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É urgente cuidar dos professores.

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Médico-com-estetoscópio

Estou sinceramente preocupado com os professores em Portugal. Não é apenas um mero artigo para chamar atenção ou para gerar simpatias. Estou genuinamente preocupado.

Considero os professores uma das profissões mais importantes de um país, estes desempenham uma função estrutural na sociedade e que pode alterar a médio longo prazo todo o tecido social. É público e sabido que o função docente é das mais desgastantes e o famoso síndrome de burnout está frequentemente associado aos professores.

Desde que criei o ComRegras, tenho denotado uma clara simpatia por estes sobre assuntos relacionados com o seu desgaste e situação profissional e um distanciamento por assuntos pedagógicos e formativos do seu saber. Não é por acaso. As pessoas têm tendência a ler artigos com os quais se identificam, procurando um escape para a pressão que se acumula, dia após dia.

É visível a aversão a momentos de participação conjunta no debate educativo, na discussão de tarefas que ultrapassam o âmbito da sala de aula. Há sempre quem o faça, é verdade, mas não é a maioria. Ao falar com colegas mais velhos, é notória uma profunda desilusão, um cansaço extremo de tudo o que envolva a docência, um aguardar por uma retirada digna que faça justiça a décadas de dedicação e empenho. Contam-me que no passado existia um altruísmo genuíno pela causa pública, pela escola pública, existia uma cumplicidade e solidariedade entre pares que era imune a tudo e a todos, pais, alunos e direções. Cada escola terá naturalmente a sua própria cultura, mas vejo isso, sinto isso…

Anda muita gente zangada, irritada, revoltada, triste, frustrada, sem paciência, envolvida em mesquinhices internas, discutindo por tudo e por nada, pondo em causa pais, alunos, colegas, funcionários, direções, reuniões, procedimentos e afins, tudo é motivo de queixume. O negativismo é diário e queima o tecido social docente, a impaciência para com o outro, para ouvir, para aceitar uma opinião é reveladora que muros foram levantados e armas foram carregadas. As salas de professores e conselhos de turma transformam-se muitas vezes em guerras fúteis, estéreis, desprovidas de qualquer sentido, só equiparadas às avalanches de desabafos de pessoas que precisam de ser ouvidas, compreendidas, apoiadas e orientadas…

O professor está doente e os seus sintomas apesar de conhecidos são sistematicamente ignorados pela sociedade em geral e tutela em particular. Temo por eles, temo pelas crianças e já agora temo por mim…

A indisciplina, a carga burocrática, as constantes reformas e mudanças legislativas, a falta de estabilidade, as constantes politiquices e principalmente o congelamento dos salários e respetiva perda de poder de compra, tornaram os professores, trabalhadores sem paixão, sem chama e sem vontade em dar aquele extra que podia fazer a diferença. Provavelmente os que estão a ler isto, ainda pertencem ao grupo dos que se interessam, procuram, leem, ouvem e debatem educação, mas muitos só querem chegar a casa e deixar a escola na escola. (e quem é que os pode censurar???)

Vejo os professores nos limites, ligados à máquina, suspirando sempre que saem da sala dos professores e se encaminham para a guerra aula.

Mas quanto mais os vejo de braços caídos, mais surpreendido fico com a sua transformação quando colocam o pé dentro da sala. A resiliência faz parte da genética docente e é realmente contraditória ao que ouvimos e lemos todos os dias. Não tenho dúvidas em afirmar, que o seu desempenho seria exponencialmente superior, se a essa resiliência se juntasse também uma motivação gerada de fora para dentro.

A escola pública precisa de ser otimizada ao século XXI, mas a contaminação do espírito docente é sem dúvida um entrave muito grande a essa mudança. Poucos são os que se interessam por debates, por apresentar propostas, discuti-las, testá-las, ou mesmo aplicá-las. A vontade para trabalhar restringe-se à sua sala e mesmo assim é uma afirmação corajosa a que estou a fazer.

Não é uma crítica colegas, é uma constatação sincera de quem vê tantos espíritos quebrados pelo cansaço.

