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Um velhinho, um relógio marcando 12h15 e uma paragem de autocarro

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Sexta-feira. Meio-dia e quinze minutos. Passo eu com o carrinho do bebé em frente a uma paragem de autocarro em Brockley.

E lá está o velhinho, sempre perfumado, com o seu fato preto. O lenço ao peito, colorido. Ele carrega o arco-íris ao peito, cada Sexta-feira uma cor, um padrão. O chapéu está sempre a condizer com o fato, e na mão segura uma bengala com um elefante no topo.

A primeira Sexta-feira que o vi ali, passei sempre. Pensando no que havia de fazer para o almoço de uma criança que só queria comer aquilo que pudesse segurar com a sua mãozinha, e que não se desmanchasse.

Quando passei pelo velhinho, ele disse-me:

– Bom dia minha linda jovem!

Olhei para trás e sorri. Continuei meu caminho, quase atropelando o carrinho, porque já corria contra o relógio.

A semana passou-se como se de uma maratona tratasse.

Sexta-feira. Meio-dia e quinze minutos. Passo eu com o carrinho do bebé em frente à mesma paragem de autocarro. E lá está o velhinho. Desta vez, usava um fato branco. Sua camisa era bourdoux, o lenço ao peito também.

Desta vez eu não ia com pressa.

Tirou o seu chapéu e disse:

– Bom dia minha linda jovem!

Em vez de sorrir só por si, respondi bom dia.

Meio dia e quinze. Estamos os dois no mesmo mundo, à mesma hora mas com uma ruguez diferente.

Mais uma semana se passou. Ora calor e sol. Ora chuva e vento. Isto é Londres. O Verão nunca perde por nos apunhalar pelas costas.

Sexta-feira. Meio-dia e dez minutos. Vim pelo caminho pensando, se o velhinho estaria lá de novo. Quando me aproximei, lá estava ele se sentando no banco da paragem do autocarro.

Apreciei melhor o velhinho. Ele trazia com ele uma solidão vincada, amortizada. Disse-lhe :

– Bom dia. Tudo bem?

Desta vez não ía com pressa. O almoço já estava feito e eu andava com ele ás costas.

– Bom dia minha linda jovem! Que dia tão bonito que está hoje.

Sentei-me no banco. Olhei para o céu. Estava nublado e o sol ali dava a sua graça. Sorri. O Otto dormia. Então, eu tinha tempo para dar dois dedos de conversa ao velhinho. Ás vezes andamos tão ocupados com os nossos afazeres, que esquecemos que cinco minutos do nosso tempo, podem significar um dia para muitas pessoas.

Perguntei se ele estava à espera do autocarro.

Sorriu.

– Ás vezes, quando os tempos se tornam difíceis e o silêncio da nossa casa é a nossa companhia, temos que sair para dar espaço à nossa casa. Ela também precisa de se ver livre de mim. Coitada! – e desatou a rir.

Meus olhos desviaram-se para a sua bengala. Não esperava respostas líricas, numa paragem de autocarro, à conversa com um velhinho.

-Esse é o teu filho?

– Não. Sou ama dele.

Abanou a cabeça a dizer que sim.

Levantei-me, ajeitei a camisola.

– Bem, tenho de ir. Tenha um bom dia.

– Minha jovem, vá. Não se prenda aqui por mim. Vou voltar à minha casa, que ela já teve descanso suficiente de mim. – desatou a rir.

Pelo caminho pus-me a pensar, se aquele homem vivia sozinho. Que a solidão era a sua companhia. Que suas mãos contavam histórias.

Sexta-feira. Meio dia e quinze. Desta vez, eu tinha terminado o trabalho. O velhinho estava lá sentado.

– Bom dia minha linda jovem!

Sentei-me, à espera do autocarro.

– A minha casa antes estava cheia de vida, de barulho e de cheiros. Vic era a melhor cozinheira do mundo. John e Emma gostavam de ver os meus álbuns de fotografias do tempo que vivi em Moçambique.

