para trás da montanha as questões essenciais: a origem socio-económica dos alunos é a questão fundamental para o insucesso ou sucesso escolar dos alunos.Enterrar , e apelidar como retrógradas, as políticas sociais, e de redistribuição de rendimentos. As políticas escolares sem investimento financeiro não são mais do que meros paliativos para nos esquecermos do essencial. Colocar a responsabilidades completa do sucesso académico dos alunos dentro dos muros da escola é uma receita fabulosa para a desresponsabilização dos políticos, das próprias famílias, e um poderoso elemento de chantagem sobre a classe docente , que tem permitido a degradação da própria carreira e do estatuto dos professores. Dentro desta estratégia é essencial , também, um ataque sistemático aos sindicatos, os únicos que podem criar uma força agregadora de revindicação, criando , nos meios de comunicação social, uma hostilidade permanente entre estes e a classe docente… Quando menos gregários forem os professores menos poder reivindicativo… Não será por acaso que , embora tenham sido os decisores políticos a destruírem a Escola Pública, e o próprio estatuto dos professores, muitos atacam os sindicatos, não estando eu a distinguir nenhum em particular…
    Esta ideologia educativa, porque trata-se de uma ideologia, foi gizada há muitos anos e visa uma reorganização do mercado e do próprio estatuto dos trabalhadores… Deste modo, e porque há muitos que falam muito mas que nada lêem , que nada analisam, nada se informam, certas políticas, como a treta da flexibilidade curricular (uma reforma sem meios, apenas no papel…) são vistas como inevitabilidade e parecem, porque devem ter essa aparência para serem aceites, uma elementar forma de justiça social! Essa característica é, aliás, umas das pedras de toque para serem aceites…
    É claro que a montante, onde tudo se joga, os filhos da élite continuarão a ser formados doutra forma. É claro que interessa ignorar que as desigualdades sociais têm aumentado, assustadoramente, e o poder da informação total , e o dinheiro, se têm concentrado num classe restrita de oligarcas que nem sequer sabemos o nome… Acabemos, pois, com os exames, façamos em pó a exigência e os conhecimentos… Mascaremos o que vai acontecer, inevitavelmente, como algo de bondoso, como uma política que ajudará os injustiçados do sistema: os que levam o ”chumbo” dos malvados dos professores… Marchemos, pois, como nos mandam!!!

  3. Parece-me que a avaliação tem de certificar quem sabe e distinguir de quem não sabe. Como pretendem ensinar, inventem à vontade, mas o crivo, exame ou não, tem de ser igual para todos, senão quem sabe e trabalha fica sempre prejudicado em relação aos que tem os mesmos resultados e menos sabem e fizeram. O resultado desta politica é que cada vez mais aumenta o numero de quem se desleixa porque no fim o resultado é igual para todos, ou seja, a promoção do desleixo e laxismo.

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