Sociedade


Carta aberta aos conselhos gerais: sejam democratas! Não reconduzam diretores! (II) 2

Podia dizer que a legislação que gera as reconduções de diretores é fruto de uma ideia de vigararia, um termo que, pela proximidade com vigarice, alguns dirão forte, especialmente se dirigido a essa figura veneranda que é o legislador.

Mas não é o que estão a pensar. Não que tenha problemas com a perspetiva de um processo, mas vigarice, no sentido de coisa pouco clara, nem sequer se aplica aqui.

A recondução de diretores sem eleições é legal, nos termos da lei de autonomia (não juraria o mesmo, se alguém questionasse a sua conformidade à Constituição e à Lei de Bases, mas agora já se vai tarde).

É, aliás, bem claro o que se fez na produção da Lei: a palavra aplicável é mesmo vigararia.

O Ministério (nomeadamente no tempo de Maria de Lurdes e Nuno Crato) assumiu os diretores como seus vigários nas escolas. Chegaram até ao ponto de lhes chamar os rostos das escolas (já muitas vezes lembrei o quanto essa expressão tem de salazarista).

E até foi criado, em tempos lurdistas, um órgão do ministério que se chama conselho das escolas, mas que só tem diretores. O “chefe” representa e unifica o coletivo: um primor de ideia democrática.

Para quem manda no centro macrocéfalo do país, os diretores são os garantes de que o que se passa nas escolas não cai em autonomias excessivas. Daí que sejam eleitos pelo Conselho Geral, e não por corpos eleitorais alargados, e que possam ser demitidos quase por apetite do Governo.

Mas, para sossegar ainda mais os bons servidores, sem dar muito nas vistas, criou-se a possibilidade de recondução, para evitar as incómodas e perturbadoras eleições.

E, curiosamente, os feitores da lei, que tanto enchem a boca com o mérito e a importância da formação, esbarraram com outro problema.

Na sua Lei, para se ser diretor de escolas passou a ser obrigatório fazer um curso de formação específica. E o legislador deu tanta importância a isso que até estipulou que, se numa eleição houver candidatos com formação, a sua presença exclui automaticamente os que não têm. Quem ler isto, fica a julgar que, realmente, levaram o assunto a peito.

Mas, desenganem-se, nas normas transitórias, permitiram, até 2014/15, candidaturas, mesmo de gente sem o tal curso e, para as reconduções, é permitido não o ter.

Logo, o regime transitório que permite dispensa de formação (numa lei feita para proibir diretores sem curso específico) vai durar muito e fará com que só uma década depois a lei entre realmente em vigor.

Fascinante o que leis feitas num sentido permitem, “transitoriamente”, no sentido contrário, quando se trata de facilitar a vida a quem está instalado.

Até poderia ser aceitável que diretores sem formação tivessem um período transitório, para se adaptarem e estudarem (o 1º mandato da nova lei, por exemplo).

Mas, o efeito das exceções transitórias acumuladas, e que a DGAE vem lembrar aqui (em mais um exemplo do seu, sempre edificante, “direito circulatório”) sossega os que ficassem assustados com essa perspectiva.

É que o legislador obriga a um curso, mas a DGAE interpreta pela exceção para todos os que já estiverem em funções e até 2023 (os reconduzidos a 2º período de funções em 2019 que, se a lei atual continuar em vigor, e espera-se que não, podem ter mandato até aí). Como houve agregações em 2013, é possível.

Isto é, o legislador exige cursos para se ser diretor, e até exclui de eleições quem não os tiver. Mas a norma transitória, escondida nas normas introdutórias da republicação da lei, que a DGAE se esforça por lembrar, dispensa da exigência os diretores que sejam reconduzidos. E isto durante uns 11 anos após a entrada em vigor da norma exigente e restritiva.

Este legislador é um caso sério de desdobramento de personalidade: proíbe diretores eleitos sem curso específico, a partir de agosto de 2015, mas permite reconduzir, sem eleições, gestores sem curso até 2023.

E diretores reconduzidos sem curso podem afastar sem dificuldade potenciais eleitos habilitados: havendo recondução, nem há eleições a que se candidatarem.

Por isso, o apelo aos conselhos gerais: se reconduzirem um diretor sem curso para tal (como parece que podem legalmente), impedem um qualquer candidato habilitado (ou não) de sequer se candidatar.

Reconduzir é proibir eleições. Um democrata não deve proibir eleições, se elas se podem fazer.

Reconduzir, prejudica a democracia escolar; não reconduzir, não prejudica ninguém.

Conselhos Gerais democratas não podem reconduzir.

E a afirmação de uma posição de princípio deste tipo, no fim de contas, não prejudica ninguém.

O não reconduzido, se preencher os requisitos para tal, pode candidatar-se às eleições e, por isso, ninguém fica afastado do seu direito fundamental de aceder a funções públicas. O mesmo não se pode dizer do efeito da recondução que impede qualquer outra candidatura.

E isto das reconduções será mesmo constitucional? E não bastará cada um agir como democrata?

Na altura em que a lei saiu, alguém, que tivesse poder para isso, devia ter pedido a verificação da sua constitucionalidade, por causa desse efeito das reconduções. Quem tinha esse dever constitucional, estava a fazer notas em cadernos azuis, para editar livros sobre certos dias da semana, no intervalo de apreciar sorrisos de vacas.

Mas quem, num conselho geral, seja democrata, e acredite no princípio eleitoral subjacente à democracia, não precisa de fazer mais nada senão usar a sua liberdade individual de exercício do mandato: recusar reconduções. Nem precisa de fundamentar muito.

Se lha propuserem, pode votar contra e argumentar que, mesmo que o diretor, cuja recondução for proposta, seja muito bom, essa alta qualidade se evidenciará na comparação com outros candidatos que apareçam. Se é assim tão bom (e ainda que seja mesmo), essa qualidade ver-se-á, indo a votos porque em democracia não há lugares cativos.

Se os conselhos gerais usarem o seu largo poder discricionário e não reconduzirem ninguém, obrigando sempre a eleições, os não reconduzidos, que quiserem, podem, mesmo assim, candidatar-se às eleições.

Se não aparecer outro candidato, parabéns, ficam eleitos (o que tem mais valor, mesmo para o indivíduo, do que se for reconduzido).

Se aparecer outro candidato, é votado e pode ganhar, ou perder, na comparação. Se o não reconduzido for mesmo bom ganhará, com certeza, e sempre tem a vantagem de partida de que quem o elege já o conheceu 4 anos (ou mais) e a(s) alternativa (s) não serão (tão) conhecidas.

Se o diretor não tiver formação e, por isso, for excluído de eleições, pelo aparecimento de um candidato habilitado, apetece dizer: estudasses!!!

Dito que até faz sentido numa escola, certo?

E imaginem que, no próximo ano, dispensávamos as eleições autárquicas, por conta de um mecanismo assim, de recondução. Achavam bem?

Para ler a 1ª parte, carregue aqui


Carta aberta aos conselhos gerais: sejam democratas! Não reconduzam diretores! (I) 8

Este ano vai discutir-se bastante a questão da democracia nas escolas. Há propostas em discussão no parlamento, secundadas por ideias dos sindicatos, para mudar o estado cadavérico a que a democracia escolar chegou. Podemos teorizar imenso sobre democracia, mas, mesmo na sua forma mais atómica e depurada, democracia é voto, democracia são eleições.

O debate sobre este tema interessa muito pouco a muita gente que devia ter atenção por ele.

Perdoe-se a analogia, mas muitos dos que se queixam dos problemas nas escolas e querem soluções e acham desinteressante falar dos modelos de gestão, estão como os que têm um carro que deita fumo a mais e acham que o problema não é do motor….

