Início Rubricas Topo e Fundo | Sindicatos mobilizados e demagogia contra os professores

Topo e Fundo | Sindicatos mobilizados e demagogia contra os professores

218
3

No Topo: Sindicatos de professores mobilizados para a luta

Diz-se com frequência, e com certa razão, que em Portugal a discussão pública sobre os temas educativos não se foca naquilo que nos deveria interessar a todos: as escolas, o ensino e a aprendizagem. Em contrapartida, eternizam-se no debate público os problemas profissionais dos professores e da sua carreira.

Contudo, se isto sucede, é porque tem persistido uma política educativa feita ostensivamente contra os professores, vistos colectivamente como uma classe conservadora e corporativa, que trabalha pouco e ganha muito, à qual é necessário retirar dinheiro e direitos. Tomados como alvo, os professores reagem em defesa dos seus direitos, carreira e dignidade profissional. E os seus sindicatos, pesem embora todas as críticas que os professores são os primeiros a dirigir-lhes, têm estado na linha da frente em defesa das principais reivindicações da classe.

De facto, neste início de 2019, os sindicatos têm estado especialmente activos, marcando a agenda noticiosa e conquistando visibilidade para as causas dos professores. Contra as ilegalidades na marcação de serviço e o excesso de trabalho, foi reafirmada a continuação da greve ao serviço docente extra-horário. Exigiu-se, à porta do primeiro-ministro, a reabertura das negociações para a recuperação do tempo de serviço congelado. E reiterou-se a disponibilidade para aceitar, na linha do que propôs o Presidente, soluções imaginativas que, sem pôr em causa o princípio da recuperação integral, diluam o seu impacto orçamental.

No Fundo: Demagogia e meias-verdades contra os professores

Perante a persistência dos professores, o Governo vai ficando cada vez mais isolado: o Parlamento obriga a novas negociações, o Presidente veta o decreto já aprovado em Conselho de Ministros, os governos regionais consagram a recuperação total do tempo dos professores insulares. Mas não desiste. E mobiliza os meios ao seu dispor para tentar desmobilizar a classe e reconquistar a opinião pública – desta vez, até o ministro das Finanças, habitualmente resguardado em relação a este tipo de conflitos, engrossou as hostes governamentais no ataque às exigências dos professores.

Quanto ao argumentário usado, ele não difere da linha habitual: o valor incomportável dos 630 milhões de euros que custaria a recuperação integral – números certamente exagerados e ainda por demonstrar – a injustiça relativa em relação a outras carreiras e a acusação de que os professores quereriam ajustar contas com o passado – chegando-se ao ponto de insinuar, por vezes, que reclamam alguma espécie de “retroactivos”.

Claro que tudo isto se baseia num uso muito selectivo da verdade. É certo que os professores são muitos, e só por essa razão qualquer progressão salarial tem impacto orçamental significativo. Mas é igualmente verdade que parte significativa dos aumentos dos professores acabam por não sair do perímetro orçamental, pois se traduzem em maiores descontos para o IRS e as contribuições obrigatórias. E, com uma recuperação faseada, os efeitos no orçamento podem ser mitigados – ao contrário do que sucede com os sucessivos e violentos “shots” que todos os anos somos obrigados a injectar nos bancos falidos que continuam a ser capitalizados pelo contribuinte.

Finalmente, a ideia de que a recuperação do tempo dos professores ficará mais cara do que a de outros trabalhadores do Estado: a verdade é que isso sucede porque as nossas progressões estiveram completamente congeladas, ao contrário do que aconteceu, por exemplo, com as promoções, que continuaram a ser feitas noutras carreiras e que não existem para os professores. Para estes, recuperar mais, agora, é uma compensação lógica de terem sido dos que, nos anos da crise, mais dinheiro perderam…

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

COMPARTILHE

3 COMENTÁRIOS

  1. A sério? Querem ver que pela 1a vez os sindicalistas farão a greve na vez dos professores? Só vendo as suas declarações de vencimentos.

    • Acho que a luta que os professores têm pela frente não se resolve apenas com uma greve. Aliás, se assim fosse, teríamos conseguido tudo o que exigimos com a greve do ano passado às avaliações, a mais dura e prolongada de sempre.
      Com todos os defeitos que os sindicatos possam ter, há que ter o discernimento de perceber que são os nossos representantes, e não nossos inimigos. O nosso adversário é o governo e as políticas que pretendem continuar a usar a perda de direitos e rendimentos dos professores como elemento essencial do equilíbrio das contas públicas.
      Voltando às greves, é muito simples: só os sindicatos as podem convocar; só os professores as podem fazer. Em relação a descontos, falo apenas pelo que sei ser a prática do meu sindicato, filiado na Fenprof: os dias de greve são efectivamente descontados aos dirigentes pelos serviços a que pertencem.

      • Ao contrário do que o colega disse, poderíamos ter resolvido a situação no ano passado, pois mais do que nunca estivemos mobilizados.Não fosse a traição perpetrada pela plataforma sindical, com destaque para a FENPROF e para a FNE, os resultados teriam sido outros….. Não se pode esquecer que essa greve foi inicialmente convocada pelo STOP e por exigência e ação dos professores, os restantes sindicatos entraram na mesma quase que impelidos, obrigados pelo que se mostrou ser uma luta sentida e vivida mais do que nunca. Aquilo que a plataforma fez foi tentar esvaziar o impacto e a força unificadora que um certo sindicato estava a mostrar. Essa saída/ traição para ir a banhos saiu-nos cara e quebrou, para sempre, a confiança que muitos associados depositavam nos sindicatos. Oxalá lhes tenha saído cara, pois a mim e a todos os professores saiu.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here