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Topo e Fundo | A superioridade da escola pública e o desânimo entre os professores

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No Topo: A escola pública prepara melhor os alunos

Na mesma semana em que soubemos da elevada procura que têm tido alguns colégios de topo das principais cidades do país, ao ponto de já terem, muitos deles, encerrado as matrículas para 2018/19, foi também divulgado um interessante estudo que a Universidade do Porto desenvolveu junto dos seus estudantes de Medicina.

Como se sabe, a elevada procura deste curso e as médias de acesso muito elevadas, em regra superiores a 18 valores, limitam a entrada a excelentes alunos. Ou então, alunos não tão bons, mas que frequentaram um daqueles colégios especializados na subida de médias, seja inflacionando as classificações internas, seja treinando de forma intensiva os estudantes para os exames nacionais. Ora o que o referido estudo fez foi comparar as classificações destes jovens ao longo do seu percurso universitário. E os resultados são reveladores: em média, os que vieram das escolas públicas têm, consistentemente, melhor aproveitamento. Apesar de terem entrado na universidade com notas mais baixas do que os colegas oriundos das escolas privadas.

Aparentemente, o sistema mais controlado dos colégios mostra-se eficaz na obtenção de melhores resultados a curto prazo, nomeadamente na obtenção de melhores notas em provas de avaliação e exames. Contudo, o ambiente mais heterogéneo e menos protegido das escolas públicas tende a tornar os bons alunos mais autónomos e responsáveis, ajudando-os a desenvolver hábitos, competências e capacidades que lhes serão essenciais na universidade. E ao longo da vida…

No Fundo: Professores desanimados e desorientados

Apesar de 2017/18 ter sido anunciado, pelos sindicatos de professores, como o tempo de “resolver problemas”, o ano lectivo chega ao fim sem que nenhuma das mais importantes reivindicações da classe docente tenha sido satisfeita pelo governo. Nesta altura do campeonato, pode dizer-se, reinam a descrença e a desorientação entre os professores portugueses.

A verdade é que nem os professores têm hoje o ânimo e a combatividade de outras épocas na defesa dos seus direitos e interesses, nem os seus sindicatos têm estado à altura do ambicioso caderno reivindicativo que apresentaram aos professores, nomeadamente no que diz respeito à recuperação integral do tempo de serviço. Que é uma exigência justa, mas implica luta e sacrifícios: nunca será concedida de bandeja seja por que governo for, tendo em conta o seu enorme impacto financeiro.

E é isso que aumenta a perplexidade: estará alguém à espera de um milagre negocial nas reuniões entre ME e sindicatos da próxima semana? Cedendo ao calendário negocial imposto pelo ME, e não agendando qualquer forma de luta credível para a fase final, e decisiva, do ano lectivo, a plataforma sindical descarta-se de trunfos válidos que possa levar para a mesa das negociações. Ou alguém tomará a sério a ameaça de greve, em período de exames, às reuniões de anos não terminais que ocorrerão na mesma altura?

Depois de uma manifestação de 50 mil docentes que terá superado as expectativas mais optimistas, esperar-se-ia um crescendo na luta e a afirmação de uma posição de força que levasse o ME a sentir a necessidade de melhorar as suas propostas negociais. Afinal, o que se adivinha é mais uma ronda negocial inconclusiva e novo adiamento das questões por resolver para o próximo ano. Quando as mitigadas concessões que o governo decidir fazer aos professores tomarão a forma de rebuçado eleitoral…

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

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4 COMENTÁRIOS

  1. Foram mesmo 50 mil? E existe uma greve marcada já a partir de 2 feira. Infelizmente essa está a ser ignorada por muita gente.

    • Não sei quantos foram exactamente os manifestantes, estou a usar o número mais referido na altura e que não sofreu contestação. Mostrou, ainda assim, uma importante capacidade de mobilização dos sindicatos, inferior à de outros tempos, é certo, mas que poderia ser direccionada, por exemplo, para uma greve às avaliações ou para outra forma mais musculada e consequente de protesto.

      Se era para ir para as reuniões de mãos a abanar, confiando apenas na boa vontade do governo, então não valia a pena investir na manifestação e a seguir desmobilizar as “massas”. Eu até costumo confiar nas estratégias sindicais, mas aqui parece-me que algo está a falhar.

      Quanto à greve convocada pelo STOP: acho que fizeram o que os outros deveriam ter feito, mas não me parece que uma greve convocada por um só sindicato, desconhecido da quase totalidade dos professores e sem estruturas “no terreno”, possa ter qualquer tipo de eficácia. Como sabemos do passado recente, uma greve às avaliações precisa, para ser eficaz, da mobilização e do envolvimento da maioria dos professores e de um trabalho prévio de organização, em cada escola, que seria nesta altura impossível de desenvolver.

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