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Topo e Fundo | Altos e baixos da greve dos professores

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A greve dos professores e educadores marcou, para o melhor e para o pior, a semana educativa.

No Topo: A luta dos professores ganha visibilidade

A greve de docentes que decorreu de 13 a 16 de Março não terá sido das mais participadas de sempre. Ainda assim, a opção por um modelo de greves regionais, permitindo estender a luta por quatro dias sem penalizar excessivamente quem a ela aderisse, teve uma importante vantagem: permitiu manter a luta dos professores na agenda mediática ao longo de toda a semana.

Embora as reivindicações dos professores estejam ainda longe de aceites e bem compreendidas pela opinião pública, há um elemento que esta semana se evidenciou: a má consciência do governo, que sabe que não está a tratar de forma justa e honesta os professores e sente por isso a necessidade de recorrer à demagogia e à mentira para tentar fazer crer que os professores não têm razão na sua luta. E isto merece, como é evidente, uma resposta à altura da parte dos professores e dos seus representantes.

A verdade é que a narrativa dos professores “privilegiados”, que “ganham demasiado”, beneficiam de “progressões automáticas” e chegam todos “ao topo da carreira” é há muitos anos, e por acção directa de sucessivos governos, completamente desfasada da realidade. Quando se enviam para os jornais números aldrabados acerca do impacto orçamental das progressões na carreira docente, ou se tenta convencer a opinião pública de que é equitativo recuperar dois anos e dez meses de congelamento aos professores, quando os restantes funcionários públicos irão obter sete anos do mesmo período, não pode haver dúvidas nem hesitações: há uma campanha de mentira e desinformação em curso, que devemos temos todos, e por todos os meios ao nosso alcance, denunciar.

No Fundo: Uma greve a meio gás

Não quis afirmá-lo no decurso da greve, mas agora há que dizê-lo sem rodeios nem hesitações: foram modestos os números de adesão a uma greve que, apesar de se estender por quatro dias, andou quase sempre a meio-gás. De norte a sul, e apesar de algumas centenas de escolas fechadas, quase todas do primeiro ciclo, o cenário mais vulgar foi o de uma quase normalidade na maioria das escolas, com a maior parte das aulas a funcionar.

Li e ouvi professores mostrarem-se surpreendidos com a greve e queixarem-se de falta de informação nas escolas, pois julgavam que ME e sindicatos continuavam a negociar. Alegou-se também que o timing da greve não foi o adequado, pois a penúltima semana do segundo período é normalmente destinada à realização de testes e outros trabalhos avaliativos ou a visitas de estudo e outras actividades há muito planeadas que só com grave prejuízo para os alunos poderiam ser canceladas ou adiadas. E referiu-se o forte sentimento de desconfiança de muitos professores em relação aos seus sindicatos, que tem funcionado como forte elemento desmobilizador da participação nas iniciativas sindicais.

Independentemente da pertinência e do valor destas razões, há uma opção clara que os professores portugueses terão de fazer nos próximos tempos. Perante a intransigência do governo, das duas, uma: ou endurecem a luta no próximo período – e para isso terão de ser capazes de se mobilizar em maior número para as iniciativas que venham a ser convocadas, e que poderão passar por mais greves, grandes manifestações ou até, eventualmente, uma greve às avaliações -, ou bem poderão dizer adeus à recuperação dos nove anos e quatro meses de tempo de serviço que têm vindo a reclamar.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

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