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Xeque-mate!

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Com a publicação da lista de recenseamento para a progressão docente em cada escola, é impossível ficar indiferente ao tratamento desigual feito em casos semelhantes; sinto, em muitos docentes, as sementes de revolta a germinar, a raiva contida, a desmoralização profunda, e com toda a legitimidade. A partir de 2005, a classe docente foi acumulando derrota atrás de derrota, num autêntico holocausto profissional, onde nem os escombros foram poupados. É como se vivesse num campo de concentração, onde vai vegetando bovinamente, à espera da seleção aleatória de cada cabeça para ser enviada para a câmara de execução, e onde existem os kapos (Funktionshäftling) que zelosamente ajudam a manter o sistema, esperando com isso a devida compensação. O horror é que não se vislumbra nenhum exército de libertação no horizonte para manter uma esperança…
Ver numa lista, docentes com 25 anos de carreira, ‘estacionados’ no 3º escalão, com quase 50 anos de idade, e estar registado que a data PROVÁVEL de progressão é em 2022 para o 5º escalão(!), depois de terem estado congelados mais de 8 anos, e que iniciaram a carreira profissional, na década de 90, no 3º escalão(!),É EXECRÁVEL! Ou ver docentes do mesmo grupo de recrutamento com uma diferença de 5 anos de idade, estarem separados por 2 escalões entre eles…É EXECRÁVEL!
No mínimo, o ME se fosse liderado por pessoas com sentido de justiça e humanidade, estabelecia que a progressão, quando ocorresse, seria para o escalão correspondente ao número de anos de serviço e não para o escalão sobrejacente, o que no caso concreto, em vez de subirem para o 5º, subiriam para o 7º escalão, sem se sujeitarem a vagas; isto ainda era suportável, depois de todas as perdas irrevogáveis anteriores.
Esta ignomínia vai inevitavelmente ter consequências, tal como aconteceu em 2008: 10 anos depois, foi reeditada a estratégia de ‘dividir para reinar’, que na época foi com a criação de categorias (prof.titular/’prof.zeco’) e atualmente com a discriminação na progressão remuneratória (que ainda é mais contundente…). E com a agravante de ter a complacência implícita dos partidos de esquerda, que jamais ficariam impávidos se fosse uma PaF a fazê-lo…
Com este modelo de carreira remuneratória a tensão profissional sempre existiu, só que era apaziguada pela perspetiva de que todos iriam percorrer o mesmo caminho; os que estavam em ‘baixo’ tinham a perspetiva de serem os que estariam depois em ‘cima’. Além disso, existia compensação através da redução da componente letiva para quem, além da lecionação de turmas, exercia outras tarefas (coordenação pedagógica, apoio pedagógico, clubes/projetos). Com o assassinato dessa perspetiva, essa tensão vai levar a uma erupção de conflitualidade, porque tornou-se intolerável diferenças tão grandes entre profissionais com o mesmo conteúdo funcional. Com este panorama, só um buda ou um cristo, no seu incomensurável estoicismo é que ficaria imperturbável…
As sucessivas mudanças legislativas, com as respetivas normas transitórias, levaram a esta infâmia, que é compreensível que revolte quem dela é vitima. Porque os que felizmente não são vítimas, se o fossem, teriam exatamente a mesma revolta…!
Agora, muitos compreenderão porque os Trump e outros fundamentalistas vencem eleições, porque esta enorme frustração, raiva e revolta, só dá vontade de ‘partir’ o sistema vigente.
Ainda com sentido de pudor, que impede a utilização do vernáculo mais escabroso que existe na língua portuguesa, só resta exclamar: isto é asqueroso e abjeto!!
Mário Silva
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2 COMENTÁRIOS

  1. Li o texto mas, provavelmente por culpa minha, não vislumbrei o “tratamento desigual feito em casos semelhantes”.
    De que se trata?

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