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Topo e Fundo | O melhor e o pior dos rankings

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Numa semana sem grandes novidades, a actualidade educativa fica marcada pela divulgação dos rankings das escolas, elaborados a partir das médias de resultados dos exames nacionais. Trata-se de um acontecimento mediático que tem vindo a ser laboriosamente preparado pelos media, a quem o ME forneceu antecipadamente os dados estatísticos que originaram os rankings para todos os gostos que vemos publicados. Este é, para o melhor e para o pior, o acontecimento da semana.

No Topo: A Educação é notícia

No dia de S. Ranking, a Educação chega às primeiras páginas e aos destaques dos noticiários e este é seguramente o principal mérito da divulgação de dados que, numa leitura superficial, tem um interesse e um impacto muito discutível. De facto, durante vários anos, a divulgação das listas serviu sobretudo para entronizar um conjunto restrito de escolas privadas como as melhores e mais bem sucedidas do país.

Contudo, passado o impacto inicial, a análise dos resultados dos exames tem merecido um tratamento estatístico cada vez mais aprofundado. Conjugados com os chamados dados de contexto – nível sócio-económico  das famílias, escolarização dos pais, entre outros – vai-se percebendo que o sucesso educativo é um fenómeno complexo onde intervêm uma multiplicidade de factores. Dos quais a escolha da escola está longe de ser o mais relevante…

No Fundo: A leitura redutora dos rankings

Embora a informação disponibilizada permita já muitos estudos, leituras e conclusões, a verdade é que, em termos de opinião pública, ela tende a resumir-se a meia dúzia de evidências:

  • as escolas privadas são melhores do que as públicas;
  • entre estas últimas, as que recebem predominantemente alunos da classe média-alta obtêm melhores resultados do que as que têm um público escolar mais heterogéneo;
  • as escolas situadas junto de meios deprimidos – subúrbios das grandes cidades, interior desertificado e envelhecido – tendem a ocupar, de forma persistente, os últimos lugares dos rankings.

A verdade é que os rankings, e esse é o seu maior problema, funcionam muitas vezes como uma profecia que se auto-realiza: ao apontar determinadas escolas como as “piores”, fazem com que os alunos mais ambiciosos e as famílias mais empenhadas no sucesso escolar dos seus filhos façam de tudo para as evitar. Em sentido inverso, as escolas identificadas como as “melhores” não precisam de se esforçar muito, daí em diante, para preencher todas as vagas com alunos motivados para aprender e com elevadas expectativas académicas. Nem sequer para continuar a apresentar bons resultados nos exames.

Ao contrário do mito neoliberal que defende que, com mais e melhor informação, se vão fazendo melhores escolhas, e que essas escolhas premeiam os “bons” e forçam os “maus” a melhorar, a realidade é bem ao contrário: os rankings têm acentuado as diferenças entre as escolas, contribuindo para a segmentação dos públicos escolares. E  para o incontornável agravamento das desigualdades no acesso à Educação.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

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2 COMENTÁRIOS

  1. Sim, o artigo expõe o óbvio, mas não dá a solução (milagrosa?) para resolver o principal problema; a escola, por si só, não consegue substituir-se a um modelo de pais responsáveis, que incutem nos seus filhos disciplina e necessidade de esforço para obtenção de sucesso. Crianças e jovens sem estrutura familiar, sem ambição, sem sonhos e, muitas vezes, sem qualquer respeito por quem educa, povoam muitas das escolas que estão no último lugar das malfadadas listas.
    A escola obrigatória de 18 anos tornou-se na escola compulsiva para um elevado número de alunos (de 15 a 18 anos) que não quer lá estar e, ainda menos, estudar. Não o reconhecer nem discutir as formas de mudar esta realidade é mais ou menos conversa da treta. Sem uma intervenção direccionada e individualizada, logo no pré escolar, as escolas estarão condenadas, com ou sem rankings, a uma segmentação natural decorrente da diferença social e cultural do publico que as frequenta.
    Como uma mãe disse a um jornal, “o segredo do sucesso de duas das melhores escolas de Coimbra é o nível sócio-económico e cultural dos pais”. Educar/ensinar e aprender exige paciência, resiliência, disciplina, esforço, respeito… hoje, como há 100 anos, ignorá-lo é caminhar sem rumo, fazendo e desfazendo ao sabor de modas e ideologias que pouco interessam aos pais que sabem, de moto próprio, que sucesso vem sempre depois de muito trabalho.

    • Concordo inteiramente, claro.

      São raros os países do mundo com uma escolaridade de 12 anos. Foi uma medida demagógica e precipitada que só se sustém graças aos cursos profissionais de faz-de-conta que proliferaram pelo país e ao sacrifício de milhares de professores que quotidianamente aturam estes alunos que andam na escola contrariados, a contar os dias que lhes faltam para fazer os 18 anos.

      Até que ponto a escola se pode substituir aos pais e o que fazer para oferecer verdadeiras alternativas aos jovens que não gostam de estudar: eis assuntos que teriam pano para mangas. Pessoalmente acho muito mau o sistema actual, que permite que uma franja significativa de jovens ande demasiados anos a arrastar-se por uma escola onde nem adquire métodos e competências de estudo nem tão pouco hábitos de trabalho.

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