Quem está num conselho geral (porque se candidatou e foi eleito) não pode contudo invocar que este assunto não é consigo. Na verdade, a gestão de cada escola depende de si como membro de um órgão de gestão. Embora não pareça, o Conselho Geral é, no contexto atual, o mais importante dos órgãos que há nas escolas. Daí escrever este texto (e o seguinte), em especial, para esses.

A mensagem aos membros dos conselhos gerais dos agrupamentos (em especial destinada aos que tenham diretores em fim de mandato) é esta: reforcem, com a sua ação, esta ideia – democracia é eleger, democracia é votar.

Por isso, façam eleições e recusem liminarmente as reconduções de diretores.

Os órgãos centrais do ministério podem empurrar insidiosamente, com as suas circulares, para esse caminho das reconduções (com a desculpa de que é da lei”), mas a lei não manda reconduzir (apenas o permite, não o impõe). E, digo eu, se a lei o permite, é mau que seja assim porque é antidemocrático.

Se as instituições de controle do país funcionassem no devido tempo creio que esse ponto da lei teria dificuldade em passar o crivo da constitucionalidade.

Uma nomeação (e uma recondução, é realmente isso e não é comparável a uma eleição) não tem o mesmo valor de legitimidade de base que uma eleição verdadeira.

A nossa Constituição e a Lei de Bases requerem que as escolas sejam dirigidas democraticamente e que os seus órgãos de gestão sejam eleitos (para ser democrático).

Assim, o Conselho Geral, embora tenha membros cooptados, é, na sua maioria, constituído por eleitos. O Diretor é eleito pelo Conselho Geral. Era o mínimo porque, mesmo indireta, é uma eleição e, só por ser eleição, é que a lei “lurdista” de autonomia das escolas ainda pôde passar no crivo constitucional.

Os legisladores da gestão e autonomia de 2008 e o de 2012 queriam diretores nomeados, mas esbarraram nessa dificuldade: o diretor tem, por via de outras leis de valor reforçado, que ser eleito.

Como o legislador só tinha casca de democrata, em ambos os casos (curiosamente os ministros eram gente com histórias pessoais de extrema-esquerda, que guinaram à direita periférica em curva apertada) tentou tornear a exigência de eleições e manipular o processo, evitando reviravoltas eleitorais.

Isso vê-se na lei em vários pontos. Entre eles: o absurdo procedimento concursal prévio à eleição (uma coisa nunca vista, e que nunca mais se verá, porque foi uma invencionice de quem realmente queria um concurso e acabou por ter de encaixar eleições) ou a eleição ser feita por um microuniverso de eleitores de legitimidade curta e indireta.

A recondução: uma batota anti-democrática

O pior de tudo é a introdução da possibilidade de recondução no final do mandato eletivo.

Conhecem algum presidente de junta ou de câmara, ou qualquer outro cargo que tenha de ser eleito, que tenha sido reconduzido sem haver novas eleições?

Imaginem que, na próxima mudança da lei eleitoral, alguém se lembrava de dizer que, após o 1º mandato, o presidente da câmara podia conseguir ser dispensado de novas eleições e do confronto com candidatos alternativos por uma simples votação maioritária da assembleia de freguesia ou municipal.

Continuava em funções mais um mandato e não havia novas eleições.

O que não seria por esse país fora! Desde acusações de fascismo e de regresso à ditadura, o que não seria a banda sonora do rasgar de vestes de tanto democrata encartado em defesa da democracia local.

Nas escolas, a mesma habilidade manhosa passou, por entre as frinchas da lei, e a recondução pode ser regra. Calculo que, por esta altura, num número muito elevado de diretores nem se pode, em rigor, dizer que estão a exercer um mandato eletivo.

Ser reconduzido não é ser eleito. Ser eleito implica, pelo menos, a possibilidade de haver candidatos alternativos. Ainda que mais ninguém se candidate.

A recondução é a proibição de eleições porque impede a possibilidade de candidaturas alternativas. Uma recondução não é realmente uma eleição.

Aliás, conhecem alguma função eletiva em Portugal que tenha um período de 8 anos de funções sem ser submetida à possibilidade de candidaturas alternativas?

Se eu fosse presidente de conselho geral (e, por pensar coisas destas, é que ninguém me quereria para essa função), neste momento estaria a perguntar à DGAE pela legalidade efetiva da sua informação sobre este assunto e estaria a convencer o Conselho Geral da inconstitucionalidade da recondução (em suma, colocaria “paus na engrenagem”).

Mas não é preciso tanta elaboração de conceitos e chegar à questão da inconstitucionalidade.

Basta pensar assim: “sou pela democracia escolar e voto contra processos que a prejudiquem (e violem).”

Muitos meus ex-colegas diretores vão ficar zangados comigo por dizer e propor isto. Mas, se forem mesmo democratas, não ficarão, porque eu explico. E quem me conhece sabe que, já no tempo em que fui diretor era contra as reconduções. Fui, aliás, contra a lei que criou os diretores (mesmo tendo exercido a função) e defendi limitações de mandatos mais estritas.

Alguns, que gostam de procurar as supostas incoerências dos outros, raras vezes me atacam com essas oposições, embora gostem de mostrar um texto em que parece que defendi concursos para escolher diretores, sem perceberem a ironia que está por trás do texto (“se não querem fazer realmente eleições à séria então assumam com seriedade que são contra elas e não sejam manhosos e dissimulados”, era o convite mordaz do texto porque isso simplifica o trabalho de quem defende eleições; mas este não é um país para ironias).

É, muitas vezes, um país em que muitos se queixam da falta de democracia e de amordaçamento, mas quando têm o encargo de decidir ao lado da democracia, esquecem a alternativa.

Assim, os membros de conselho geral, que tenham de decidir uma recondução, têm 2 caminhos:

ou, são democratas de princípio e recusam fazer a recondução, obrigando a eleições, com possibilidade de outras candidaturas (mesmo no ambiente limitado do conselho),

ou aceitam a doutrina protofascista do “rosto da escola” e reconduzem.

Mesmo que o reconduzido ou reconduzida sejam estimáveis, o ato é democraticamente censurável.

Se o reconduzido for fraco e só o fizerem em nome da sempre invocada “estabilidade” ou do receio, o ato é quase criminoso.

Afinal onde já se viu eleitos renovarem mandatos, sem novas eleições e sem possibilidade de oposição?

E, para mais, escandalosamente, com requisitos mais suaves e leves do que os que teriam de cumprir se fossem a eleições (ninguém pode ir a votos, em eleições, sem curso ou formação específica em gestão escolar, mas pode reconduzir-se gente, que quer continuar diretor, mas nem se deu ao trabalho de estudar para isso.)

Mas isso é assunto de que se falará a seguir, amanhã, na segunda parte da carta. (continua)


Assistentes operacionais: salário mínimo em troca de uma facada?

Fui diretor 6 anos de uma escola que não era fácil. Um dia, andava a circular na escola um conhecido pequeno traficante, que já tinha sido nosso aluno. Tive de, pessoalmente e com ajuda de outras pessoas (assistentes operacionais), o retirar do recinto escolar, o que me valeu uns quantos pontapés e ameaças sobre o meu futuro por parte do pequeno meliante (pequeno em categoria, que não em tamanho).

Quando fui apurar responsabilidades, consideravelmente irritado (e, quem me conhece, sabe como me transfiguro na minha face colérica), por não o terem barrado à porta, umas das então auxiliares (hoje assistentes operacionais) respondeu-me, muito calma, com graça e ironia certeira:

“mas acha que o salário mínimo, vale o risco de levar uma facada?”

E o risco da naifada era real e não meramente abstrato. Percebi o toque.

