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Um aluno de 6 anos passa mais 465 minutos por semana na escola que um aluno de 18 anos…

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Estou naturalmente a fazer uma comparação entre o 1º ano de escolaridade e o 12º ano…

Muito se tem falado na elevada carga letiva dos alunos, muito se tem falado na escola a tempo inteiro, muito se tem falado nos trabalhos de casa e muito se tem falado nas atividades extracurriculares.

Mas vamos colocar um número às coisas…

carga-letiva_
Dados da Direção Geral de Educação

Conforme podem constatar, os anos com maior carga letiva são o 3º e 4º ano de escolaridade. Mas o que a tabela em cima mostra de forma clara é um carrossel de tempos letivos ao longo do percurso escolar obrigatório. Dito de outra forma, a carga letiva atribuída aos alunos portugueses não tem a mínima consideração pela sua idade, não tem uma lógica progressiva, sendo vítima de múltiplos interesses exceto os dos próprios alunos. Além disso, temos situações que são paradigmáticas de uma incongruência difícil de explicar: a atividade física praticada na escola tem o seu pico no ensino secundário. Não é preciso ser perito em educação, nem ter formação superior para saber, que são os mais novos que precisam de mais tempo para gastar as suas energias. E nem vou entrar na questão que abordei no ano passado que há professores/escolas do 1º ciclo que passam por cima das expressões como se não existissem…

O Ministro Tiago Rodrigues já se pronunciou sobre este assunto e ficou prometida uma redução da carga letiva para o 1º ciclo. Algo que continuamos a aguardar…

No gráfico seguinte, podemos constatar 3 países completamente distintos. Além da óbvia redução letiva que existe na Bulgária e Finlândia, vemos um certo cuidado em aumentar a carga letiva ao longo do percurso escolar.

Carga-horária-Portugal_Finlândia-e-Bulgária
Estudo comparativo da carga horária em Portugal e noutros países, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, de 2014

Este é um assunto que sinceramente me revolta pois acho isto tão básico, tão acessível, tão… tão… tão senso comum… que é incompreensível, que nenhum licenciado, mestre, doutor, professor doutor, seja incapaz de mudar o que tanta gente da comunidade educativa vem apelando há anos.

É por este motivo que eu sou contra os trabalhos de casa, principalmente no 1º ciclo. Não por qualquer fundamentalismo bacoco, mas por ver o que devia estar claro como a água, que os alunos passam demasiado tempo na escola, demasiado tempo a trabalhar. E como bónus ainda mandamos TPC para as férias, é que pelos vistos em Portugal, as crianças não podem ter tempo para fazer aquela coisa a que se chama brincar, ou simplesmente não fazer nada, zero, rien, mergulhando nos seus pensamentos e estimulando a sua própria criatividade. E depois acho curioso quando se afirma que os alunos que mais trabalham em casa são os que têm melhores resultados, tcharam, descobriram a pólvora! Eu também se tiver uma criança a treinar 8 horas por dia ginástica terei altas probabilidades de ter ali uma ginasta de nível olímpico. Mas a que preço? Que competências sociais, familiares e afins não ficarão por atingir? Pois… é que convém pensar no quadro todo e não apenas no cantinho do quadro…

Criticamos esta geração por não brincar como antigamente. Verdade! Mas podíamos começar pelo básico que é dar-lhes o elemento essencial para brincar como antigamente – tempo.

Ainda sobre os TPC, eu até compreendo que para os alunos com mais dificuldades haja um reforço em casa, mas a prática diz-nos que o modelo utilizado são os TPC em modo fabril, tudo igual e siga para bingo. Serão os alunos todos iguais?

Não me reconheço neste ensino que visa a quantidade e não a qualidade, não me reconheço nesta escola formatada, inflexível e praticamente sem autonomia, não me reconheço num ensino que centra a formação dos alunos no Português e na Matemática, e não me reconheço numa sociedade que quer tornar a escola a 1ª casa dos alunos.

