Início Editorial Votar a nota de um colega professor é algo terrível

Votar a nota de um colega professor é algo terrível

1622
4
COMPARTILHE

O conselho de turma é soberano, verdade, mas no conselho de turma só existe 1 professor de Português, 1 professor de Matemática, 1 professor de Educação Física, etc… São estes professores que lidam com o aluno ao longo de um ano e conhecem como ninguém as suas virtudes e defeitos na sua disciplina.

Virtudes e defeitos que muitas vezes são intransmissíveis e por isso dificultam um juízo correto de quem está de fora, de quem leciona as restantes disciplinas. É que quem está de fora, vê o aluno com os óculos da sua disciplina, pois também ele trabalhou um ano inteiro com o respetivo aluno, mas não é a sua classificação que está em causa, é a de outra disciplina, de outra sala de aula, onde nem sequer esteve presente.

É por isso de extrema dificuldade, votar uma classificação atribuída por um colega, que convém sempre lembrar é especialista na sua área. Votar uma nota implica um esmiuçar das diferentes ponderações plasmadas nas grelhas “xpto” que os professores agora utilizam. É chato, é desagradável, fica-se com o sentimento que não é o aluno que está a ser julgado, mas sim o professor. Mas indiretamente é isso que está a acontecer, o professor está a ser julgado pelos seus pares, e todos sabemos como os professores são sensíveis em partilhar a sua sala, as suas metodologias, as suas avaliações…

É por isso natural assistir a reações “quentes” por parte dos visados, reações claramente defensivas, como se os colegas estivessem a criticar o seu trabalho, quando na realidade só o pretendem conhecer melhor, para assim diminuir o risco de errarem.

Pior ainda quando se trata de colegas de sala de professores que se tornaram amigos, ou amigos mais afastados digamos assim. Existe uma “bagagem” que se vai acumulando ao longo dos anos, boa ou má, e essa bagagem tem tendência a ganhar volume e pode até ofuscar a visibilidade dos votantes…

Eu não mudo notas de colegas!

Esta era a minha postura em início de carreira, mas depois de assistir a certos episódios, comecei a ponderar primeiro e a decidir depois. Cada aluno é um aluno, mas também é verdade que os professores não são todos iguais, uns são mais radicais, outros são mais amiguinhos, e todos têm as suas ideologias e opiniões sobre o ensino e reforma em vigor.

Além disso, um 1,9 não é igual a um 2,4 (ensino básico) e um 6,5 não é igual a um 7,4 ou um 8,5 não é igual a um 9,4…

Porém, tenho por principio acreditar nos professores, se lhes reconheço competência e capacidade, tenho obrigatoriamente de confiar no seu juízo. Devemos acima de tudo colocar em cima da mesa as vantagens e desvantagens de uma alteração de nota, e se o colega está consciente das mesmas, quem sou eu para questionar o seu trabalho ou o seu juízo?

O mesmo deve aplicar-se a quem manda, e quem manda está ainda mais longe pois nem sequer lida com os alunos nas suas aulas. Quem manda deve agir consoante um principio elementar, ou confia nos seus professores/conselhos de turma ou não confia. Deve sensibilizar os seus professores para o que diz a lei, para a política de ciclo em vigor, para a retenção com caráter excecional, mas se depois de tudo isso, o professor/conselho de turma acredita que é melhor para o aluno ficar retido, pois falta maturidade, precisa de tempo para assimilar e consolidar os conteúdos, não sentirá a falta do grupo, etc, não deve também quem manda acreditar que a decisão tomada foi uma decisão ponderada e por isso a mais correta?

Uma coisa é certa, cada caso é um caso e por isso a santidade do conselho de turma não deve ser violada, nem desvalorizada, tal como foi nos recentes serviços mínimos impostos pelo Tribunal Arbitral.

Alexandre Henriques

COMPARTILHE

4 COMENTÁRIOS

  1. Já não me lembro de assistir a uma discussão de notas baseada na forma como foram aplicados os critérios de avaliação.
    O que ocorria com alguma frequência lá para os meus lados eram aqueles casos-limite em que subindo uma das negativas o aluno já não reprova.
    É revelador da hipocrisia de um sistema avaliativo exigente em instrumentos, parâmetros, critérios, pesos, ponderações, tudo cozinhado nas famosas e infalíveis grelhas excel, destinado a produzir notas justas e rigorosas para todos. No final, se não dá o que nós queremos – que aquele aluno passe de ano – então descartamo-nos daquilo tudo e aplicamos um critério completamente diferente para alterar a nota do aluno.

    Como diria o outro Marx, estes são os meus critérios. Mas, se não gostam – tenho outros!…

    • Nunca encarei as grelhas como algo decisivo, as grelhas devem ser uma ferramenta que ajuda o professor a atribuir a sua classificação

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here