Realmente o desgaste, e até o risco, desses profissionais merece mais compensação. Muitas vezes, eles próprios caem nas armadilhas de pequenas lutas pontuais sobre coisas laterais (o horariozinho; a escalazinha de serviço, nas interrupções letivas, para dar algum descanso; a trica para trocar de local de trabalho, mudando para melhor, em prejuízo do colega, etc.). São condicionantes do quotidiano que, muitas vezes, prevalecem sobre questões mais profundas de solidariedade, dignidade salarial e valorização profissional.

Este ano o salário mínimo foi aumentado, o que é ótimo para quem o ganhava.

E os que já ganhavam pouco mais que o valor atual do salário mínimo e há 10 anos não têm aumento nenhum?

Se são assim tão essenciais, porque é que o seu trabalho vale para o “patrão” cada vez menos dinheiro ? (ganhar o mesmo, ano a ano, é ganhar menos, pelo menos, por causa da inflação).

Valorização implica esforço de quem dirige

Quem já geriu escolas, sabe como é complexo gerir essas relações laborais. É um grupo cheio de diversidade e que, com risco de desagradar a muitos diretores, se tem de afirmar que exige aos gestores muito mais formação (que genericamente existe pouco, até porque elevado número de diretores, eleitos e reeleitos com base na “experiência” de bons burocratas, nunca realmente estudaram para o ser e para alargar horizontes em relação à “escolinha”, onde lhes calhou serem dirigentes).

E saliento que os “cursos de aviário” ou “vão de escada” e os mestrados por reconhecimento de experiência não resolvem isso, mesmo se, quem dirige o sistema possa achar o contrário, e se deixe iludir (até porque “bons burocratas” são mais conformistas).

E tal exigência de mais formação a quem gere é tanto mais forte, quanto o grupo do pessoal não docente tem baixa escolaridade, em média (mas inclui contingentes com formação muito desigual, incluindo até licenciados) e sofre de precariedade e baixos salários. Gerir a insatisfação e o desânimo é sempre difícil, especialmente para quem acredite em teorias de gestão mitológicas, falsas mas populares, como a “motivação” ou “a unidade para vestir a camisola”.

Em muitas escolas, a oferta de soluções para os problemas, por parte dos órgãos de gestão, limita-se a lógicas de compadrio e de quase feudalismo de vassalagem (aliás, a relação entre a durabilidade de alguns diretores, em mandatos sucessivos, e a forma como gerem estas relações laborais, merecia ser estudada e o retrato entrevê-se pouco abonatório).

Assistentes operacionais: a primeira linha de ação e resposta aos alunos

Mas estes profissionais são essenciais. Num tempo em que se fala tanto de indisciplina e bullying e outras formas de violência, eles são a primeira linha nesses combates. Muitas vezes são os que os alunos procuram primeiro, sendo os primeiros a conhecer a sua raiva, desilusão, tristeza ou depressão.

Mal pagos, têm, muitas vezes, de confiar apenas no instinto natural para resolver e ouvir os alunos, até pela falta de esforço público em dar-lhes formação (e um dos motivos parece ser a vontade, não assumida, pois claro, de manter as lógicas de subordinação e de dominação de que são vítimas).

Podia contar-vos a história da senhora, a quem se propôs formação, que ela queria fazer. Tinha problemas em aceitar o horário e, só à terceira conversa, confessou que era porque o marido não a deixava sair à noite, ou, a outra, que queria trocar de horário porque o “seu menino” precisava que ela lhe fizesse a sandes para comer ao jantar e ir trabalhar. Imaginem a surpresa quando se apurou que o menino era um marmanjão, antigo aluno nosso, com 17 anos, mas que parasitava a mãe e não tinha habilidade para abrir um pão e meter lá dentro alguma coisa comestível.

Parece uma imagem miserabilista e a realidade é que existem histórias de vida tocantes de comoventes entre estas pessoas de biografia dura.

O poder que subordina e a injustiça salarial

Um dos momentos mais marcantes da minha experiência profissional e de aumento do meu conhecimento do que é estrutural numa escola foi obtido junto de um grupo destes profissionais a quem dei formação há 15 anos (na verdade destas, porque o grupo eram só mulheres).

O que fiquei a saber sobre redes informais de poder nas escolas, sobre o que os “outros” pensam dos professores e qual a imagem e ações que valorizam nos professores e o que criticam, foi-me muito útil. Valeu-me para perceber que a visão de professores sobre a escola é realmente limitada e pouco abrangente de todas as subtilezas do que se passa.

Nas eleições para os órgãos das escolas fala-se muito em “corpos eleitorais”. Portugal, felizmente, não teve um corporativismo pleno como se tentou na Itália Fascista, mas somos um povo muito corporativo na sua prática política e de administração. Daí esta obsessão com a representação dos corpos (que está bem distante de uma democracia plena).

No caso das escolas, esse corporativismo que, no caso dos professores, por vezes encerra um lado elitista (em que os professores agem como suposta elite), faz com que o contributo dos assistentes operacionais não seja realmente valorizado, sejam pouco ouvidos, pouco considerados e até desrespeitados (por exemplo, por alunos, à vista de professores, que, tantas vezes, se abstêm de ajudar).

Isto, apesar de tantos discursos a proclamar gongoricamente a sua importância, numa contradição que deve chocar e desanimar, quem é tão mal pago e, há quase uma década, com salários congelados, perdeu o direito a uma ideia de carreira e progresso na profissão.

Este ano o salário mínimo foi aumentado, o que é ótimo para quem o ganhava.

E os que já ganhavam pouco mais que o valor atual do salário mínimo e há 10 anos não têm aumento nenhum?

Se são assim tão essenciais, porque é que o seu trabalho vale para o patrão cada vez menos dinheiro ?


Saga noticiosa destes dias: vinculo, vinculas, vincularás?

A grande saga da vinculação de professores prossegue.É ridículo como estas coisas são feitas: ora vincularão com uns anos, umas vezes mais, outras menos; ora este ano, ora no próximo; ora precisam de um ano inteiro deste ano, ora de vários seguidos, ora aumenta, ora diminui.

Tanto adjunto nos gabinetes do ministro e secretários de estado e não há ninguém que lhes explique que a ação comunicacional está a ser uma m….. neste assunto?
A credibilidade do Estado vai às ruas da amargura com esta produção de decisões a olhómetro e com a aparência de encenação atamancada de um mau espectáculo, que só ajuda a angustiar mais os que têm a vida dependente dessas coreografias político-sindicais.

Hoje, o ministro veio dizer que vai vincular milhares. Não sabe, ou não diz, quantos (regra um da comunicação política: evitar falar se nada se tem a dizer e, o que disse, já se sabia). Dá a ideia de que falou só porque lhe puseram um micro na frente.

Imaginem que o Ministro das Finanças vinha anunciar grande descida de impostos mas não dizia quanto nem por aproximação…Trucidavam-no. No setor da educação vale tudo e as regras da política séria valem pouco.

Notícias sobre isto na SIC e no Sol, por exemplo. Há pouco, apareceu nova confirmação do que já se sabia: vai haver negociação suplementar e o assunto ainda vai rebolar mais um pouco.

Entretanto, como uma reportagem do fim de semana na SIC mostrou, continua muita gente a sofrer com o problema dos professores contratados deslocados (e vai continuar a sofrer, já que nem toda a gente que faz falta ao sistema vai ser vinculada ou, mesmo que isso acontecesse, continuariam deslocados).

Direitos das mulheres e depois manuais escolares

Um tema aparentemente menos importante no agendamento do dia: coeducação e a questão da presença da religião na escola pública, a propósito da decisão do Tribunal Europeu dos DH que obrigou pais muçulmanos na Suíça a deixarem as filhas ir à piscina. Comentário a merecer leitura de Fernanda Câncio no DN.

