Início Rubricas Uma reforma do Ensino Profissional

Uma reforma do Ensino Profissional

1247
8

Para se pensar numa reforma do ensino profissional é preciso em primeiro lugar identificar o que está menos bem.

Em primeiro lugar há no ensino profissional mais indisciplina na sala de aula e muito mais absentismo, que se agrava quando os alunos constatam que não há consequências de muitos dos seus comportamentos. Na indisciplina conheço situações em que os alunos rejubilam com os dias de suspensão. O absentismo não é devidamente tratado, com muitos professores a não mandarem repor as faltas não justificadas na escola. Soluções para a indisciplina: tornar efetiva a possibilidade de realização de serviço cívico na escola. As direções das escolas têm dificuldade em castigar alunos mal comportados com trabalho cívico, como por exemplo limpar jardins ou apanhar lixo nas zonas comuns. Se os alunos com 16 anos já são criminalmente imputáveis, não percebo a resistência social para se aplicar estas penas para a indisciplina, em vez das suspensões. Para o absentismo: falta injustificada é equivalente a igual período na escola, ou seja, o preço sombra de uma falta injustificada é uma hora obrigatória na escola, a passar a matéria dada. O regulamento interno permite-me que o faça e tenho notado a diminuição do absentismo depois da aplicação desta forma de recuperação de faltas. As soluções passam por alterações no estatuto do aluno no sentido do que foi proposto, bem como em regulamentos internos.

Depois, os alunos dos cursos profissionais têm aulas de manhã e de tarde todos os dias. Têm horários bastante preenchidos com aulas. Preconizo uma reforma dos currículos em que se diminuiria os tempos letivos a favor de mais formação em contexto de trabalho, FCT, (têm 140 horas – 20 dias de 7 horas – de FCT no 10º e 11º anos e deviam passar pelo menos para o dobro).

A maior parte das aulas são dadas em salas de aulas normais, sem recursos tecnológicos, nomeadamente computadores, que possibilitassem um ensino diferente da aula expositiva com a avaliação por testes. Devia ser obrigatório os cursos profissionais só serem abertos se a escola tivesse condições tecnológicas para ministrar os cursos, nomeadamente terem pelo menos uma sala com computadores, com um computadores para cada 2 alunos, pelo menos, por turma. Em cursos mais especializados deviam também ter salas que permitissem ao aluno a prática simulada de certas atividades, como uma oficina para os de mecânica, uma sala com uma cama de hospital e um boneco para os de auxiliares de saúde, etc.

Estes elementos interligam-se, pois menos tempo em sala de aula e com aulas mais práticas, bem como ensino com tecnologia adequada, deverá diminuir o absentismo e a indisciplina.

Concluindo, o ensino profissional precisa de ser reformado: na abertura de cursos dever-se-ia exigir certas condições, como uma sala informatizada e salas apetrechadas com materiais onde pudessem praticar a profissão em que se estão a formar. O rigor com a indisciplina e com o absentismo deveria ser um desiderato de toda a sociedade a começar pela escola. A prática em estágio devia ser contemplada com mais horas.

COMPARTILHE

8 COMENTÁRIOS

  1. A FCT ,na maioria dos cursos e das escolas do ensino secundário , são de 600 hrs. 300 hrs no 2º ano e mais 300 hrs no 3º ano.
    Devo referir,como coordenador de um curso, que estas 600 hrs na maioria dos casos são uma aprendizagem repetitiva e pouco valorizada pelos formandos e formadores. No entanto, são de muito bom grado das entidades de acolhimento.pois, para estas,resulta em mão-de-obra gratuita e sem encargos laborais ao longo do 2º e 3º períodos escolares.

  2. O Manuel tem razao.
    O Sr. Rui Ferreira que escreveu este artigo passa ao lado de tudo aquilo que é recomendavel fazer e como deve funcionar um curso profissional.
    Cá para mim é mais um teórico cá do burgo.

    Como diz o Manuel e bem sao 600 horas de estagio em empresas. Mas muitas deles rejeitam estagiarios, mesmo sendo trabalho gratis. Em muitos paises as empresas que dão estagios sao compensadas pelos governos, seja em irc , seja em subsídios.

    Coisas que deviam mudar nos cursos profissionais no secundário ministrados em escolas secundárias:
    – Mesmas regras que os cursos regulares relativamente a faltas de alunos e professores;
    – Atualização e remodelação URGENTE dos conteúdos das varias disciplinas;
    – Apoios ás empresas que ministram estágios;
    – Obrigatoriedade de ter salas equipadas para a parte técnica. E são é um computador para dois, mas sim um computador para um.
    – abrir os cursos só com o dinheiro do portugal2020 em escola. Senão as escolas estão o ano todo sem dinheiro para compra de material;
    – penalizacoes de indisciplina mais fortes;
    – manuais mais actualizados.

    por agora basta…

    • Exatamente!! A pessoa que escreveu este artigo não faz a mínima ideia do que se passa num curso profissional!! Indisciplina?? São artigos como este que rebaixam.
      O que realmente precisa de ser melhorado é o preconceito fase aos meninos certinhos do regular cheios de regalias e inveja. O que precisa de ser melhorado é as escolas não gastaram os dinheiros dos cursos para o regular. O que falta é uma sociedade que entenda que alunos com boas notas vão sim para o profissional e não só os mal comportados. Falta que o preconceito de indisciplina nos profissionais acabe porque só quem lá está realmente é que sabe como é.

