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Topo e Fundo | O final do período e o 54, o 55 e os outros…

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No Topo: Final de período

As férias de Natal – ou interrupções lectivas, como agora se diz – sempre foram ansiosamente aguardadas por alunos e professores. Aos encantos e atractivos da quadra natalícia, soma-se o desencanto dos dias frios e sombrios, em que apetece, acima de tudo, ficar em casa.

Mas julgo que nunca como agora o primeiro período foi sentido como uma verdadeira maratona de resistência por um número cada vez maior de professores. Cansados e desgastados, muitos docentes sentem-se desmotivados e desmoralizados justamente por quem teria a obrigação de os motivar e de criar condições para poderem fazer bem o seu trabalho: as direcções escolares e, acima de tudo, o Ministério da Educação.

O número excessivo de alunos e de turmas, a indisciplina e o bullying que continuam a grassar em muitas escolas, o excesso de trabalho burocrático, a falta de meios e condições para um trabalho pedagógico de qualidade – tudo isto é extremamente desgastante, sobretudo quando não ocorre apenas pontualmente, mas marca o quotidiano docente em muitas escolas do país.

Neste contexto difícil, chegar física e mentalmente são às férias de Natal é um verdadeiro desafio que põe à prova a resiliência dos professores e que nem todos conseguem superar. Como se vê, aliás, pelo elevado número de baixas por doença que se foram registando ao longo do período. Nesse sentido, a chegada da pausa lectiva natalícia é sem dúvida a melhor notícia da semana…

No Fundo: O 54, o 55 e os outros…

Se chegar incólume ao final do período lectivo não foi fácil, há uma provação final que falta ainda superar: as reuniões de avaliação.Não pelo acto de avaliar os alunos, algo que é intrínseco e natural na profissão de professor, mas pela quantidade de burocracia que se vai acumulando em torno de processo avaliativo. Este ano, com a entrada em vigor de nova legislação, tudo se está a complicar ainda mais.

 Estou a referir-me, como já se adivinhou, a dois novos decretos-lei  que pretendem ser estruturantes do trabalho pedagógico das escolas, condicionando, nessa medida, a avaliação: o 54/2018, que institui o regime de inclusão, e o 55/2018, que enquadra a flexibilidade curricular. Da conjugação dos dois diplomas sobressai um “recado”que a nossa administração educativa gosta de dirigir aos professores: dêem boas notas aos vossos alunos, se não querem andar o resto do ano a preencher papelada…

 De facto, quando se presume o sucesso escolar, não como o resultado do esforço e dedicação, mas como uma espécie de direito natural dos alunos; quando se parte do princípio de que, com as metodologias certas,qualquer aluno aprende, independentemente da sua vontade de aprender, então o corolário lógico destas “certezas” é que, se o aluno não teve sucesso, a culpa só pode ser do professor. E é neste ponto que surgem e se multiplicam os relatórios, as justificações-para-acta, os planos de monitorização de medidas e outros documentos deixados à criatividade das escolas.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

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1 COMENTÁRIO

  1. Excelente análise. Apenas acrescento que muito do facilitismo surge também via diretores e as justificações por tudo e por nada por professores que por vezes são mais papistas que o Papa.

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