– E já não gostam? – perguntei, enquanto dava uma dentada numa maçã.

O homem sorriu e respondeu:

– Sabes jovem, as pessoas não nos pertencem. Nossa missão aqui é procriar e criar. Depois de criados, vocês são livres. Tal como tu.

Continuou:

– Eu tinha a melhor esposa do mundo. Ela bem que suspirava, quando eu cantarolava pela casa, quando chegava do trabalho. A comida estava sempre na mesa. Ela debruçava-se sobre meus ombros e beijava a minha face, enquanto eu comia um bom prato de sopa e uma fatia de pão.

– Onde estão os seus filhos?

– John mora em Espanha e a minha filha vive por aqui perto. Mas não a vejo muito nem aos meus netos. Ás vezes ela liga no Domingo para saber se eu estou bem. As pessoas têm a sua vida. O tempo passa e nos ensina que somos velhos. Velhos com memórias, com um cachimbo no bolso e a cada minuto, um parente cresce, se torna adulto e eu fico aqui. A minha Vic tinha muito talento para juntar a família toda em casa, à volta da mesa. Eu não. Ocupava-me na minha sala, revendo fotos de Moçambique e ouvindo “A little bird told me” de Evelyn Knight.

Nesse instante, meu autocarro veio. Tive que por um ponto na conversa e seguir caminho. Ainda lhe disse:

– Qual o autocarro que apanha? É este? Já tenho de ir.

– Minha querida, já lhe disse. Só venho aqui, para dar espaço à minha casa. Não estou à espera de nenhum autocarro…ainda!

– Ainda?

– Quando o meu autocarro chegar, ele me levará até à minha mulher ou a trará de volta. Tem um resto de um bom dia.

Acenei e entrei no autocarro. Pela janela, olhei aquele velhinho. Senti-me triste e com pena. Sua mulher deve ter falecido, e embrulhado na solidão, ele espera que a morte venha, e o leve para junto dela. Aproveita a sua solidão para desejar bom dia aos que passam por ali, tornando o dia dos outros um pouco melhor.

E todas as Sextas feiras, quando o relógio marca meio dia e um quarto, vai lá estar aquele velhinho, esperando pelo seu autocarro da vida.

Sexta-feira. Meio dia e quinze minutos. Chuviscos e um dia muito cinzento.

O velhinho estava sentado no banco, balançando sua bengala e cantando:

”When the world seems to shine like you’ve had too much wine, that’s amore”.

Tirou o chapéu e continuou cantarolando. Eu sorri e acenei. Segui caminho. Olhei para trás, e lá estava ele continuando na sua solidão, olhando os chuviscos cantando “That’s amore” de Dean Martin.

Áquele homem, só lhe falta ser sepultado. Vive na conformidade, na ausência da presença que lhe faz companhia. Já não tem sonhos, encontra em cada despedida a recordação.

Parece viver numa dor tão funda que se tornou hábito, o fingir ser feliz. Ama a sua Vic, e canta canções para conformar a sua ausência. Precisa dos filhos, e aceita que os pássaros têm asas para voar.

E nós que insistimos na nossa própria companhia, no resistir a tudo e a todos, pensando que ainda temos tempo? É aí que nos falta o tempo, falta a companhia e ficamos como aquele velhinho. Consolado na sua companhia, cantando, à espera que o autocarro traga de volta o que já se foi.

O velhinho de fato, ao meio dia e quinze minutos, na paragem do autocarro, na cidade de Brockley.

E podem perguntar o que este artigo tem a ver com as crianças, adolescentes… eu explico… a infância e a velhice andam de mãos dadas. Porque ambas as alturas passam muito rápido. Ambas as alturas precisam de mais atenção e preocupação.

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1 COMENTÁRIO

  1. Nesta loucura que é a vida.
    As vezes é bom lembrar que um dia podemos ser velhinhos.
    Não deixemos que ela passe por nós sem darmos conta.
    Gostei.

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