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Tenho um aluno tão tímido… Nunca participa nas aulas!

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Quantas vezes, ao lançar uma pergunta para toda a turma, reparou que há um aluno que desvia o olhar, que tenta passar despercebido e que, quando participa (o que raras vezes acontece), fala muito baixo e com a voz trémula? Certamente várias vezes. São de facto alunos tímidos e a quem, por vezes, é muito difícil chegar.

Na timidez pode existir uma combinação de emoções, medo, tensão, apreensão e embaraço. Alguns alunos sentem todas estas emoções, outros só algumas, mas é importante ter noção que, por norma, estes alunos têm consciência das suas emoções e da sua falta de confiança, quando estão perante novas situações ou quando sentem que são o centro das atenções. Dizer-lhe que não vale a pena sentir-se nervosa, não ajudará, apenas levará a criança a não se sentir validade e achar que os seus sentimentos não são importantes.

Muitas vezes, os professores caracterizam estes alunos, como alunos com boas capacidades cognitivas, mas a timidez torna-se uma preocupação quando sentem que a mesmo domina e dificulta as suas aprendizagens e as interações com os outros. De facto, a atitude do professor tem um papel muito importante e ajudar uma criança a lidar com a sua timidez pode ser tão importante como ensinar a ler ou a escrever.

É importante ter em atenção que em situações mais extremas, a timidez, pode conduzir a fragilidades ao nível da autoestima, e ainda a situações de isolamento ou mesmo depressão.

Assim, é importante que os professores criem um ambiente de segurança para cada aluno, para que este sinta que os seus pensamentos e emoções são importantes e reais.

Deixamos algumas estratégias que podem ajudar:

– Peça à criança para o ajudar em tarefas na sala de aula, como distribuir ou recolher materiais, ajudar um colega com mais dificuldade nalguma tarefa que o aluno tem facilidade…
– Ponha a criança a trabalhar em pares ou em pequenos grupos, e coloque-os a fazer uma atividade que exija interação.

– Ajude a criança nas interações. Diga-lhe o que ela pode dizer, por exemplo, “podes perguntar a este menino quando é que ele faz anos?”, ou diga-lhe que pode responder “não sei”, quando não souber uma resposta.

– Dê tempo suficiente à criança. Não se apresse a falar pela criança, se a criança não responder ao fim de um tempo, não critique, e pergunte a outra criança.

– Mostre empatia e compreensão. Partilhe com a criança situações em que também se sentiu nervoso, diga-lhe que não há problema nenhum com as suas emoções e que, se quiser, pode falar sobre elas.

– Mostre proximidade. Aproxime-se da criança, cumprimente-a, seja afetuoso, fale com ela, sorria-lhe.

– Reforce quando a criança consegue interagir com outra criança, mas não de uma forma expositiva (pisque o olho, sorria…).

– Evite rotular. As crianças são muito atentas, por isso, tenha em atenção quando fala com outras pessoas sobre a criança. Se a criança o ouve dizer que ela é tímida, ela pode assumir isso como algo negativo. Refira-se a comportamentos concretos e não a “etiquetas” (“Ela hoje não falou muito”).

– Conte histórias à turma em que os personagens aprenderam a lidar com a timidez (o que não implica necessariamente que tenham deixado de ser tímidos) e explore na aula.

Acima de tudo, não queira que a criança seja uma pessoa diferente, ela é importante e especial pelo que é. A timidez é uma característica pessoal que, como qualquer outra, deve ser aceite e respeitada. Por isso, o seu foco deve ser em ajudar a criança a sentir-se bem e feliz.

 

Cátia Teixeira

Psicóloga Clínica

Oficina de Psicologia

1 COMENTÁRIO

  1. Excelente artigo! Uma das nossas filhas apresenta estas características, é extremamente importante o respeito e a empatia por alunos assim, e especialmente não falar deles com se fossem esquisitos por ser tímidos. Iniciou a escolaridade aos 3 anos e, nesse ano, em todos os finais de dia o recado era o mesmo, “continua calada, é tímida, não diz nada, ainda não lhe ouvimos a voz”. Esta conversa tinha o efeito contrário ao que pretendiam, mais calada e envergonhada ela ficava. Passou um ano letivo inteiro e ela não falou! Assim que vínhamos embora do JI começava a falar, tanto era o sufoco de estar diariamente 8 ou 9 horas calada, no contexto familiar contava tudo. No ano seguinte mudou de escola, para a rede pública, mudou de educadora, a primeira pessoa que nos alertou para a consequência negativa destes comentários.
    A nossa filha teve a bênção de aos 4/5 anos e durante o 1º ciclo ter uma educadora e um professor extraordinários que souberam lidar com estas e outras situações, que muito a ajudaram a melhorar na auto-estima. Foi um processo muito longo, mas que começou a dar muitos frutos. No 5º ano, com a mudança de ciclo e de ambiente (continuando na rede pública), retrocedeu um pouco, voltou a insegurança e rapidamente começou a ser vítima de bullying físico e psicológico. Valeu-lhe a ela e a nós pais, o DT ser igualmente extraordinário e fazê-la sentir que estava ao lado dela para a ajudar. Nem todas as crianças e jovens têm a sorte com que a nossa filha foi bafejada – bem sabemos – e se hoje ela está no 7º ano, muito confiante de si, se consegue falar dos seus sentimentos, se sabe defender-se do bullying através da defesa mais eficaz de todas: não ficar calada e falar com alguém, deve-se ao trabalho fantástico e muito competente destes docentes que a acompanharam, respeitaram, valorizaram e capacitaram. Não só ela, mas também nós pais beneficiámos da sua ajuda. Bem hajam!

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