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Tem a Palavra, Susana Dinis – A loucura de um DT de vocacional.

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mergulhado em papeisAcho que já passou tempo demais… Mas este ano foi tudo menos fácil!

Importa primeiro dizer que amo a minha profissão e só isso justifica o sacrifício de um ano inteiro perdida nas burocracias de um curso vocacional de básico.

Recordo como se fosse ontem, embora já tenha passado um ano, a minha conversa com o diretor da minha escola a voluntariar-me para ter uma direção de turma. Era professora contratada, pelo primeiro ano no Agrupamento e por esse motivo não tinha qualquer cargo. Nesse primeiro ano apareceram os cursos vocacionais.

Eu lecionei Desporto e Educação Física à primeira turma Vocacional de 3º ciclo. A diretora de turma dessa turma acampava, literalmente, na escola e eu, mais disponível, prontificava-me várias vezes para a ajudar. Isso acontecia porque estava colocada a 250 kms de casa e por isso não havia afazeres que tivessem que ser feitos de imediato. Ou que não pudessem esperar.

Ao ver a azáfama e as olheiras da minha pobre colega, e as oito horas que passava com essa turma de vocacional, aulas de onde saía num desgaste sobre-humano, no final do ano, ao mostrar-me disponível para aceitar uma direção de turma (DT), frisei que por estar definido irleccionar Desporto, uma das áreas vocacionais, a duas destas turmas vocacionais, em que já estaria com eles dez horas da semana, não estaria disponível para que a direção de turma fosse de um desses cursos.

Chegámos a Setembro. De novo na mesma escola, horário completo, aulas de desporto a duas turmas de vocacional (uma de primeiro ano e a outra de continuação do ano anterior – 5 tempos letivos a cada turma), direção de turma e coordenação de curso de... Vocacional!

Depois do choque e da indignação há que arregaçar as mangas e dar forma à massa. A minha turma tinha 20 alunos. Vinte histórias de vida problemáticas que se atropelam diariamente, fazendo as “delícias”da equipa da disciplina! A equipa da disciplina é uma equipa de triagem à porta dos “cuidados intensivos” dos processos disciplinares.

Estas turmas são constituídas, segundo legislação em vigor, por alunos que tenham duas retenções no mesmo ciclo de ensino ou três, em ciclos de ensino diferentes, abaixo dos 15 anos.

Conforme se depreende, alunos com este historial, nada querem da escola ou com a escola. São alunos sem rumo, que vivem o presente, não pensam o futuro, que têm direitos mas não têm deveres, que têm dificuldades de concentração, que resistem à aprendizagem, mas que vão fazendo o que não tenham que pensar… São os alunos tarefeiros.

Tal como os alunos, também os professores destas turmas terão de ser, mesmo que não queiram, professores tarefeiros! Senão vejamos, o diretor de turma do curso vocacional tem de confirmar, em dois tempos semanais, onde está obviamente incluído tempo para atendimento aos encarregados de educação, as faltas a cada disciplina e por módulo. Estes alunos têm aulas por módulos e não podem ultrapassar o limite de 10% de faltas do total de aulas por módulo. Caso ultrapassem, os alunos terão de realizar recuperação das aulas a que faltaram, normalmente através de fichas de trabalho ou trabalhos escritos, na biblioteca, cumprindo o mesmo tempo letivo das aulas a que faltaram. Se as faltas foram dadas por motivos de doença, os alunos poderão realizar as recuperações em casa.

Só neste pequeno pormenor das faltas vejamos a brutalidade tarefeira do DT Voc:

1º o DT passa as faltas do livro de ponto para o programa informático da escola.

2º o DT verifica, aluno a aluno, disciplina a disciplina, módulo a módulo, se as faltas ultrapassaram o limite de 10%. Como cada disciplina tem um número de módulos, que não tem que ser igual às restantes, e com diferente número de aulas atribuído, também muda o número de faltas que cada aluno pode dar por disciplina e por módulo. Nesta altura o DT pára e elabora um quadro com estes dados para poder facilitar um pouco a sua tarefa.

3º o DT informa os colegas das disciplinas cujos alunos ultrapassaram faltas que terão de realizar tarefas para os alunos recuperarem as faltas.

4º O DT informa os Encarregados de Educação da tarefa que os alunos terão de realizar para suprir a(s) falta(s).

5º o DT recebe a tarefa e leva para a biblioteca. Anexa-lhe a data em que fica disponível na biblioteca e procura o(s) aluno(s) para o(s) informar que já pode realizar a tarefa.

6º o DT desloca-se várias vezes à biblioteca para verificar as tarefas cumpridas. Muitas ainda lá estão porque os alunos não se dão ao trabalho de sequer lá passar.