Está tudo ao contrário…

E para provar o título deste artigo ficam as imagens seguintes…

horario-1o-ciclo
Exemplo tipo de um horário de 1º ciclo (as AEC são facultativas). Retirado do blog DeAr Lindo.

 

horario-12o-ano
Horário de um aluno de 12º ano

I rest my case…

Matriz curricular do 1.º ciclo

Matriz curricular do 2º ciclo

Matriz curricular do 3º ciclo

Matriz dos Cursos científico-humanísticos

Veja o comparativo na comunicação social aqui

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8 COMENTÁRIOS

  1. O tempo indicado no gráfico 4 não está de acordo com o que está indicado na tabela onde se indica a carga letiva.
    A carga letiva no 1º ciclo está maior na tabela, mas no gráfico é a do 2º ciclo que está maior.

    • O gráfico 4 não é de minha autoria como reparou, além disso não é referente a este ano. Julgo que no gráfico 4 também tem que se compreender que o ano letivo utilizado como referência para o estudo pode ser diferente em virtude da dimensão dos anos letivos. Por exemplo este ano o 1º ciclo termina a 23 de junho. Mas com todo o respeito Porfirio, essa não é a questão central, julgo que é mais benéfico centrar-nos no que é essencial, a elevada carga letiva dos alunos.

  2. Há algo que se tem que ter em conta (que se calhar também contribuiu indirectamente para o aumento “estupido” na minha opinião, da carga horária). Uma criança de 6anos precisa de alguém para tomar conta dela. Um jovem de 18 é capaz de ficar sozinho em casa…. a maioria das pessoas trabalha das 9:00 as 18:00. A escola cada vez mais passou de uma instituição usada para somente ensinar novas capacidades e conhecimentos as crianças para um local onde se “despejam” os mesmos enquanto os pais trabalham e os preofessores que ensinem e eduquem os meninos…

      • E qual seria a solução? É que estamos todos de acordo que é um exagero de horas na escola… o problema é tirar os pais do trabalho a tempo e horas de passarem momentos de qualidade com os filhos… é que agora, até os avós trabalham até mais tarde e já não são aquele apoio tradicional à infância.

        • Eu não sei até que ponto era comum ou não, mas porque não fazer como fazia a minha escola quando eu era aluna. A escola tinha um ATL para as crianças que não tinham com quem ficar quando as aulas acabavam (se as aulas fossem só de manhã) ou para ficar durante as manhãs (se o aluno só tivesse aulas durante a tarde). Durante esse período, as crianças faziam os trabalhos de casa se os houvesse (e se ainda não estivessem feitos) e o resto do tempo era para qualquer outra actividade lúdica desde pintura, a trabalhos de gesso, música, ou simplesmente brincar, já para não falar que havia vários grupos extra-curriculares em que se inscrevia quem queria participar: rancho folclórico, grupo de teatro, ginástica acrobática, grupo instrumental, grupo coral…. E isto era numa escola pública.
          Eu sei que sendo realista na sociedade de hoje em dia as crianças têm que ficar na escola esse tempo todo, mas será que esse tempo tem que ser todo gasto a “aprender” matéria? Nós tínhamos 5h de aulas por dia e se calhar conseguíamos aprender mais do que as crianças hoje em dia (eu sei que há muitos outros factores a influenciar), mas se calhar neste caso, mais não significa melhor, ja que o tempo de concentração de uma criança de 6anos é bem inferior a de um adulto, e se nós às 3h da tarde já nos sentimos cansados, imagine-se uma criança a passar o dia inteiro sentada numa cadeira, fechado numa sala.
          Porque não aproveitar o resto do tempo, para por as crianças a fazer mais exercício, ajudá-los a desenvolver a imaginação, com atividades que sejam só para os manter entretidos, que os ajudem a desenvolver emocionalmente e socialmente, em vez de só intelectualmente, na minha opinião é isto que, no fundo, falta às crianças de hoje em dia. e se é preciso ocupar o tempo, então ter uma parte desse tempo para deixar as crianças serem criança.

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