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Trabalho a tempo inteiro

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Era domingo.
Havia festa popular na aldeia e professores e educadores a desfilar em marchas.
A desfilar fatos por si construídos em pós-laboral;
a cantar letras de canções que inventaram e redigiram;
a executar coreografias que arquitectaram em conjunto;
e que ensaiaram com as crianças durante semanas.

Tão engalanados, alinhadinhos, afinadinhos e coordenados, os catraios!
Que belo espectáculo e o trabalho que isto deu!

Aos bocadinhos, a espaços, durante os intervalos em que também vigiam crianças ou durante as “tardes livres” que a sociedade civil lhes inveja;
Tardes essas – livres – em que também
corrigiram os trabalhos dos meninos para a exposição final, preencheram relatórios diversos de actividades mil; corrigiram provas de aferição e exames; corrigiram testes;
classificaram e prepararam as reuniões de avaliação final.
Aquelas, que nunca mais se realizam por causa de mais uma greve.

Em bom abono da verdade, na docência, não há essa coisa do pós-laboral. Como as funções de um professor são de natureza eminentemente formativa e cívica, toda a sua vida “fora da escola” conflui para uma prática mais rica e pertinente. Quando o professor lê um livro, vê um filme ou assiste a um vídeo no youtube, há sinapses no seu cérebro que o redireccionam para o seu local de trabalho, a sala de aula, e logo ali, no seu momento de lazer, avalia mentalmente das potencialidades pedagógicas daquele material. Assim: olha que belo documentário para abordar as questões ambientais; ah a letra desta canção é jeitosa para rever as conditional clauses (orações condicionais); este filme é que era mesmo adequado para introduzir a temática do holocausto; olha que actividade tão gira para tentar com a turma X; e se trouxéssemos os oitavos anos a visitar este monumento?

Ou seja, é verdadeiramente um trabalho a tempo inteiro.

Aos fins de semana, por esse país fora,
há professores de Educação Física a acompanhar os atletas às competições, no âmbito do Desporto Escolar.
Há audições e peças teatrais que vão a cena;
há acampamentos e visitas de estudo;
há acolhimento e acompanhamento de alunos em Erasmos;
há festas escolares que acontecem
para que os encarregados de educação possam assistir.

São extraordinárias estas horas que passamos com os miúdos.
Faz-me lembrar a canção do Godinho  https://youtu.be/6oGZist0gCc

“Trabalhei sem dar p’lo cansaço
Horas extraordinárias …
(…) diz-me quanto eu fiz bem em me apostar
e que bem fiz em ter por necessárias
as horas extraordinárias!”

Ser professor é mais ou menos como ser freelancer sem ser lá muito free, porque há um horário a cumprir… e o resto!!!!
O resto – que definitivamente não cabe nas 35 horas laborais, especialmente se considerarmos que a docência actualmente navega num mar burocrático de impressos, formulários, plataformas e relatórios…muitos RALAtórios!

No entanto, não é nenhumas destas extraordinárias horas que reivindicamos na presente luta.  Essas que laboramos por vocação.

O que queremos, fique claro, são aquelas que efectivamente são… efectivas! As que contam. (Contam?)

Não exigimos as horas extraordinárias. Contabilizem as que contam: 9 anos, 4 meses e 2 dias. Considerá-las não será nada extraordinário. Será apenas honrar um compromisso e respeitar um direito.

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