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Topo e Fundo | A confiança nos professores e os exames inflexíveis

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No Topo: Confiança nos professores e nas escolas públicas

O estudo da agência Aximage divulgado esta semana confirma o que também já tinha sido detectado há dias numa análise semelhante da Universidade Católica: os professores e as escolas públicas continuam a estar entre os profissionais e as instituições em que os Portugueses mais confiam. Uma tendência que vem de longe e que habitualmente coloca os docentes, tal como os bombeiros ou os polícias, entre os profissionais mais merecedores do apreço e da confiança dos cidadãos.

Os dados de ambas as sondagens indicam, nomeadamente, que há mais confiança nos professores e na sua capacidade de ensinarem os seus alunos do que, por exemplo, na capacidade dos deputados a elaborar boas leis ou dos tribunais a aplicar a justiça. Outras instituições em descrédito são os bancos, por razões óbvias, e os sindicatos, que não estarão a defender eficazmente os direitos dos trabalhadores.

Pode dizer-se, deste tipo de estudos, que valem o que valem. Ainda assim, assumem no nosso país um valor especial, pois são habituais, infelizmente, as campanhas públicas contra os professores, que partem até de governantes e outros responsáveis que os deveriam valorizar e defender. Quando as políticas educativas são tantas vezes concebidas como criações de iluminados que precisam de ser impostas a professores retrógrados e avessos à mudança, e se acha normal tentar descredibilizar e desmoralizar a classe docente para aplanar o terreno para a sua aplicação, é reconfortante saber-se que o cidadão comum confia mais nos professores dos seus filhos do que nos políticos demagogos que os tentam denegrir.

No Fundo: Os exames inflexíveis

A notícia teve pouca repercussão mediática, mas o assunto é suficientemente importante para merecer destaque imediato e acompanhamento atento: paira um sentimento de inquietação, nas escolas que estão a realizar a experiência pedagógica da flexibilidade curricular, perante a perspectiva de os seus alunos terem de vir a realizar, no final do básico e do secundário, os tradicionais e nada flexíveis exames nacionais. E perante isto, raras foram as escolas que se aventuraram a estender o projecto ao ensino secundário.

A questão pode ser vista numa dupla perspectiva. Por um lado, não faz muito sentido flexibilizar currículos e aprendizagens, seleccionar conteúdos tendo em vista a interdisciplinaridade e o trabalho de projecto e privilegiar uma apropriação construtivista do currículo e no final submeter os alunos a provas de âmbito nacional concebidas com base numa diferente abordagem pedagógica dos programas que continuam em vigor.

Contudo, há também contra-senso evidente ao adoptar um conjunto de metodologias destinadas a melhorar as aprendizagens e ao mesmo ter receio de que os alunos, em contexto de exame, mostrem o que de facto aprenderam – ou não. Pois os exames servem para isso mesmo: garantir que, independentemente das opções pedagógicas das escolas e dos docentes, há um currículo nacional que é efectivamente apreendido e que pode ser mobilizado para ser aplicado em novas situações, como é o caso da resolução de uma prova de exame. Ou será que, com o novo modelo, os alunos aprendem menos? Só se acredita nas virtualidades da flexibilidade curricular se os seus resultados não puderem ser, objectivamente, demonstrados?…

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

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