      Mais que 600h de estágio? Loucura total, algumas escolas nem subsídio de alimentação pagam. 600 ok, mais que isso já passa além da exploração.

      • Concordo com o que disse, mais do que 600h já é escploração, e uma coisa que não pensaram, existem alunos que ainda querem ir para a faculdade, o meu caso, e para ter tempo acabei por fazer 1mes no 10° e 2 meses e alguns dias no 12°, e para esses alunos que ainda querem ir para além da espectativas aonde é que fica o estágio? nos dias do exame?

    • Eu referia-me ao modo como está organizada A FCT na minha escola, 140 horas nos 10º e 11º anos, e 320 no 12º. A minha proposta é que passe para um total de 840, com mais 140 horas nos 2 primeiros anos. Quanto à indisciplina é um dos cancros do ensino. Também estou de acordo com salas equipadas para a parte técnica. Um computador para dois seria um começo.

  3. Ter FCT no primeiro ano, e em tão pequena quantidade, é geralmente má ideia. Nem os alunos têm maturidade nem as empresas estão para aturar miúdos de 15 anos. A FCT agora regressou às 8 horas diárias. Fazê-lo apenas com 7 é idiótico porque o horário normal de trabalho é 40 horas /semana e não 35. A FCT já pode perfeitamente ser 840 horas, sendo que 600 horas é o mínimo.
    Perdoa-me Rui, mas esta visão é a de quem apenas conhece más implementações de Ensino Profissional. Escolas que não têm recursos para ensinar uma dada profissão não podem abrir cursos nessa área: isto é absolutamente elementar e de lei. E os recursos incluem professores capazes que consigam exercer a profissão em causa, mas tenham sólida preparação pedagógica – coisa que é rara. O regime de faltas já prevê que os alunos recuperem as atividades em serviço adequado na escola.
    Por outro lado, as profissões estão já demasiado complexas para se acreditar que ainda há lugar à aprendizagem na empresa por osmose. Tal raramente acontece. É necessário que os alunos vão para a FCT com conhecimentos adequados, caso contrário, nem sequer beneficiam de nada. A escola, essa sim, é que deverá ter no seu âmago a empresa. O trabalho desenvolvido nas salas de aulas deverá ser o mais parecido possível com a realidade industrial (por exemplo) e forçosamente antecipar as necessidades dos empregadores. Esse conceito de que se dá a teoria na escola e se aprende a prática na empresa está completamente ultrapassado, quer do ponto de vista pedagógico, quer do ponto de vista de empregabilidade. Exemplo: um aluno que não saiba operar devidamente uma máquina em segurança, de pouco serve à empresa. Um aluno que não conheça regras de segurança, de pouco serve à empresa. E por isso os alunos devem passar um tempo adequado de formação numa escola que os ensine a executar a sua profissão.
    Mas tudo isto está previsto no Ensino Profissional, pelo menos desde 1999. Algumas escolas é que ignoram tudo isto porque o EP lhes foi imposto.
    E depois há todo um enorme preconceito tipicamente português e, até um pouco Salazarista, de que o trabalhador de colarinho azul é inferior ao Sr. Dr. ou ao Sr. Eng. Tenho vários alunos que ouviram esta frase vinda de “professores”: não vás para o Ensino Profissional, tu até tens capacidades.
    Não quer dizer que não haja coisas que são necessárias melhorar no EP.
    Simplesmente mais uma reforma não.

    • Concordo com tudo em absoluto com o colega Jorge Braga diz. Mas, queria acrescentar mais um pormenor importante. É pouco razoável os alunos terem a FCT no 1º ano do curso em virtude ,para além da falta de maturidade e destes alunos não terem a certeza se irão continuar neste curso , de que a formação técnica dada ainda no 1º ano ser ainda pouco significativa e principiante.

  4. O artigo que deu origem a todos estes comentários, para além de denotar falta de conhecimento do que é o ensino profissional, é redutor e até estigmatizante. Traz ao de cima a velha máxima de que esta vertente do ensino é menor. A indisciplina existe em todos os graus de ensino. A abstenção existe em todos os graus de ensino. Há que ter cuidado, no que se diz e se afirma. Importante sim, é criar as necessárias condições para o prosseguimento dos estudos ao nível superior.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here