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0% De Insucesso Não É Sinónimo De 100% De Aprendizagem

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Falemos então de facilitismos, Sr. Costa

Comecemos, então.
Há aqui uma expressão que ouço muito no meu dia-a-dia profissional. “Não é justo”…
…pois, deixe que lhe diga que, a massa mais jovem tutelada pelo Sr. Secretário de Estado, à qual o Sr. diz que a escola só pode dar esperança através da mobilidade social, usa este vocabulário quando, por exemplo, lhes refiro que o colega A, devido a dificuldades “diagnosticadas” na alínea tantas do normativo tantos, irá “beneficiar” de uma estratégia de avaliação um pouquito diferente das dos restantes colegas. Esta diferenciação, para si quiça redutora, já vem, por si só, acentuar as assimetrias dentro da minha sala de aula. Sabe, certamente, que a sala de aula é o habitáculo privilegiado da minha profissão, em seu entender espaço onde defraudo os alunos a nível das aprendizagens. Pois, deixe que lhe diga que, qualquer aluno tem a minha total dedicação e empenho, a nível curricular e a nível dos currículos ocultos e/ou paralelos, vulgarizada pela palavra “pedagogia”, de modo a minimizar as assimetrias sociais e incutir nos jovens que, independentemente, das circunstâncias de vida que os rodeia, e acredite que há uma panóplia de variáveis, nem todas cor-de-rosa e sorridente, eles poderão ter esperança em mudar a sua vida através da bagagem que a escola lhe fornece. Os que aceitam aprender poderão, de facto, aspirar a uma mobilidade social. Tomou atenção ao verbo? Os que aceitam!…uma grande maioria não acredita que o conhecimento académico, pessoal e social lhes poderá proporcionar um futuro alternativo e de sucesso.
Não aproveite esta frase para vilipendiar, reiteradamente, a minha profissão. Estou a tentar pintar-lhe um quadro do real, do terreno, do Eight to Midnight que é a vida profissional dos professores. (Para não o afrontar muito, não incluo as horas que se passa a pensar no aluno tal, na matéria tal, na estratégia tal, no normativo tal). Portanto, não me venha discursar que estou a acentuar as assimetrias sociais… São acentuadas sim, e cada vez mais, pelas políticas assumidas pelo seu Governo em que a Escola se tranforma no receptáculo da não mobilidade social agravada na sociedade actual. Não peça milagres a uma instituição por si, e os seus, dinamitada!…pelo menos enquanto não lhe proporcionar o potencial do Santo Graal (milagres, compreende?)!
Ora aqui, Sua Excelência excede-se e esquece que um dos momentos importantes no processo de promoção do sucesso, são as reuniões de avaliação. Momento em que, todos os professores estão presentes para analisar, debater e propor alternativas a problemas identificados. Ah, pois!…esqueci-me! Essas reuniões já não existem. O Senhor fez questão, num acto de tentativa de domesticação do professorado, retirar a este momento a sua essência, transformando-o num mero acto administrativo e estatístico. Por isso, não me venha cá com tretas de a “avaliação (dos meus alunos) foi defraudada e que não aprenderam”. A culpa é sua! Antes de agir, tem de ser ponderar as consequências. Se eu sei isso, se é isso que tento incutir aos meus pupilos, o Senhor, enquanto representante do bem-estar educacional, já o devia ter aprendido…ou então algo na sua aprendizagem falhou, sendo lamentavelmente defraudado.
Haja paciência! Para os alunos aprenderem, os professores têm de ensinar. Quer o Senhor afirmar que gerações e gerações não foram ensinadas, incluindo Vossa Excelência? Que gerações de professores estiveram 365 dias de férias, a receber chorudas compensações, entre elas monetárias, por serviços mínimos prestados? Que 100% dos alunos tiveram a ambição de investir na sua formação?…Um dia o Senhor vai acordar e, eventualmente poderá ter o seu 0% de insucesso. Mas lhe garanto que não será sinónimo de 100% de aprendizagem. Logisticamente não é possível. Porquê? Porque todos são diferentes e, penso eu de que, ainda temos direito à diferença.
Agora, se me permite, saltei todo o parágrafo de elogiosas medidas normativas que, segundo o seu ponto de vista, são o Santo Graal.
Há uma dicotomia por si usada que me parece bastante simplista: fácil&difícil. Parecem vocábulos inócuos…mas é neles que reside a complexidade de toda uma vida escolar. Não é fácil garantir aprendizagens (para si sucesso) num contraditório legislativo, uma espécie de “sim-não” que espera dos professores uma resposta humano-robótica. É pura demagogia! Quer que aprendam…mas temos a avaliação externa que penaliza o insucesso; temos exames que, até à data, não me parecem estar coordenados com o que é pedido ao longo do percurso escolar do aluno; temos burocracia q.b., perdendo-se tempo que, de forma mais útil, poderia ser canalizada para as aprendizagens, com construções de amostragens puramente estatísticas. A tal estatística que veemente condena.
Alcançar aprendizagens E apresentar estatísticas?! Isso é que é difícil!
Muito mais poderia rebater…mas…
…termino, que a madrugada chegou e tenho de ir trabalhar, concordando com a única frase do seu discurso, apesar de lhe reconhecer alguma ambiguidade, “a escola sozinha não resolve, mas [que] sem escola nada se resolve”.
Helena Goulão

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