O tema tem interesse em Portugal e vivi-o na questão da frequência da escola por meninas ciganas (que não tem a ver com questões religiosas, mas com um certo posicionamento, por alguns setores dessa comunidade, em relação aos direitos da mulher).
Será que em Portugal o Estado lutaria pelos direitos das mulheres como aconteceu neste caso? (Duvido que a falta de coragem de alguns servidores do nosso Estado fosse tão longe na defesa de direitos, que nem deviam discutir-se).

A grande questão destes dias foram, contudo, os manuais escolares.

Manuais escolares: 1º round – RTP

A RTP apresentou uma reportagem (fraquinha) no Sexta às nove (o programa já fez muito melhor, mesmo em educação).
A confusão, constante no texto da peça, entre os livros amostra para escolha de manual (que são os chamados livros de professor que os alunos não podem usar) e os manuais dos alunos, usados ao longo do ano, é chocante pelo mau resultado de perceção que gera (e pelo que mostra de falta de cuidado na investigação).
O debate, no Sexta às 11 (na RTP3) mostrou as fragilidades da peça (em especial, graças à, sempre sintética e clarividente, intervenção do Paulo Guinote).

Manuais escolares: 2º round – TVI

Ontem, a TVI arrancou com uma série de 2 reportagens sobre o mesmo assunto (que andava a ser preparada desde Novembro, pelo menos) com um título ilustrativo sobre o negócio dos manuais escolares.
Esta reportagem da TVI foi, pelo que se viu na 1ª parte, muito mais sólida na construção e investigação (Alexandra Borges mostra mais uma vez o seu profissionalismo e acutilância).
Momento alto: a confrontação dos donos das editoras com livros iguais de capa diferente e o ar atrapalhado, de quem fica com a careca à mostra, com a revelação nacional do truque dos ISBN.
Momento menos positivo: a cena repetida das colegas professoras, na escola, a apagar manuais escritos a lápis. O custo hora de um professor para fazer aquele serviço é capaz de ser excessivo…. 2 ou 3 horas semanais de 2 professoras de borracha na mão dá uns quantos manuais.  A fazer assim, realmente, não haverá poupança.

Pecadilhos e comentários

Alguns professores poderão ficar zangados por se ter falado na peça de uns pecadilhos nos processos de adoção (não é aí que está o problema mais fundo e são casos pontuais, que, mais que desonestos, mostram como as editoras tendem a violar os princípios da concorrrência e a conspurcar nisso alguns das escolas).

A verdade é que o tom geral da peça acabou por mostrar (ao contrário da da RTP) que o problema está nas editoras, e no seu negócio milionário, em ambiente protegido não concorrencial (com abstenção reguladora do Estado) e não nos professores e na sua forma de atuar em geral. Como o Guinote destacou com precisão na sexta-feira na RTP, de forma que prescindo de repetir.

Nota pessoal: participei uns segundos na reportagem da TVI, porque respondi a uma mensagem em que a jornalista pedia ajuda e tive uma longa conversa, em que respondi ao que me perguntaram, de que a jornalista aproveitou (e bem) o que entendeu.
Nunca me arrependi de colaborar com jornalistas. Hoje, tive uma maioria de comentários simpáticos (entre outros, dos meus alunos que festejaram ver-me no quadrado, com a generosidade de quem gosta de nós, sem duvidar).

Os 2 ou 3 antipáticos anónimos são gente que me diz coisas no género da “gestão de comunicação à soviética”: “o que disseste é mesmo verdade mas podias não ter confirmado que é assim” ou “cala-te pá que sabes o que dizes mas é inconveniente”.

Os comentários sobre a minha falecida mãe, por conta de ser minha progenitora, nem merecem outro registo, além de que são sintomas de que Trump e os seus trolls têm muita companhia, que se julga ilustre…..

Manuais escolares 3º Round….hoje na TVI

Como disse, respondi ao que me perguntaram, e o facto curioso da peça, é que, a dada altura, é o próprio responsável de uma editora que confirma: há escolas que recebem ofertas para a escola (ele até disse para os órgãos….mas expressou-se mal, claramente) por conta do sentido das suas adoções de manuais.

Hoje, a reportagem segue para um âmbito mais vasto e penso que teremos revelações interessantes sobre a questão macro do mercado dos livros e do papel do estado e dos governantes.

É pelo menos o que promete a promoção. Veremos daqui a pouco, uma meia hora depois das 20.


Notícias de resistência no ensino da história….

A notícia do dia é hoje uma só. Nem vale a pena tentarmos desfocar do ponto de fuga único da atenção noticiosa.

Nos momentos emocionais é normal em Portugal cair-se no carpir e no exagero.

Mário Soares foi o tema do dia numa monocultura noticiosa que resulta do excesso barroco do direto, em que se tem sempre de falar, mesmo que nada haja para dizer.

Ou, em que não se entende que o simbolismo cénico silencioso das imagens vale mais, sem comentários desconexos.

E este comentário às notícias do dia fica aqui, sem desvalorizar. Antes pelo contrário merecia mais qualidade das notícias a pessoa, o democrata e o político com sentido da História e apaixonado pela sua leitura e estudo.

Histórias de resistente

Da sua biografia, aliás, escolho aqui referências aos pontos de maior risco e maior rasgo, destacando das notícias de hoje os temas que o próprio mais valorizava com orgulho.

Ser resistente e político num tempo, antes da Democracia, em que, sê-lo, só dava como prémio a cadeia. Ou a alternativa do perigo físico e, até, da vida, para si e para a família.

Fica assim só a remissão para uma notícia do DN em que se recorda o percurso de resistência. Mário Soares chegou a ser prisioneiro de consciência adoptado a nível mundial pela Amnistia Internacional (estatuto que a organização só atribui a alguém que resiste à opressão sem violência e é perseguido por isso). A notícia relata com detalhes o que foram o exílio e a deportação e essa coragem vale, sem mais nada, as honras de Estado.

E, nesse percurso de ativismo pela liberdade, foi reconhecido também pela sua luta pela defesa de outros, como advogado, e pela divulgação internacional arriscada das violações de Direitos Humanos no país e nas atuais ex-colónias, nos anos 60 e inícios de 70.

No final dos 90, foi, em Portugal, já depois de ser chefe de Estado,  Presidente da Comissão de comemorações dos 50 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e da Década da educação para os Direitos Humanos da ONU. Nessa sua função contribuiu para um impulso forte (e que agora bem precisava de ser renovado) para se produzirem materiais e elementos curriculares nesse campo que, ainda hoje, quase 20 anos depois, são úteis.

O lugar na História ensinada

Curiosamente um assunto (a educação cívica e da memória democrática) que teve hoje destaque nas notícias sobre a sua morte. Destaque para uma muito interessante notícia do Público sobre o que se ensina (ou devia ensinar) de Mário Soares nas escolas. Jerónimo de Sousa falou disso também ao queixar-se da História dos vencedores (leia-se, a história que desvaloriza o papel do PCP).

A TSF fez uma peça engraçadíssima, com crianças de visita ao seu estúdio, a quem perguntaram sobre a figura do dia.

Vale a pena ler e ouvir as notícias, como pistas para um problema que é mais vasto: serão os nossos programas e tempos destinados à História ao longo da escolaridade, suficientes para se fazer alguma coisa de impacto na educação de democratas?

A notícia do Público conclui que não. O meu quotidiano de professor de História leva-me a dizer que as perspectivas futuras de melhoria são pessimistas.

Mas, como Mário Soares era realmente um optimista, talvez valha a pena, neste dia, ir ao básico mais fundamental e reler António Sérgio, que tanto estimava, e a sua obra Educação Cívica.

Talvez se ganhe ânimo, bebendo dessas utopias sobre o que “educar para a democracia” tem de prático, que não se realizarão, mas que estão muito longe do atual e paralisado estado de coisas.

