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Telemóvel: intruso ou convidado?

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Em 1991, chegou a Portugal o primeiro telemóvel que, desde então, tem sofrido uma evolução apreciável, não só em relação ao tamanho e formato, mas também às funcionalidades que oferece, cada vez mais diversificadas. Quem não se lembra do saudoso “tijolo” que os privilegiados, de então, traziam ao ombro para fazerem chamadas de um qualquer local com rede? Admirável, para a época, pertença dos mais abastados e invejado por uma imensa maioria, passados todos esses anos, tão brilhante instrumento suscita boas risadas em face do seu congénere atual.

Hoje em dia, acessível a todos, crianças, jovens, adultos, seniores… quem não possui um (ou mais) telemóvel? Atribuindo-lhe destino diversificado, consoante o género, a idade, o interesse e/ou motivação, todos os utilizadores o estimam, potenciando-o com eficácia e eficiência, substituindo-o rapidamente pela última versão, capaz ainda de surpreender. As operadoras móveis propiciam esta tendencial dependência, disponibilizando, competitivamente, melhores serviços a preços mais atrativos.

E, de há uns tempos a esta parte, não percebemos que os telemóveis não são só usados para os jovens estudantes jogarem, mas também podem ter interesses pedagógicos… ou não. Mais recentemente, parece passar despercebido à generalidade da opinião pública que podem ser igualmente utilizados pelos jovens estudantes numa vertente pedagógica, a par da finalidade lúdica que os atrai sobremaneira.

Emerge, assim, o debate sobre o uso (ou não) do telemóvel na sala de aula, que toma conta da agenda mediática, com opiniões distintas, todavia pertinentes, merecedoras de uma reflexão mais aprofundada, de que este artigo é humilde contributo.

A escola não deve assumir um lugar na retaguarda da evolução da sociedade e, neste caso concreto, tal é o facto: o que esta permite (em exagero), aquela proíbe.

Mas não se julgue ser fácil a solução para um transtorno que persiste em muitas salas de aula: o uso/utilização desadequado/a do telemóvel. Na minha opinião, assume-se como um problema, porque é proibido centralmente (lei acima referida), proibição essa reforçada na esmagadora maioria dos regulamentos internos das instituições educativas, quer públicas quer privadas.

Existem professores que já não prescindem deste instrumento de trabalho nas suas aulas, incentivando o seu uso, assim como o de outros equipamentos, programas, aplicações informáticas e demais dispositivos móveis.

Não é aconselhável uma posição extremada na resolução desta questão, que deve ser ponderada por cada docente, tendo em atenção a especificidade da sua disciplina, os alunos (o público-alvo), as matérias a lecionar e a sua liberdade enquanto mestre, o principal dos fatores a ter em conta.

Reconheçamos que a distração associada ao (mau) uso do telemóvel é largamente superada pela motivação que gera nos nossos alunos, testemunhada na melhoria nos resultados escolares adstritos a esta inovação no processo de ensino e aprendizagem e até na relação de menor conflitualidade com o professor. Presentemente, o telemóvel na sala de aula ainda é o fruto proibido, pelo senso comum, o mais apetecido…

Os mais novos, também os adultos, passam demasiado tempo com e ao telemóvel, alimentando dependências patológicas. Urge sensibilizar para uma utilização responsável, no sentido de uma literacia digital consciente. Pessoalmente, reprovo o seu uso abusivo, mais ainda quando em convívio social (em família, com amigos, etc.) e a título de exemplo, nos restaurante em que o tempo para o outro é desperdiçado “agarrado” à tecnologia, sendo, de igual modo, apologista da sua limitação nos recreios das escolas, onde o aparelho tirano furtou algumas das brincadeiras e jogos tradicionais às nossas crianças e jovens.

Saibamos usar o telemóvel na sala de aula como um instrumento de trabalho útil, potenciador de aprendizagens com significado, cuja admissibilidade está unicamente (ou não) dependente de cada professor. Os alunos, certamente, compreenderão e a conflitualidade relacionada com o aparelho, naturalmente, decrescerá, atingindo valores residuais.

Filinto Lima

* PROFESSOR/PRESIDENTE DA ANDAEP

In Jornal de Notícias, 27-12-2017

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