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Vamos bater nos professores? Bora lá, DN e Expresso…. E não se pode boicotar “fake news” à portuguesa?

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Quando uma pastelaria me vendeu há dias um bolo que estava duro avisei-os que, por muito tempo, nunca mais lá compraria nada e recomendaria aos meus amigos que fizessem o mesmo. O dono da pastelaria desculpou-se e compensou-me do problema. Mesmo sendo as minhas compras marginais para o seu volume de negócios, percebeu como era mau para si ter um cliente insatisfeito, a falar disso.

Diz o DN, com o Expresso a ir atrás, na linha preguiçosa que às vezes segue: centenas de professores estão a faltar esta semana por causa da campanha autárquica. Coisa grave. Parangonas de 1ª página.

O DN, talvez para arrochar mais um pouco a uma classe em que gosta bastante de bater, decidiu fazer a notícia em tom de bullying verbal, alimentada pelas declarações de alguns senhores diretores sobre os dramas do exercício deste direito. Um deles diz mesmo que acha “horrível” o que se está a passar. Falando de eleições, também teria outras coisas horríveis para comentar no que se refere à forma como os próprios diretores são eleitos. Mas isso agora não interessa nada…

Um leitor sozinho não boicota jornais….

A consciência de um grupo talvez.

As notícias não são um produto de consumo como os outros. Pago um jornal, mas como milhares de outras pessoas o fazem, o facto de não comprar o Correio da Manhã não afeta a sua viabilidade, porque há milhares a lê-lo. No caso do DN, os milhares não são tantos (vejam-se as tiragens). No caso do Expresso, também há problemas no grupo que produz o jornal mas a solidez é maior. Porque a credibilidade dos órgãos os vai mantendo. Manipular, que é uma forma torcida de mentir afeta o produto. É como vender um carro ecológico que deita muito fumo….

A opinião dos leitores até pode manifestar-se na adesão comercial ao produto. Em Viana do Castelo, onde moro, lê-se pouco o DN. Quando, no sítio onde compro, não há Público, compro o DN em papel (sou um fóssil que ainda lê jornais em papel). Contribuo, assim, para menos uma devolução nesse dia. Nos próximos meses, quando o vício de ler o jornal em papel apertar, não vai ser o DN a alternativa ao meu jornal diário. Estava a pensar assinar o Expresso diário online. Não o vou fazer. Não pago rendas a quem me insulta.

E se em Educação são assim manipulativos o que não serão no resto?

Estas decisões individuais de consumidor resultam de que o que percebi nas notícias de hoje foi ter “comido” um bolo estragado.

Não quero promover a minha decisão individual a exemplo para ninguém, mas explico-o, como face do que poderíamos fazer para evitar as campanhas cíclicas de desinformação e manipulação de notícias sobre os professores, que resultam na degradação da nossa imagem como profissão (em especial, mais ativas nas alturas em que parece que vamos reivindicar mais direitos ou salário).

O gato escondido com a manipulação à mostra:

…só os professores são candidatos com dispensa?

A notícia da 1ª página do DN até parece factual.

Mas só os professores são candidatos a 1 de Outubro e só a sua participação eleitoral perturba?

Também seria factual eu dizer que muitas consultas de enfermagem estão a deixar de ser feitas por causa das eleições (quantas, o DN não pesquisou); que o mesmo para as de medicina (também não diz); que muitas cartas deixarão de ser entregues por causa das eleições, porque há muitos carteiros candidatos (não sabemos quantos, porque o DN não diz nem quis saber); que muitos restaurantes vão ter problemas com o atendimento a clientes por haver muitos jantares e almoços de campanha, ou talvez também haja candidatos empregados de mesa e que, na minha rua, há muito barulho por causa das eleições e dos carros de campanha. Ou que as tipografias vão atrasar serviços porque andam a fazer cartazes. Ou que nas feiras e mercados se vai andar mas devagar a comprar a hortaliça porque vai haver engarrafamentos de candidatos.