Num tempo em que até já há eleições de associações de estudantes a serem convocadas pelos diretores das escolas (e não por auto-organização dos alunos) ou leio, com mágoa, pela estima à pessoa, a posição dos “diretor dos diretores” (presidente do conselho das escolas), no Público de hoje, sobre o manifesto para a democratização da gestão escolar, publicitado há uns dias, o tema da educação para a cidadania devia ser mais debatido nas discussões sobre escola.

Mário Soares acharia isso uma homenagem.

PS: No último caso, do presidente do Conselho de Escolas (melhor dito “dos diretores”), texto a que só tive acesso na edição em papel, mas que imaginam o que seja, a releitura de António Sérgio seria mesmo proveitosa para não soar tão mal, a desconversar sobre Democracia, mas havemos de voltar ao assunto.


2017… mais do mesmo ou um ano de viragem? 2

Hora de regressos, do até breve, de algumas lágrimas de quem não consegue conter a saudade que o preço da distância impõe, hora do regresso às rotinas, do regresso ao trabalho, com mais ou menos vontade…

2017 afigura-se um ano com muitos pontos de interrogação. O mundo vive em suspenso com a entrada do imprevisível e polémico Donald Trump, a Coreia ameaça com novo teste de míssil nuclear intercontinental, a sangria no mediterrânico continua, a ameaça do terrorismo que persiste como vimos ontem em Istambul, o planeta continua a sofrer com a nossa irresponsabilidade e alheamento do inevitável, refugiados aqui e ali, guerras por ali e por acolá, António Guterres terá de estar ao seu melhor nível numa missão que parece impossível…

Por cá, um Presidente da República que transpira confiança por todos os poros, um Primeiro-Ministro especialista em consensos, uma direita desorientada com o sucesso da “geringonça” e a esquerda mais à esquerda com vontade de estar fora mas sabe que tem de estar dentro…

Na Educação, teremos um ano marcado pelo sempre polémico concurso de professores, algo que infelizmente continua a ser demasiado relevante no panorama educativo e o facto de o ser, só revela que ainda tempos um longo caminho a percorrer…

Em 2017 poderemos assistir a alterações que a concretizarem-se poderão mudar muita coisa, algumas delas já são uma certeza, outras são apenas promessas, a saber:

  • alargamento da municipalização escolar;
  • a média de educação física voltará a contar para a média de acesso ao ensino superior;
  • redução da carga letiva, tudo aponta para o 1º ciclo e consequente valorização das expressões;
  • manuais gratuitos para todo o 1º ciclo;
  • definição do que é essencial nos programas curriculares e permitir uma maior flexibilização;
  • escola a tempo inteiro.

Mas 2017 também poderá/deveria ser o ano:

  • da alteração do modelo de eleição do diretor;
  • da redução do número de alunos por turma, dando liberdade às escolas para gerirem a sua dimensão;
  • de uma aposta séria na criação de equipas multidisciplinares para combater o problema da indisciplina;
  • da valorização da formação contínua dos professores, do fim dos congelamentos e na aposta de uma avaliação que permitisse corrigir vícios antigos;
  • da alteração/estabilização do calendário escolar;
  • da melhoria do ensino profissional;
  • da melhoria das infraestruturas escolares;
  • da reforma aos 40 anos de serviço sem penalizações;
  • da valorização, estabilização e qualidade/quantidade do corpo não docente.

E podia continuar, mas não quero vos maçar logo no primeiro artigo de 2017.

Pelo ComRegras, algumas novidades irão surgir e mais dados relevantes serão publicados ao longo de 2017.

Espero sinceramente que 2017 seja melhor que 2016, depende apenas de nós, de cada uma das nossas ações, individuais e coletivas. Não peço o impossível, peço apenas que possamos ser melhores pessoas do que fomos em 2016, afinal, são as nossas ações que nos definem…

Desejo-vos um excelente ano e deixo-vos com uma música de uma das melhores bandas de todos os tempos, com uma mensagem que todos devíamos ouvir…

(…)

One love
One blood
One life you got
To do what you should
One life
With each other
Sisters, brothers

One life
But we’re not the same
We get to carry each other
Carry each other

One… one

(…)


Banalidades ministeriais e lata de alguns deputados…

Isto até vai parecer um daqueles noticiários da RTP antes do 25 de Abril (nem no dia em que o homem foi à Lua deixaram de abrir com notícias de uma Excelência Governamental).O ministro da educação, hoje, decidiu falar de ensino profissional numa visita à Guarda. Não saiu das banalidades mais redondas e habituais: “importante ver como o ensino profissional é um dos pilares mais importantes da qualificação dos portugueses” ou “Nós temos um objetivo básico e fundamental: chegar a 2020 com 50% dos nossos alunos que concluem o ensino secundário através de vias profissionalizantes”. Falta saber se o valor do ensino profissional é só proclamado nestes momentos solenes, em banalidades, ou passa por real valorização dos profissionais, dos alunos e do conhecimento que lá se produz.

O ministro diz frases vagas, com que toda a gente concorda e, dos assuntos importantes, vem outros falar. Por exemplo, Carlos César fala da entrada de precários na função pública, lá para Outubro do próximo ano (assunto que muito interessa às escolas como todos sabemos).

Com uma lata desproporcionada e despudorada, uma deputada do CDS, diz o Correio da Manhã, quer reposicionar professores na carreira. O texto só se lê na edição em papel mas a imagem merece ser guardada para a posterioridade, com o riso largo da senhora deputada, que julga que nos faz de parvos (a proposta é só um rodriguinho parlamentar).

reposicionar-professores

Não sei porquê, lembrei-me de um aluno de uma escola onde dei aulas que partia retrovisores e amassava para-lamas de carros de professores, no parque na escola, porque candidamente queria ajudá-los, depois, encaminhando-os para o pai que era batechapas numa chafarrica vizinha.

Médias ou dissonâncias nos alunos por turma e na desvalorização

Outro assunto importante é a questão do número de alunos por turma, sobre o qual o Diário da República de sexta-feira publicou oficialmente um interessante documento do Conselho Nacional de Educação que vale a pena ler.

Quem for à página 34474, nas tabelas que lá estão, pode ficar, por exemplo, a saber dos desvios (contra o hábito geral de falar disto usando médias): no 1º ciclo, 17,5% das turmas tinham, em 2015/16, mais alunos que o máximo permitido (por exemplo, nas situações com alunos com necessidades educativas especiais). Sendo os limites máximos já excessivos, isto mostra como usar médias para decidir dá mau resultado. No 2º ciclo, 15,4% das turmas tinham alunos a mais. 12,9% no 3º ciclo. Cerca de 11% no ensino vocacional e 7,5% no Secundário.

Se a média é aparentemente baixa no todo nacional, desvios, com estas percentagens do total de turmas (e face a limites de número de alunos, que já são excessivos e deviam baixar), merecem atenção. Mas parece que a esquerda engavetou isto para Janeiro. Ou então vai ser como o reposicionamento da outra parlamentar de taxa arreganhada….

brinquinhoPela Madeira, hoje protestou-se com um concerto dissonante contra a “desvalorização e discriminação profissionais”.

Os docentes do Conservatório Regional, numa nota distribuída à população, afirmam que “não aceitam a desvalorização e discriminação profissionais a que estão a ser sujeitos por parte da Secretaria Regional da Educação [da Madeira]” e exigem “que a sua carreira e tabela remuneratória sejam as do Estatuto da Carreira Docente da Região, como acontece com os demais professores da rede pública” do arquipélago.

O “concerto dissonante” teve como programa a interpretação do 1.º andamento de ‘Eine Kleine Nachtmusik’, de Mozart, em três partes.

Condenações, campos de refugiados e violência

Por Braga, o Tribunal decidiu condenar diretores de um jardim de infância a penas de prisão (suspensas) por burla tributária. Podem ler aqui, no Público, e ficar a saber que ainda estão em dívida à Segurança Social 15.127 euros:

“A suspensão das penas de prisão fica condicionada à restituição daqueles 15.127 euros à Segurança Social.” Ponto importante e exemplar da notícia é que “A mulher foi ainda condenada por seis crimes de coacção, por causa da “pressão psicológica” que exerceria sobre funcionários e educadoras” que espoletaram o processo através de denúncias.