Preocupa-me o que temos pela frente, preocupa-me o que temos presente e preocupa-me o que temos ausente…

Ânimo amigos 😉

Deixo-vos com um artigo que encaixa aqui muito bem.

Eu não quero os melhores professores, quero os mais felizes

E pedagogicamente? Os que passam o seu tempo a procurar e a otimizar recursos e estratégias, mesmo depois das aulas ou os que apenas seguem as orientações curriculares e os programas já definidos? Os que atribuem às suas próprias práticas o sucesso ou insucesso dos alunos ou os que acreditam que já fazem o suficiente? Os que se importam ou os outros?

Atacados muitas vezes pelos próprios pares, os bons professores destacam-se contrariando a inércia pedagógica que por aí impera. Espicaçavam consciências, levam os alunos e as famílias a envolverem-se. Estragam a média. Como é possível que só naquela disciplina os alunos não faltem, os pais participem, os alunos com Necessidades Educativas Especiais (NEE) evoluam. São uma aberração! Uns . Há que os combater.

Ainda assim, dita-me a carolice que continue a acreditar que ser feliz na docência é vive-la com paixão e determinação, o que por si só transforma os professores, nos melhores professores e estes nos mais felizes.

18 COMENTÁRIOS

  1. Fui professora.Estou aposentada.Sigo com muito entusiasmo,tudo que à classe diz respeito.Tenho 4 filhos,todos no ensino e com muita angústia ouço dizê-los “Mãe, já nada é como no tempo da Mãe. Já não se fazem amigos nas escolas”.Isto causa-me muita tristeza,pois passados alguns anos, ainda é com satisfação mútua que nos reencontramos(quer colegas quer ex-alunos).Muitos motivos foram causa da desmotivação, desde logo Ministério, sociedade e particularmente a não educação mínima com que deveriam aterrar nas escolas mas de que famílias,por desestruturação ou quase ausência de casa não educaram nem acompanharam.O debate é urgente e a necessitar de conjugação de muitos esforços ma

  2. Estou, em absoluto, de acordo com o que está escrito. É, fundamentalmente, necessário que os PROFESSORES, ganhem a felicidade, que já tiveram, em dar AULAS. Tenho conceitos próprios a este respeito e nunca abdicarei deles. Não entendo como é que, hoje, os alunos tratam os professores. Temos que ter coragem para exercer todos os cargos dentro da Escola. Os Ministérios que trabalhem, que deem os meios necessários e entreguem a Escola aos Professores. Se eu estivesse como DIRETOR, afianço que nunca consentiria que os alunos ou encarregados de educação tratassem tão mal os PROFESSORES. ALI quem mandava era eu e, se o governo me chamasse à atenção, dir-lhe-ia, apena, que estava a zelar pela Escola e quem mandava era eu. Ponto final. Há muita coisa a mudar para que o ensino seja uma profissão aliciante.

    DUARTE PEREIRA (Ex Professor e Diretor do Colégio de Pina Manique

    • Concordo em absoluto. Já estive numa equipa de direção entre 2003 e 2005 e não foi fácil conseguir que pelo uma grande parte dos EE participasse na vida da escola de forma positiva… As ideias fluíam e foram organizados cursos para pais (é verdade, cursos para pais que nem sabiam que os filhos precisam dormir cedo para fazerem o seu descanso).
      Foram feitas duas turmas de curso quando nem uma pensávamos ter…
      Fomos mais teimosos que os maus hábitos e conseguimos que os alunos gostassem da sua escola… os riscos e os grafitis foram acabando… tudo foi acalmando. Mas só com o verdadeiro espírito de corpo.
      Os ministros têm-se sucedido sem a mínima noção do valor que tem para a sociedade um investimento sério e bem estruturado da educação… Tudo é visto como despesa na escola (isso não tem cabimento… não pode ser porque não nos deram dinheiro… entre muitas outras).
      A economia de um país só cresce com motivação e com um investimento estruturado e sério…
      Este último ministro anda muito pouco presente numa falsa ideia de bom estado das coisas… Enfim! Triste mas persistente!!! Não desisto, pois amo ser professor!
      Bem haja pelas suas palavras professor António D. Pereira.
      Cumprimento-o esperançado

