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Topo e Fundo | O fim dos rankings e as provocações aos professores

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No Topo: O fim dos rankings escolares

Espero, tendo em conta alguns antecedentes, não estar a falar cedo demais. Mas tudo parece indicar a vontade do actual ministério em pôr fim a um ritual que se vinha a tornar pernicioso e desmoralizador para as escolas portuguesas: a divulgação anual das médias de resultados dos exames nacionais, dados que a comunicação social de imediato traduzia em rankings das melhores e das piores escolas nacionais.

Percebo os argumentos a favor da divulgação dos rankings, principalmente o daqueles que dizem que ter informação, ainda que limitada e parcial, é sempre melhor do que não a ter. Mas a verdade é que a dita informação pouco variava de ano para ano, e a mensagem passou a resumir-se, por um lado, à reafirmação da superioridade do ensino privado (uma ideia errónea, nascida da comparação do que não é directamente comparável) e por outro a uma nefasta competição entre escolas na luta pelos lugares de topo da tabela.

Em vez dos rankings de resultados da avaliação externa, o ME divulga agora aquilo a que chama os percursos directos de sucesso. O novo indicador, que pretende conjugar a ausência de retenções com a avaliação positiva na avaliação externa, está longe de ser perfeito. Como já expliquei noutro lugar, não está sequer imune a manipulações, bastando fazer um exame ligeiramente mais fácil para obter melhores resultados de forma imediata. Mas pode representar um passo num caminho certo, assim seja usado com seriedade e acompanhado da divulgação de todos os dados relevantes que são usados na sua elaboração.

No fundo: As provocações aos professores

A expressão é da equipa negocial da Fenprof, no final de mais uma reunião mal sucedida com o ME. Na verdade, quando o ministério apresenta aos professores propostas negociais que não só ficam muito aquém das expectativas dos docentes como ignoram os próprios compromissos e promessas feitos pela equipa ministerial em 2017, elas só podem ser entendidas como provocações à classe docente.

Entre essas provocações está a irredutibilidade em torno da limitação de vagas para progressão ao 5º e ao 7º escalão da carreira. Ignorando anteriores compromissos de outro governo socialista, o actual quer deixar anualmente ao arbítrio das Finanças a definição do número de vagas disponíveis para a progressão. Que até poderia ser fixado num valor simbólico ou mesmo ser igual a zero. Na prática pode vir a representar, para milhares de professores, um novo congelamento, agora por via administrativa, da carreira.

Mas também os professores que entraram para os quadros depois de 2011 não estão a merecer melhor consideração. Ao fazer-lhes exigências impossíveis de satisfazer, como as aulas assistidas ou a avaliação dos anos em que esta esteve, na prática, suspensa, o que o ME está a dizer é que pretende que estes professores continuem, por tempo indefinido, no primeiro escalão.

Dando o dito por não dito e mantendo uma visão economicista e mesquinha sobre a carreira dos professores, o actual governo parece estar a recuperar antigas e detestáveis práticas que o PS desenvolveu, no passado, contra os professores. Esperemos que perceba a tempo que está a ir por mau caminho. E que os professores não desistam, nos tempos que aí vêm, de lho fazer entender.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

5 COMENTÁRIOS

  1. Aquilo que está a apontar como topo é, infelizmente, uma enorme desgraça.
    Privar as escolas de um instrumento de benchmarking fiável e nacional é criminoso.
    Se queriam evitar o folclore das escolas privadas era muito simples: bastava disponibilizar o ficheiro só com as públicas!

    Se se confirmar a proibição de divulgação do ficheiro com os resultados dos exames, estaremos perante um ato cobarde e promotor da mediocridade.
    Uma vergonha!

    • Não sou contra o “benchmarking”, apenas acho que há melhores formas de fornecer às escolas a informação do que através de um ranking que é redutor e que compara o que não é comparável.

      De qualquer forma, parece que a ousadia ministerial não chegará ao ponto de suprimir o ranking, que deverá ser divulgado nos inícios de Fevereiro, com apreciável atraso em relação à data habitual.

      Com o também habitual envio antecipado à imprensa, a fim de alimentar o sensacionalismo mediático a que muitos resumem a agenda educativa.

  2. Antes em Fevereiro, do que nunca, embora as escolas percam um ano letivo na aplicação de eventuais medidas de melhoria resultantes da análise.
    Não obstante, insisto na não inclusão da escolas privadas.

    PS. Penso que o Duarte não conhece o formato em que o JNE disponibiliza a informação, mas apenas o que os jornais divulgam. O JNE não elabora qualquer ranking. Os dos jornais não me interessam.

    • Sei bem que o que o ME fornece às escolas e aos jornais é uma base de dados com a informação em bruto que depois é tratada por cada um.

      O que me parece é que seria possível, com uma direcção-geral inteira destinada a produzir estatísticas, encontrar uma forma de, fornecendo às escolas a informação de que necessitam e a que têm direito, não propiciar o espectáculo anual da exibição dos rankings, que em nada esclarece nem dignifica a Educação portuguesa.

      Julgo que não estou a pedir nada do outro mundo. A maioria dos países que gostamos de tomar como modelos educativos não precisam de rankings para avaliar e melhorar.

  3. O ranking é simplesmente uma ordenação de resultados pelo que tem um valor relativo e é feito pelos jornais, não pelo Ministério. As escolas recebem todos os resultados pelo que o ranking não lhes dá mais informação do que a que já têm. Percebo que os 1ºs lugares (nacionais, distritais) e os últimos possam ter um valor simbólico relevante especialmente num contexto de competição comercial (entre privadas) mas proibir os rankings, mesmo que de forma encapotada, deixando de apresentar os resultados dos exames, é impedir a sociedade de fazer a avaliação das escolas e de saber se a sua escola está ao nível do que é exigido. Não divulgar estes resultados é chamar os portugueses de ignorantes porque não conseguem ver para lá do ranking. Quem controla a informação, controla os cidadãos…

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