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Vá para fora cá dentro!

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Ando nisto há vinte anos. Escolhi esta profissão, não a abracei por falta de outra opção. Pertenço ao quadro há mais de dez anos. Destes vinte, consegui ficar perto de casa por 5 vezes, e quando digo perto, é num raio de 50 quilómetros. Nos anos em que não fiquei perto, fiquei sempre a mais de 170. No início, até era giro: conhecer outros sítios, outras pessoas, viver noutros lugares, tinha piada. Neste momento, cansei-me de ser nómada. Cansei-me de andar a pagar casas longe da minha, cansei-me de contribuir para a economia com as minhas (longas) viagens de fim-de-semana, com os milhares de litros de combustível que abasteço, com as revisões ao carro que se sucedem, com o cansaço acumulado de anos e anos em viagem, cansei-me de ver sair a colocação e partir quase imediatamente à procura de casa, que tem que ser encontrada num prazo máximo de 24 horas, porque não dá para voltar para casa e regressar no dia a seguir… Isto para não falar de quando ficamos em escolas que nos “obrigam” a dar aulas em mais do que um estabelecimento, indiferentes ao facto de termos ou não carro ou querermos usá-lo no serviço público. Sim, porque o meu carro é um bem particular, não foi comprado para usar entre escolas. Sinto que ando sempre a fazer e desfazer malas. E depois querem professores motivados…

Depois de todos estes anos longe da família, cada concurso é mais uma desilusão. Cada vez fico mais longe, a centenas de quilómetros, e ainda ouço as pessoas a darem-me os parabéns e a dizer: “Olha, pelo menos tens colocação!” (Acho que é o mínimo que se exige a quem é do quadro) Ou então aquele comentário entusiasmado: “Ficaste em Évora? Que espetáculo! Tens lá o templo de Diana!” E a maior pérola que já me contaram foi: “Vocês, professores, têm uma sorte… correm o país à pala do estado!”

Desta vez estava mesmo com um feeling que ia ficar perto. Dizem que quando se acredita a sério nas coisas, elas acontecem. E eu acreditei. Acreditei mesmo, até àquela tarde de 25 de agosto: colocação a 250 quilómetros… avancei 30 quilómetros em relação à escola anterior. Foi uma deceção, um balde de água fria, mas pensei: “Era onde havia vagas…”

Mas afinal havia outras vagas, muitas vagas, onde foram colocadas pessoas que estavam cento e tal lugares atrás de mim na lista: a 30 quilómetros, o que me permitia ir e vir; a 90, que talvez não permitisse, mas era infinitamente menos do que o que agora tenho que fazer. Aí foram colocadas 4 pessoas – todas atrás de mim. E mais pessoas que foram colocadas mais longe, mas a uma distância que mesmo assim era 100 quilómetros inferior àquela a que estou. Todos em escolas para as quais concorri. Senti-me como se estivessem a oferecer empregos de topo numa grande cadeia de hotéis. Os que foram para a fila primeiro, entusiasmados com a perspetiva de arranjar um bom lugar, viram-se confrontados com o facto de que só havia vagas para porteiro. E aceitaram, porque não havia mais nada. Os que vieram à tarde descobriram que afinal havia vagas para gerente (sem desprimor para qualquer das profissões mencionadas).

E dizem que há justiça?? Falta só a cereja no topo do bolo: eu, que em vinte anos tive dia sem componente letiva umas quatro ou cinco vezes, desta vez calhou-me. Quando? À quarta-feira, sendo que entro ao primeiro tempo de 2ª feira e saio ao último tempo de 6ª feira. O ideal para quem está deslocado.

Viajante

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