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Topo e Fundo | O melhor dos mundos educativos e a campanha contra os professores

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No Topo: O melhor dos mundos educativos?…

No regresso desta rubrica semanal do ComRegras, tenho sincera dificuldade em destacar, pela positiva, algum dos acontecimentos desta semana. Dedicada, na generalidade das escolas, à preparação do arranque do novo ano lectivo.

Contudo, se me socorrer do que vai dizendo a propaganda governamental, a tarefa torna-se surpreendentemente fácil: os professores foram colocados a tempo, as turmas estão formadas e, nas escolas, trabalha-se afincadamente na generalização da flexibilidade curricular e na inclusão dos alunos com necessidades educativas. Estas duas medidas serão a chave para uma escola de sucesso para todos, com aulas divertidas e aprendizagens mais significativas.

Mas o optimismo dos arautos do Governo esbarra com a realidade que conhecemos por dentro. Muitos professores continuam com colocações precárias e distantes da residência. As turmas “em desconformidade” – eufemismo que o ME inventou para designar a ilegalidade consentida de terem alunos a mais – serão às milhares pelo país fora. Há atrasos na distribuição de manuais, na colocação de funcionários e na conclusão de algumas obras escolares. Milhares de alunos com NEE iniciarão o ano sem os apoios educativos de que têm beneficiado até agora e assim ficarão, em muitos casos definitivamente, em nome da nova filosofia da inclusão obrigatória. E apesar de as aulas ainda não terem começado, já há professores a precisar novamente de férias, tão extenuante tem sido o trabalho burocrático imposto pela flexibilidade curricular.

No Fundo: A campanha contra os professores

A recusa determinada do Governo em aceitar a recuperação integral do tempo de serviço congelado aos professores – os 9 anos, 4 meses e 2 dias – ameaça um início de ano lectivo atribulado. Com paralisações para a realização de reuniões sindicais, uma semana de greves em Outubro e uma manifestação nacional no Dia do Professor, os sindicatos pretendem dar aos professores oportunidades de mostrar a sua insatisfação e exprimir o seu protesto perante a política discriminatória e lesiva dos seus direitos que está a ser seguida pelo Governo.

Perante a luta dos professores, o Governo PS contra-ataca recorrendo ao que, aparentemente, melhor sabe fazer contra os professores: uma campanha de mentiras e calúnias na imprensa, procurando voltar a opinião pública contra a classe docente. Obrigando os professores a defender-se das críticas, inibe-os de se focarem na luta pelos seus direitos. Esta estratégia já foi usada várias vezes no passado, quase sempre com maus resultados. Mas o PS insiste nela, parecendo não perceber as desvantagens de alienar o apoio de uma classe numerosa e esclarecida.

Integrada nesta campanha anti-professores, temos a divulgação tendenciosa, pela generalidade da imprensa, de dados descontextualizados de um relatório da OCDE, com os quais se pretendia provar que os professores portugueses trabalham pouco e ganham demasiado. Curiosamente, o ME ficou em silêncio perante as conclusões abusivas e as interpretações erróneas sobre os professores. Mas assim que um jornal veio lembrar o alto cargo que o SE João Costa ocupa na OCDE, este veio prontamente a terreiro defender a sua honra.

O episódio mais recente aconteceu hoje mesmo, com a divulgação de uma sondagem que mostra a falta de apoio da opinião pública às pretensões de contagem do tempo de serviço dos professores. Com mil entrevistas telefónicas a detentores de telefone fixo, o Expresso sentiu necessidade de mostrar que o povo está ao lado do Governo, contra as reivindicações dos professores. Será que está mesmo?…

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

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