7º quando finalmente o DTA consegue trazer consigo uma tarefa realizada, toma nota da recuperação e verifica as faltas àquela disciplina novamente. No período entre o DT tomar nota da falta, avisar o professor da tarefa, o professor realizar a tarefa e o DT  levar a tarefa para a biblioteca, o aluno já tem mais cinco faltas e já está tudo desatualizado! É o desespero multiplicado por 20 alunos, 13 disciplinas e por “N” módulos!

Quando vamos ter com os nossos colegas pedir novas fichas já nos vêm com quatro pedras na mão! Começam por dizer que já fizeram, que têm testes para corrigir, que não têm só a nossa turma…

O DT regista as participações disciplinares e dá conhecimento aos Encarregados de Educação (quando nos atendem o telefone).

Recebe os Encarregados de Educação na hora de atendimento ou fora dela.

Realiza 3 reuniões de Encarregados de Educação no 1º período, sem considerar a de entrega dos registos de avaliação.

O DT reúne nos corredores, gabinetes e outros espaços escolares com os membros da Direção ou da equipa da disciplina, por forma a minimizar comportamentos desviantes que ocorrem na escola. Deixa de ter agenda própria e vida pessoal. Trabalha 12 horas na escola diariamente, sem contar com a preparação das aulas que faz depois do jantar.

Tem sempre o trabalho atrasado porque é impossível realizar tudo o que tem para fazer nos dois tempos que lhes são dados para o cargo, nem juntando as horas da direção de curso!

Muitas vezes procura locais de estágio, vai aos locais de estágio, tem reuniões de preparação do estágio, visita os alunos em estágio e ajuda os alunos a realizarem o relatório de estágio.

No final do estágio fica a faltar a reunião. Novamente uma atualização de faltas ao pormenor. Fichas de avaliação para os alunos. Uma pauta para o sistema, outra pauta Excel porque o programa da escola não serve para estes cursos e muito, muito tempo perdido.

Agradeço aqui do fundo do coração aos colegas que nestes dias me deram a mão porque não há dias com 24 horas que cheguem para tanta burocracia! E porque foi graças a eles que chegámos ao fim do ano com 63% de alunos aprovados! Um grande sucesso, depois de um ano extenuante!

Porque todo este sacrifício teria que ter um final feliz também para a DT, este ano voltei a casa na condição de QZP e estou numa escola só com ensino regular. As aulas ainda nem começaram, mas acho que me vou sentir de férias o ano todo!

Susana Paixão Dinis

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7 COMENTÁRIOS

  1. É verdade mas os restantes professores da turma têm que cooperar, pelo menos na questão das faltas! Os professores da turma têm que estar atentos às faltas e saber quando é ultrapassado os 10 % e avisar o DT.
    O DT não é o pau para toda a obra! Os colegas não se podem borrifar e só pensar nas aulinhas que têm para dar.

  2. Como compreendo cada palavra. Dois tempos é certamente insuficiente para a burocracia de um vocacional. Felizmente acabaram-se os vocacionais.

  3. Se serve de consolo, levei 10 anos a levar com esse tipo de “programas”, não como contratada, mas como docente do quadro, com 40 anos de serviço, por não alinhar nas mafiosices de um excremento de diretor, como castigo … vocacionais e PIEFs … só faltou ser DT, mas cargos era coisa que o dito também não me atribuía … o castigo incluíu o afastamento de tudo que fosse cargo … o que, diga-se de passagem, agradeci caladinha, não fosse o energúmeno desconfiar!!! De qualquer forma nunca me escusei a colaborar com a respetiva DT … profissionalismo acima de tudo!!! Se lamento???? Nem por isso … são sempre mais valias, quanto mais não seja!!!!

  4. Sempre defendi que o trabalho administrativo não é trabalho do professor. Porém, pelo relato feito só posso concluir que essa escola anda a dormir: com os recursos tecnológicos hoje existentes, todas as tarefas descritas podem ser automatizadas, ficando para os profs e DT a gestão dos dados. A Escola tem que se posicionar no séc. XXI.

  5. É verdade que a vida dos professores não está fácil . Todos trabalhamos, para além do nosso horário . É urgente olharem, para nos e valorizarem o nosso empenho . Mas a forma, como a colega fala dos vocacionais e dos seus alunos é muito negativa e mostra o porquê de alguns alunos não gostarem da escola. Há professores e professores. Esta docente pecou nas palavras com que descreve os seus alunos. Não podem existir mentalidades como esta na escola inclusiva, mas infelizmente há e não são poucos. Os alunos não podem ser culpabilizados, pela forma como os professores são destratados, pelo poder político . Há que criar as condições nas escolas, para um trabalho digno, para professores e alunos.

  6. À custa de uma situação igual que vim para casa com síndrome de burnout. Agradeço sinceramente à colega Rosalina que me substituiu e agarrou com sucesso a turma do vocacional!!

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