Também seria factual dizer que, no dia 2 de Outubro, a seguir às eleições, muito trabalho, em muitos setores, vai ficar por fazer porque os membros da mesa de voto têm direito a um dia de dispensa, depois de cumprirem o seu dever cívico de participar na organização do processo eleitoral. Depois de um dia inteiro, das 7 às 22 ou mais (em muitos casos), não deviam ter direito a um dia de dispensa por trabalharem ao serviço da Democracia a um domingo? (e mesmo sendo pagos pelo dia eleitoral)

Chatos todos estes transtornos. Talvez, mas experimentem a ditadura e vão ver o que é chato.

O que diz a lei…. e  a vergonha lançada pelo DN a quem a usa

Quem for ler a lei, ou as explicações da CNE sobre a aplicação da lei eleitoral, fica esclarecido: qualquer candidato às eleições de 1 de Outubro tem direito à dispensa do exercício das respetivas funções, sejam públicas ou privadas, durante o período da campanha eleitoral, que se inicia no 9.º dia anterior e termina às 24 horas da antevéspera do dia da eleição. Além dos candidatos efetivos, só têm esse direito os candidatos suplentes no mínimo legal exigível (isto é, em número não inferior a um terço dos candidatos efetivos, arredondado por excesso). Os candidatos têm direito à dispensa do trabalho para fazer campanha eleitoral independentemente da entidade para a qual trabalhem ou do regime de trabalho aplicável. A dispensa do trabalho para fazer campanha eleitoral não pode ser recusada pela entidade patronal, não implica marcação de faltas injustificadas, nem desconto na retribuição ou penalização de quaisquer regalias a que tenha direito.

Não são só os professores. Mas esta malandragem em que me incluo (dos professores, não dos candidatos) não perde uma oportunidade de se baldar e pimba…. candidatam-se para ter dispensa.

Como o seu patrão é desorganizado e nunca houve, que se saiba, nos anteriores 43 anos de Democracia professores candidatos a eleições (?!), não cuidou de arranjar substitutos, mas a culpa é dos professores.

O primeiro-ministro vai estar uma semana na estrada (e quem nos governará?) e os deputados vão reunir menos na Assembleia, mas isso é natural. Os professores é que deviam ser uns capados cívicos porque, como ninguém (isto é, o governo) previu que usassem os seus direitos, vai haver problemas.

O DN transforma o ato nobre de participar na vida política (mesmo como suplente, porque não pode chegar a haver listas se não houver efetivos e suplentes, porque há mínimos para fazer listas). E cria uma camuflagem para outras intenções criando uma coisa vil, demagógica e baixa de preguiçosos e baldas.

Mas a dispensa é de lei, como é lei (e achei curioso ninguém referir o detalhe quando foi da recente e absurda discussão da proibição dos futebois em dia eleitoral) que, no dia de eleições, a caça seja proibida.

Nas ilustradas caixas de comentários dos ditos jornais lá aparecem as bocas às “largas” férias dos professores ou aos “lautos” salários dos professores, algumas delas carregadinhas da frustação e inveja social de quem mostra, na forma como escreve, a falta que os professores ainda hoje lhe fariam. Grupo profissional cujo fim é combater e destruir a ignorância é natural que seja visado pelos ignorantes.

O jornalista Sousa Tavares (não, não é aquele que estão a pensar) alimentou essa ignorância, ao fiar-se no que parece ser spin de diretores ou, quem sabe, do Governo. Como as substituições não são permitidas pelo Ministério da Educação para o período da campanha, nos casos em que não haja gente disponível para as fazer, os miúdos ficam mesmo sem aulas.

Mas, a culpa é dos candidatos? Ou do governo, que não previu essa possibilidade?

Aliás, não será que (pelo menos, se não a criou por via de um qualquer assessor) o Governo até acha bem mais esta espetadela na imagem dos professores, gerada pela má compreensão pública de uma notícia que parece factual (mas que manipula o contexto e não refere e torce factos paralelos)?

Por exemplo, será que não ouviremos dizer: “pois querem carreira justa, mas baldam-se na altura das eleições?” (A pergunta é retórica: já ouvimos isso de outras formas).