Por Viseu, uma escola e o Exército vão fazer uma atividade sobre qual não sei o que pensar (mas o instinto faz-me ter algumas dúvidas…. mas com o benefício nelas pela intenção): reconstituir com um grupo de alunos “um campo de refugiados” para eles experimentarem a situação.

O texto da agência Ecclesia – a atividade é da disciplina de EMRC – explica: com a atividade “Refugiados para a Paz” pretende-se “simular um Campo de Refugiados”, proporcionando aos alunos uma “experiência única que complemente o seu percurso escolar e que lhes dê a possibilidade de “refletir sobre a condição humana e a dignidade da pessoa” e “formar consciências esclarecidas, fomentando o desenvolvimento do sentido crítico”, revela a nota.

Pela UTAD, divulga-se uma ferramenta que podia dar jeito em muitas escolas. Chamam-lhe violentómetro e serve para medir  e caracterizar a violência nos comportamentos dos alunos da Universidade. Vale a pena ver e talvez quem sabe importar a ideia para algumas escolas.

Crianças a viajar de graça e velhos em escolas abandonadas

pic004Entre as outras notícias do dia deixem-me ser ronhoso e provinciano e fazer uma pergunta sobre uma delas. Na cerimónia de entrega da Carris ao município de Lisboa, o presidente Fernando Medina anunciou passes de graça para crianças até 12 anos.

Mas a medida é só para os utilizadores da Carris (e o resto do país em que os padrões de mobilidade até são piores?).

O centralismo está assim. Já nem se preocupa em esconder os benefícios localizados no centro que todos pagam sem beneficiarem também (sendo que o Estado fica com a dívida histórica e ciclópica da nova empresa municipal que nasce limpa desses encargos).

E, por isso, é que o interior e a “província” estão como estão. As escolas fecharam e a solução é fazer lares de idosos (e não pensem que acho mal, mas acho triste). Aconteceu em Alfândega da Fé em que uma escola, fechada há 10 anos, foi assim reconvertida como mostra a reportagem da RTP.

E, para terminar, remeto-vos para um texto publicado num jornal de Braga sobre autonomia e sobre municipalização. Rui Rio veio no fim de semana falar de como renega a campanha que fez contra a regionalização no referendo de há quase 2 décadas (lágrimas tão retardadas que devia estar calado e só voltar a falar quando estiver a liderar o PSD e decida concordar com nova tentativa).

Mas, mesmo com estes regionalistas penitentes serôdios a alternativa tosca da municipalização continua a ser receitada como panaceia ou como emplastros para dores articulares do Estado sem ver outras alternativas.

No domínio das escolas há quem pense esses temas e fale claro e com conhecimento como faz o Jorge Saleiro neste texto objetivo que podia ser Autonomia? Existe mesmo? Ou é um mito do género unicórnio?


Mais de metade dos professores tem horário reduzido (?!), diz o Público. 2

Hoje, neste resumo diário de notícias, só tive olhos para a 1ª página do Público. Fiquei meio atordoado com o “horário reduzido de menos de 20 horas semanais”.

wp_20161003_14_31_23_proO Público mudou e normalmente gosto das mudanças do meu jornal. Mas o meu dia de leitor começou mal…porque falou mal dos professores, sem consistência nenhuma. Chamou à primeira página uma notícia, com o título acima, e que começa assim:

“A maioria dos professores do 3.º ciclo e ensino secundário estão menos de 20 horas por semana nas salas de aulas, segundo revela uma análise sectorial do perfil do docente em 2014/2015, divulgada na sexta-feira pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC). Ou seja, mais de metade dos cerca de 73 mil docentes destes níveis de ensino tem horário reduzido.”

Lida na forma simplista (e para a qual o jornal não se preveniu, especialmente com o título usado) e como alguns comentadores, na própria página de internet do jornal, leram, isto quer dizer que os professores (num país em que o Presidente da CIP acha que trabalhar só 35 horas é uma tontaria) são uns madraços que trabalham menos de 20 horas por semana.

O Público errou…

b1O Público errou ao dizer isto, mesmo se se pode defender que foi com base na DGEEC….

E, leitor diário do Público, mesmo mantendo com ele uma relação de ódio e amor, fico triste.

Era estudante quando o jornal começou e acompanhou-me nos grandes acontecimentos que o mundo viveu na minha idade adulta. A Guerra do Golfo, as mudanças da União Soviética, o alargamento da Europa, sismos, desastres, vitórias desportivas, eleições, a crise. O Calvin, o Bartoon, as belíssimas fotografias, o grafismo diferente de tudo o que se fazia, o livro de estilo, a capacidade de inovar: tudo isso faz com que leia o jornal todos os dias, ainda em papel, mas também no digital.

Fiquei feliz com a ideia de que hoje começava uma nova mudança, com um novo diretor e com o regresso às páginas do fundador Vicente Jorge Silva a cuja família de fotógrafos notáveis – ver aqui – , que não contacto há décadas, me liga, contudo, gratidão pessoal emocionada, pela solidariedade e apoio humanos que deram à minha mãe (e à criança que fui), em tempos muito difíceis.

O ato de, às 7h45, comprar, e ler com o café, o jornal, como faço todos os dias em que tenho aulas, podia hoje ter tido um lado de renovação e gerar satisfação por um aspeto relevante da minha vida cultural iniciar mais um momento de mudança.

Tive um dos dias de ódio: acontecem muitas vezes quando o Público, que é dos poucos jornais que tem espaço regular e consistente para temas de educação, diz asneiras. E, desta vez, na primeira página.

Degradar o trabalho docente: um velho passatempo noticioso nacional

Há uns anos foi a conversa tosca das faltas dos docentes, em que os jornalistas perceberam mal as intenções por detrás de se andar a contar e fazer notícias das faltas docentes, agregadas aos milhares (e esquecendo nas contas as licenças de maternidade). O namoro do jornal com Walter Lemos, Maria de Lurdes Rodrigues e Albino Almeida fizeram-me ficar bastante ciumento, como leitor fiel. O problema era semelhante ao do texto de hoje: solidificar, sem base, a ideia de que os professores e educadores são gente cheia de privilégios e vícios, que trabalha pouco, folga muito e tem horários de trabalho reduzidos.

Clara Viana é uma muito boa jornalista de Educação que não cai nessas coisas: informa-se, estuda, vê com perspetiva alargada, procura ângulos diferentes. Hoje, não sei porquê, não percebeu que o título da peça e a sua cabeça estão em contradição com o conteúdo real do caso e até têm contradição com partes restantes do texto. Começou por se basear num relatório da DGEEC mas, depois, não saiu dos limites estreitos da visão burocrática, para ver mais longe.

Se os professores estão menos de 20 horas nas salas de aula todas as semanas, o que andam a fazer no resto das suas 35 horas de trabalho? E que fazem com essa redução para menos de 20 (na verdade 22) horas? Preguiçosos….. (disse o Senhor Silva que comentou a notícia).

Afirmação estatística falsa

O problema é que a frase do início do texto é objetivamente falsa. “Torturem os números que eles confessam”, já dizia o título do livro que os jornalistas deviam todos ler.

Aqui os números confessaram pecados que não existem e que, em alguns casos, são penitência.torturem-os-numeros

Para se perceber porquê, a explicação é longa e passa por saber o que se entende por “estar nas salas de aula”.