    • Ah! Assim está bem, gostei! Este é à minha maneira!. Zelando pela escola pode dizer é bem ” aqui quem manda sou eu” PARABEN

  3. A última parte do artigo fez-me lembrar aquela tirada do Catarino Martins quando disse que preferia ser tratada por um cirurgião que tivesse sido feliz do que por um bom profissional. Perigoso …

  4. Estou plenamente de acordo e revejo-me em muitas das frases escritas.
    Sou professora do 1º ciclo, com vinte e sete anos de serviço praticamente completos… Quando iniciei a minha profissão foi uma escolha pensada e repensada. Um desejo alcançado, um sonho realizado…Adorava a minha profissão… ainda gosto dela mas a motivação já não é a mesma. A burocracia e as justificações que arranjam para algumas situações não lembram a ninguém… A educação anda um caos. Não se avaliam as mudanças que se fazem, não se pondera nada, mudam-se programas/metas/etc porque querem mudar… cada um que passa quer deixar um marco. Infelizente nem sempre bom. Não é que os nossos alunos sejam piores que os de outros países, os outros, simplesmente, têm mais estabilidade, algo que está faltando muito no nosso sistema educativo. Todos os anos há alterações. Prepara-se o ano letivo seguinte em julho, vêm as alterações no início de setembro e grande parte do trabalho realizado em julho vai para o lixo… Começa a correria de novo em setembro e faz-se tudo de novo. Mais um iluminado que chega com novas propostas de alteração e mudam-se muitas vezes formas de avaliação a meio do ano letivo. Onde é que se vê disto???!!! E para resolver os problemas criados com todas estas mudanças e alterações, pedem aos professores soluções, estratégias diversificadas, etc, etc,.. no fundo, que se reinventem e tenham formas mágicas para resolver as “mazelas” (para não dizer outra coisa pior) que criaram com as suas “leizinhas”. Talvez seja por isso que os professores se sentem desmotivados e tristes com tudo o que se passa à sua volta. Sentem-se caluniados e achincalhados no seu trabalho, quando muitas vezes nem têm condições dignas de trabalho.
    Quando saio de uma reunião, de noite, depois de ter começado a dar aulas às 9h da manhã até às 16h.15, começar reunião às 17h até praticamente às 22h, pergunto-me imensas vezes “que mal fiz eu a Deus para merecer uns castigo destes?”
    O desejo de qualquer professor, que goste do que faz, e que apesar de tudo, vai no outro dia para o trabalho com um sorriso na cara, embora cansado, só quer que o deixem dar aulas porque foi para isso que tirou um curso, não foi para preencher papéis e estar horas infinitas em salas de reuniões. Querem sucesso? Conquistem-no, deixem-se de medidas da treta e peçam opinião a quem está no terreno, a lidar no dia a dia com os alunos e façam programas para alunos normais, e não para estrelas, porque as estrelas estão no céu. Façam programas para alunos médios e aí, os que são bons destacam-se. Hoje o que deixámos de ter foi o grupo dos alunos médios, agora só temos alunos bons e alunos com dificuldades…Que pena!!!
    Para terminar, só quero fazer um pedido especial a todos os pais em primeiro lugar e depois às tutelas que definem os programas: aos pais que deixem os seus filhos ser crianças e não homens em miniatura, deixem-nos brincar e dediquem-lhes algum tempo para brincarem todos juntos e assim teremos crianças felizes; quando os professores tiverem na escola crianças felizes, estes também vão ser felizes porque os alunos não sentem necessidade de chamar a atenção de ninguém a fazer tolices; à tutela que faça programas adequados ao desenvolvimento cognitivo das crianças de cada faixa etária, só assim haverá sucesso e gente feliz na escola…