Seja como for, se a resposta aparecer no DN ou no Expresso, nos próximos tempos, não vou pagar para a ler. E não me vai pesar a consciência de prejudicar o jornal e a liberdade de imprensa. Já que recorrer a ERC é impossível e a autoregulação dos jornalistas é ficção de fadas, faço a minha própria regulação….

PS: Depois de escrever este texto verifiquei que algumas televisões deram eco acrítico à 1ª página do DN. Não posso puni-las como consumidor da mesma forma. Mas o meu sindicato (a quem pago 17 euros mês) não podia fazer nada e usar o espaço público para defender os direitos políticos dos professores assim achincalhados?

3 COMENTÁRIOS

  1. Caro Luís Braga,
    lamento que tenha ficado desiludido pelo facto de, numa notícia de Educação, escrita por um jornalista da área, não serem feitas referências a carteiros, empregados de balcão e enfermeiros. Fica a nota, para transmitir à minha colega que acompanha a área da saúde: da próxima vez que, alertada para situações concretas, escrever o quer que seja relacionado com os profissionais da saúde, tem de verificar a situação correspondente em todos os outros grupos profissionais, sob pena de estar a produzir “fake news” ainda que baseadas em “factos”.
    Irei ainda informá-la de que, perante tal “desinformação” sobre uma classe profissional, corre o risco de ver alguém – num espaço público e com base em teorias da conspiração várias – vir acusá-la de todo o tipo de malfeitorias e intenções obscuras, culminando num apelo ao boicote do seu trabalho.
    Não me vou dar ao trabalho de comentar a desonestidade intelectual com que me acusa de desonestidade intelectual. Só lamento que, no extenso e absurdo relambório que para aqui escreve, releve tão escasso conhecimento do conteúdo do artigo que cita. É que em momento algum no mesmo é posto em causa o direito dos professores a participarem activamente na política. De resto, desafio-o a encontrar no mesmo qualquer juízo de valor sobre essa opção.
    O que é dito por quem de direito- a barbárie! – é que estes professores e não docentes estão a fazer falta às escolas, que o timming eleitoral prejudica o funcionamento das mesmas e que a possibilidade de substituição temporária destes profissionais deveria ser equacionada, dada a importância que têm, particularmente nesta altura do ano.
    Tudo factos. Mas aparentemente – é essa a síntese do seu ensaio – escrever sobre factos só pode servir para “bater” e fazer “bullying verbal”. O que dizer de artigo de opinião em sites de professores, então?

    Cumprimentos

  2. Há uns anos um tasqueiro que me vendeu um bife duro teve uma reação destemperada (e bem mais ofensiva) do género quando pedi o livro de reclamações. O meu relambório, pelos vistos, foi lido com atenção e produziu o efeito pretendido: pensou no que fez. Pode não ter vontade de se corrigir ou achar que não precisa (a opinião, mesmo absurda é livre), mas espero que a reflexão sirva para alguma coisa. Um jornalista de educação deve ver o mundo para lá do rincão e às tantas não ficar tão cheio de si quando um leitor (da área lhe mostra o absurdo do que fez). E se acha que a notícia é sobre educação, eu acho que é sobre eleições antes de ser sobre educação. Ou que é uma oportuna notícia de eleições com impacto na educação e num certo ângulo sobre os professores. E é ou não verdade não é só na educação que o problema se colocou? Por isso o texto é “fake” porque esconde a realidade toda na capa de uma história oportuna. E nem sei se o problema é ângulo ou agendamento mas não vou perder tempo a perceber. Um especialista em educação devia contudo, saber melhor o que é bullying (verbal ou do outro).

  3. Caro Luís Braga,
    Se a sua reacção ao bife foi remotamente semelhante à que teve ao artigo, sou levado a concluir que, no mínimo, em altos berros, acusou o tasqueiro de tentativa de envenenamento e ameaçou chamar a ASAE para fechar o seu estabelecimento só porque gosta da carne mais mal passada. Registo a auto-crítica que faz no final do seu comentário. Nem tudo está perdido. Cumprimentos.

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