Curiosamente, quem passe por uma escola portuguesa descobrirá que uma boa parte dos professores, mesmo com a dita redução para menos de 22 horas (a base de partida não são 20), estão em boa parte do período de redução, dentro de salas de aulas, só que, embora estejam a dar aulas, e qualquer cidadão ache que as estão a dar, se as observar, o que fazem não são aulas do ponto de vista da definição burocrática…… (e são essas “definições” que a DGEEC conta nas suas “estatísticas”).

Muito bem, um comunicado da FENPROF, que não teve grande destaque nas páginas do Público, chamava, há dias, a atenção para este problema. Valia a pena ler esse, e outros anteriores, antes de fazer o título.

Trump também não fugiu aos impostos, do ponto de vista legal e estatístico, mas também não os pagou……

Mas o que é uma aula? E estão mesmo “fora das salas de aula”? Há aulas não letivas….

Em Portugal, há uma definição legal unívoca do que é um ato médico. Mas não há definição legal rigorosa do género, que permita distinguir o que seja realmente “uma aula”. E as “aulas” não acontecem só “nas salas de aulas” e, as mais das vezes, nas horas de redução de aulas, os professores estão em “salas de aulas”.

Por exemplo, dar uma aula de apoio a matemática cabe na definição do que se faz nesse tempo de redução letiva, mas é aula ou não?…. Não vos maço com a transcrição das normas regulamentares destes assuntos que fazem doer a cabeça, com frases inteiras que resultam em que haja “aulas não letivas”  ….. Só por curiosidade, que me ocorreu agora, sabiam que há escolas em que professores, que acompanham visitas de estudo durante 10 ou 12 horas, têm de entregar justificações de faltas por conta das aulas que, por causa desse trabalho letivo, não deram? Uma visita de estudo não é aula?

Se um médico estiver sentado a ler um livro, para preparar uma cirurgia, no senso comum social, está a trabalhar. Se um professor fizer o mesmo, está com “horário reduzido…..”

Por isso, a frase do título é falsa: até mesmo os que tem horário letivo reduzido estão, em boa parte das reduções, não em casa, mas a trabalhar “em salas de aula”. A dar apoios, (a grupos de 5, 10, 15 ou 20 ou mais alunos), a fazer reuniões de preparação de aulas, a substituir colegas em aulas, a desempenhar cargos pedagógicos ou a gerir atividades extracurriculares, com mais alunos do que algumas turmas que seriam “aulas” das “letivas”.

Não dizer isto, não explicar estas subtilezas nominalistas da realidade das escolas e de como a estatística é feita, e começar a notícia como se fez, é escamotear o real. Redução simplista de uma realidade complexa. Daniel Innerarity, ontem, no Público explicava bem o processo.

Para que efeito aparece esta notícia (que o DN também reproduz citando o Público), não sei. Pela DGEEC não ponho as mãos no fogo, em matéria de rigor estatístico, mas confiava que a Clara Viana não se deixaria enganar assim.

Um resumo da realidade real….

O leitor médio que não conhece as subtilezas do Estatuto da Carreira Docente e da cascata de regulamentos anexos, e que leia, com aquela invejinha irracional que graça pelos comentários, dirá logo (houve um que disse mesmo): se estão menos de 20 horas nas salas de aulas andam a preguiçar! A gente paga-lhes para dar aulas e eles dão menos de 20 horas por semana num horário de 35.”

Um dos pontos mais discutidos da configuração da carreira é essa questão do horário docente. Em todo o mundo civilizado, o horário docente tem 2 partes: as aulas e a preparação. Em Portugal, as aulas chamam-se componente letiva; a preparação, componente não letiva individual. Assim, um horário docente tem, no caso do 2º e 3º ciclo, de forma simplificada, 22 horas letivas (medidas em minutos que incluem os 10 minutos de intervalo dos alunos em cada hora). No 1º ciclo são mais, 25 horas. O resto, até às 35, é preparação, reuniões e tempo não letivo a prestar no estabelecimento.

Quando o Estatuto da Carreira foi feito, há muitos anos, sendo os professores licenciados, foi negociado que, em vez de atingirem o topo salarial das carreiras de outras categorias de licenciados da função pública, fossem compensados de terem salários de topo mais baixos, reduzindo ao horário letivo (aos 40, 2 horas, e sucessivamente, em intervalos de 5 ou 10 anos, até ficarem no fim com 14 horas letivas). As 8 horas de redução (ou, menos, conforme as idades) seriam acrescidas ao tempo de preparação. Com Maria de Lurdes Rodrigues (com as carreiras congeladas e a miragem de aumentos salariais), a carreira docente foi ainda agravada com a colocação dessas reduções a começar aos 50 anos, e não aos 40 (a peça fala disso pela voz de Filinto Lima), e a obrigação de serem prestadas na escola.

Os professores têm assim hoje redução do horário letivo (o tempo letivo sendo o que dão em aulas a turmas regularmente constituídas) mas, nessa redução cabe quase tudo e, muitos, prefeririam até prescindir dela a ter de fazer o que está destinado para essas horas. Por exemplo, mesmo os bons gestores da coisa pública, que andam sempre tão preocupados com o orçamento, acharão que ter professores a vigiar cantinas é bom uso de dinheiros públicos (especialmente se compararmos o seu custo hora com o dos assistentes operacionais, que tanto faltam nas escolas)?

O assunto é assim mais profundo do que o título e a cabeça da notícia sugerem….

A citação de Filinto Lima, mal contextualizada, mas que podia ter sido útil, se aprofundada, não permite deslindar totalmente as contradições.

Não sei se quem começou lerá isto até ao fim, ou, sequer, se a Clara Viana o lerá até aqui, mas depois de o escrever, fica-me a esperança de que o Público corrija a 1ª página de hoje, me passe o dia de ódio e amanhã veja a coisa menos cinzenta e volte ao prazer de ler o jornal.

Quem sabe, até pode ser que este desabafo, sirva de pretexto para alguém ver porque é que o comunicado sindical, que citei acima,  tem tudo a ver com o que está escondido na 1ª frase do texto (que insisto, e acho que expliquei porquê: é objetivamente falsa). Às tantas a divulgação dos dados até pode nem ser inocente, quem sabe….

A maioria dos professores que têm redução letiva não está “menos de 20 horas nas salas de aulas”. Estão, em muitas semanas, muito mais que 22 horas, na escola, e, na sua maioria, trabalham bem mais que 35 por semana (experimentem uma semana das minhas, em que tenham 120 testes de 5 ou 6 páginas para ler, carregadinhos de erros ortográficos….).

Se quiserem trocar isso por um horário das 8 às 17 pode ser bom negócio para mim (especialmente face ao salário pago, e congelado há 10 anos, com cortes – reduções salariais, as tais que a DGEEC esquece – pelo meio).

Assim, talvez já não trabalhasse ao fim de semana…..e tivesse mesmo horário reduzido face ao meu atual…..


Professores: vocação ou profissionalismo? Salário ou palavras bonitas? 4

Não sou professor por vocação. Vocação vem de vocare, “chamar” e acho que não fui chamado para coisa nenhuma. Por pouco romantismo que isso traduza.

Não é muito comum alguém falar de vocação para se ser engenheiro, polícia, cavador ou eletricista mas, para exercer a profissão de professor, a visão poética do senso comum exige, quase sempre, que o discurso leve doses cavalares da dita vocação.

Como dizia alguém que me era próximo: a conversa da vocação é só um atalho para a desvalorização.

Os professores começaram na Antiguidade por ser escravos e o seu serviço ainda é vulgarmente chamado de “dar aulas”, como se a gratuitidade da dádiva fosse parte dele.

A ironia dessa ideia de senso comum sobre o peso da vocação na docência é que traduz um sinal real de desvalorização da docência no seu profissionalismo.

Afinal, ser incompetente ou competente é ou não diferente de ser vocacionado?