  5. Subscrevo.
    Há trabalhos deveras humilhantes para qualquer professor e não é só a papeladas e justificações e reinvenções atrás de reinvenções de estratégias porque os alunos não reagem a nada… e telefonemas e cartas sucessivas de diretor de turma.. e estatísticas mais estatísticas a respeitar e a fazer e a subir e a justificar por que é que não subiu e por que é que desceu e que estratégias implementar para recuperar… e as participações disciplinares, e aquelas que não se deveriam ter feito porque se deveria ter resolvido o problema na sala de aula, porque não se querem participações disciplinares, claro que o menino se portou mal, não devia, mas o dever do professor é evitar (até parece que a é do professor que devia ter-se antecipado, como se pudesse prever as reações imprevisíveis de cada alunos em todas as turmas todos os dias, quiçá porque teve um problema no intervalo ou lá em casa ou simplesmente porque dormiu mal?!)…
    Lembro ainda o trabalho ingrato com a maioria dos alunos dos antigos CEF’s e profissionais e dos seus equivalentes de hoje.
    Trata-se de questões mal pensadas: querem segurar todos os meninos na escola. Bem entendo e concordo plenamente. Nem todos podem ser doutores e a sociedade precisa de quadros intermédios devidamente formados e preparados para o mercado de trabalho.
    Mas justamente por isso, e para garantir o seu sucesso e a sua colocação num emprego, há que manter um certo rigor na disciplina e na avaliação e não pressionar os docentes a passar os alunos só porque se quer manter os cursos, ou porque se quer trabalhar para rankings.
    Assim, eles sentem que podem tudo e entram na sala como vandalos, sem qualquer tipo de materiais, recusam adquirir os manuais adotados quando estes existem ou as obras em estudo, nem que sejam requisitadas na bibliotecas, quando se refere a português, nem sequer olham para a projeção se conseguimos arranjar o texto online, não preenchem qualquer ficha que se lhes dê, ainda que seja um nível de secundário com escolha múltipla.
    Ao mesmo tempo há que fazer adaptações nos programas de algumas disciplinas de caráter geral. No português por exemplo, não me parece viável estar a lecionar nos módulos as mesmas matérias do ensino dito regular. Devia haver mais matérias práticas, mais espaço para leitura e redação, e menos literatura.
    Se os alunos sabem que vão para uma área técnica, devem à partida compreender que têm de se ajustar a uma situação diferente, já que tiveram até ali dificuldade em se adequar aos programas e disciplinas ditas convencionais. Até porque as saídas pretendem-se mais de caráter intermédio e não superior. Assim em muitos países europeus. Sabem à partida que, ao ingressarem nestes cursos lhes fica vedado o ensino superior.
    Agora imaginem um professor chegar para lecionar um 12º ano de português, numa reunião de início de setembro, os colegas apresentarem a turma, dizerem que os jovens não sabem escrever uma frase, nem ler, que soletram, irmos à pauta do ano anterior e constatarmos que tiveram todos 13, 14 e 15 a português, quando estudaram Os Maias, padre António Vieira e outos autores de igual complexidade… Como é possível aprenderem Fernando Pessoa e heterónimos se não sabem sequer redigir uma frase, no dizer do Conselho de turma?
    Como obtiveram tais notas?
    Como concluem o curso com médias de 14 e 15 e são rejeitados em vagas claramente existentes nas empresas onde fizeram estágio??

  6. Concordo em absoluto! Eu não escreveria tão bem!
    Professor Quadro de Agrupamento… há 33 anos… a casa de família fica a 4 km da escola sede onde leciono… continuo a GOSTAR de trabalhar com os Alunos que querem trabalhar… alguma dificuldade em convencer os Alunos que se estão borrifando e não querem trabalhar e dizem que vão à aula para não terem falta!… lido bem com os indisciplinados mas algumas vezes tornam-se do sério! Há uns anos fiz uma acção de formação em indisciplina… umas teorias pouco praticáveis perante a realidade do dia a dia… penso ter tido azar… …
    Enfim… espero aguentar os próximos 8 anos, salvo erro ou mudanças legais, sem entrar em “bornout”!…
    Boas férias para todos!…

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