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Topo e Fundo | Fuga de informação do exame descoberta e Flexibilidade curricular

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No Topo: Descoberta a autora da fuga de informação do exame de Português

Segundo o Expresso, as autoridades identificaram já a responsável pela divulgação antecipada de conteúdos da prova de exame de Português do 12º ano: uma professora de Português de uma escola pública da Grande Lisboa. Fez parte da equipa que elaborou as provas de exame, sendo ao mesmo tempo explicadora de um grupo de alunos do ensino secundário, a quem terá informado dos conteúdo da prova.

Oficialmente trata-se apenas de uma suspeita e a professora em causa não é sequer identificada. Mas espera-se que daqui para a frente o processo siga os seus trâmites normais, com todas as garantias de defesa da profissional sobre quem recaem as suspeitas e, naturalmente, a justa e exemplar punição caso se venham a comprovar a desonestidade e a fraude. E, já agora, que se revejam os procedimentos do IAVE e se perceba, de uma vez por todas, que o excesso de secretismo em torno de alguns procedimentos no processo de feitura dos exames pode, ele próprio, ser propiciador de abusos e fraudes.

Ao contrário de suspeições de outros anos, desta vez houve, por parte das autoridades, uma actuação responsável que deve ser assinalada: até pela projecção mediática do caso, percebeu-se que ele não poderia simplesmente ser ignorado ou abafado até que caísse no esquecimento. A actuação pronta, a investigação conclusiva e o procedimento disciplinar e criminal levado às últimas consequências são necessários não só para devolver aos exames nacionais a credibilidade que têm merecido, mas também para afastar a suspeita colectiva sobre a classe docente e dignificar o profissionalismo de milhares de professores que elaboram, aplicam e classificam, todos os anos, os exames nacionais.

No Fundo: A flexibilidade curricular 

Embora as ideias reformistas do secretário de Estado João Costa tenham certamente adeptos entre os professores portugueses, duvido que o despacho que implementa a flexibilidade curricular, como experiência pedagógica, em cerca de 160 escolas e agrupamentos de todo o país, agrade à grande maioria dos professores. Que estão fartos de verem o respeito pelos seus direitos e a satisfação das suas justas aspirações eternamente adiados, ao mesmo tempo que se lhes oferece agora, como presente envenenado, uma “autonomia” que ninguém pediu.

O documento marca o regresso do eduquês mais retumbante, oco e palavroso, traçando um quotidiano que passará a ser ainda mais dominado pela burocracia escolar dos planos, das matrizes, dos projectos, das articulações e de muitas, muitas reuniões. No concreto, e no que realmente importa, o que temos são incoerências e contradições.

Aponta-se para a transdisciplinaridade e criam-se novas disciplinas para tratar justamente os temas que mais se adequariam a uma abordagem transversal.

Menorizam-se, numa continuidade das políticas do anterior governo, as humanidades, as artes e as tecnologias, que se percebe não terem tido, entre os mentores do projecto, um lobby com capacidade para as defender adequadamente, como sucedeu com a Educação Física.

Promove-se irresponsavelmente a desconstrução do currículo ao nível local, como se a autonomia das escolas existisse, não para dar resposta às necessidades específicas de cada escola, mas para resolver falsos problemas inventados pela administração educativa.

E, no entanto, criar uma “semana de projecto” ou uma tarde semanal em que parassem as aulas e se trabalhasse colaborativamente em projectos da escola, pondo o “conhecimento em acção” e quebrando as barreiras tradicionais entre as disciplinas, é uma ideia válida e interessante. Para a experimentar não era preciso anatemizar a “escola do século XIX”, desvalorizar o papel fundamental das aulas e a importância das várias disciplinas ou amesquinhar o trabalho sério e com provas dadas dos professores que agora são tidos como “retrógrados” e “conservadores”…

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

2 COMENTÁRIOS

  1. Sabes que prefiro algo a nada e julgo que foi dado um passo que na teoria, repito, teoria, pode levar a algo melhor. Lembro também que o ano 2017/2018 será um ano de teste. O que espero? Espero que as tuas preocupações sejam infundadas, mas agora parecem-me legítimas e merecem uma resposta não teórica mas prática. Prática…essa é a questão central…
    O que dirão as escolas, os professores, os alunos e os pais daqui a 1 ano? A resposta será conhecida a seu tempo.
    Uma coisa é certa, parece-me que as escolas têm pouco tempo para mudar tanta coisa.

    • Não duvido de que as escolas que se meterem nisto irão, pensando nos alunos, fazer o melhor que puderem para dar a volta à burocracia e às incongruências do modelo.
      Também admito que, neste ano de teste, o ME colabore para que as coisas corram bem e facilite em relação a pares pedagógicos e outras soluções economicamente dispendiosas que as escolas irão propor. Claro que quando for para generalizar a coisa piará mais fino…

      Mas o meu ponto é, as coisas até poderão correr bem APESAR deste modelo, não POR CAUSA dele…

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