Por exemplo, eu até sinto larga vocação para a cozinha, tal o apelo que tenho pelo ato de comer, mas sou definitiva e totalmente incompetente, por falta de olfato, paciência e sentido do equilíbrio de sabores para aprender a cozinhar. Sou um cozinheiro frustrado, com muita vocação, e admito ser um professor competente, sem ela.

Não quero que o meu mecânico ou advogado seja especialmente vocacionado, quero que perceba de escapes ou de códigos e trabalhe com competência. E lá terei de lhe pagar o correspondente, esteja ele motivado, desmotivado, vocacionado ou iludido na profissão.

O estudo do Público e o tema da desmotivação. E o dinheirinho?

Vem tudo isto a propósito do estudo sobre a desmotivação docente hoje divulgado no Público (com direito a mais umas colunas de seráficas lágrimas de crocodilo sobre a dignidade docente de Joaquim Azevedo) em que se passa por cima destes assuntos em nome de discussões esotéricas sobre motivação.

Infografia sobre estudo no Público aqui

Porque é que a desmotivação dos professores é uma grande questão noticiosa no início dos anos letivos e quando se chega à fase em que alguém diz: “estamos realmente mal pagos” (e fomos roubados nos últimos anos), se foge logo para o caminho da conversa da vocação, do respeito e do valor social?

E quem fale do “dinheirinho” leva logo com a etiqueta de oportunista explorador e corporativo na defesa de interesses de luxo. (No meu caso o luxo corporativo são menos de 1200 euros mensais líquidos, após 21 anos de alegada “carreira”).

O dinheirinho não ajudará à motivação?Honestamente, viveria muito bem com a desvalorização social da profissão, e até com a gestão, que vou fazendo, da indisciplina, se me pagassem realmente o valor do trabalho que faço, se tivesse realmente uma carreira (e não um retrocesso) e se a reforma não fosse miragem, para mim, no futuro, e para os outros da minha profissão que hoje precisam imperiosamente de se reformar.

E, já agora, se se calassem aqueles que falam com verborreia das condições e requisitos da docência do ensino básico e secundário, sem a praticar há décadas …. ou sem nunca a terem praticado.

Dêem-me estas coisas todas e até me podem chamar nomes…. (aliás, já chamam hoje, e estou mal pago). Estou farto da conversa da vocação e da valorização da dignidade, sem dinheiro, direitos mais efetivos e melhores condições de trabalho.

A um profissional não se paga a motivação ou a vocação mas o trabalho (palavra que muitos exilaram dos dicionários, desde que as empresas passaram diletantemente a ter colaboradores).

Escolher os melhores para o futuro? Os de hoje são maus?

Acho particular graça que se diga, na análise  do estudo, que é preciso dar espaço a que os melhores alunos entrem na profissão.

Primeiro ataque à minha inteligência: mas alguém vai entrar nos próximos tempos?

Segundo ataque, este ofensivo: já repararam que essa afirmação indica que se considera, sem o enunciar, que os professores de hoje serão oriundos dos contingentes de piores alunos das suas gerações? Quem disse?

E, se nos deixássemos de poesias vocacionais e de tretas sobre a “busca dos melhores” e falássemos de coisas realmente importantes:

Quanto pagam? Pagam o justo?

Que carreira nos dão? Que condições de trabalho nos querem dar?

Que respeito concretizado em medidas efetivas nos querem permitir ter?

Em que outra profissão qualificada, no setor público ou privado, um técnico superior com formação especializada, com mais de 20 anos de experiência, e que até foi dirigente, ganha menos de 1200 euros mensais?

Ser professor é uma profissão e, como dizia uma pessoa que muito respeito, ser professor não é ser mercenário mas também não é ser missionário.

Reconhecimento ou salário? Poesias ou realidades?

Os discursos delicodoces sobre a dignidade e valorização dos professores, que andam na moda e que hoje foram chapados no Público, não resolvem os problemas reais se não se for ver o que é desagradavelmente intestinal: carreira, salário e condições de trabalho.

E para aqueles que não deixam fluir a discussão, realmente profissional, sobre o preço da competência e da nossa utilidade como trabalhadores, vivendo agarrados ao devaneio da vocação e da procura da dignidade metafísica, só digo que é possível ser excelente profissional sem ter vocação nenhuma para professor, mas tendo condições profissionais.

Recentemente, vi uma prova disso: a minha tia de 100 anos faleceu em Maio. Foi professora do 1º ciclo durante 40 anos. No fim da vida, dizia-me que tinha sido professora sem ter vocação nenhuma para isso, por circunstâncias da sua vida. A sua vocação (e, numa arte, isso talvez exista) era a música, mas não pode concretizá-la.

Foi professora porque, para uma menina estudar fora da sua terra, nos anos 20, era preciso parentes para a vigiar e só os tinha em Braga. Por isso, só pode estudar na Escola Normal. Era boa aluna e boa profissional, diziam os alunos. Orgulhava-se do que fez para os seus alunos terem sucesso e vi a alegria tocante de muitos, ao reencontrá-la.

Vocação não tinha nenhuma, palavras suas, e gostar da profissão não gostava. Acabou por aprender a ser boa profissional com o tempo e a formação (excelente) que teve. Mas era competente. Muito competente. O indício final disso foi o número de alunos, já idosos de 60 ou 70 anos, que fizeram questão de estar e de o dizer no seu funeral, em homenagem à qualidade do que por eles fez.Foi bonito e comovente para os parentes, em especial os professores.

Será que, com a perspetiva politiqueira e treteira vigente sobre a profissão docente, o pouco reconhecimento profissional efetivo que estamos condenados a ter vai ser assim: no caixão, por conta da memória dos nossos alunos?


Prendas de editoras e pelos nas palmas das mãos…..

“Honestos, honestos são os que tem pelos nas palmas das mãos….”

palma da mãoCresci a ouvir esta frase, dita como piada pela minha mãe, professora de biologia. Usava-a, muitas vezes, para chamar a atenção de que a virtude da honestidade não é um estado que se adquire e não se perde mais, mas um processo que se aprende.

Não se adquire tal condição por meios naturais. É-se honesto em cada dia da nossa vida, fazendo as escolhas face às circunstâncias concretas. Assim, ninguém está acima de qualquer suspeita e a honestidade não está fisicamente marcada: é um ato voluntário de aperfeiçoamento. Ter pelos nas palmas das mãos será, pelos vistos, biologicamente impossível e, por isso, no limite, a frase tenta uma piada. No seu modelo de biologia humanista, o que a minha mãe queria dizer com a frase, é que não há puros ou impuros. Todos podemos cair na desonestidade, se nos desleixarmos de a construir no dia-a-dia. Porque nunca teremos os tais pelos

Lembrei-me disto a propósito da reportagem da semana passada do jornal Correio da Manhã (que calculo também tenha passado na televisão, a que não tenho acesso) com direito a editorial, sobre prendas aos professores por causa da escolha dos manuais. Quem conhece a realidade (e creio que posso alegar esse conhecimento, tendo sido livreiro 2 anos, diretor de escola, 6, e professor há 21), terá de dizer que o Correio da Manhã só arranhou a casca do problema.

O mercado dos livros escolares é um oligopólio (tem 2 ou 3 agentes que dominam mais de 2/3 ou mais das vendas) e isso inquina tudo. A presença de mecanismos de escolha por entidades públicas inquina mais. E o processo concreto de escolha dos manuais agrava o problema. Sem maçar ninguém, diria que é um daqueles casos de maus efeitos atomizadores de decisões, fruto da falsa autonomia, em que a vida das escolas é tão fértil.

Manual escolarProclamar a autonomia das escolas é bonito para os políticos e, por isso, cada agrupamento pode escolher os seus manuais. Mas, depois, o processo não é, nem pode, ser preparado para que haja consistência e tempo para a análise racional exaustiva. Uma reportagem certeira iria verificar como é feita a escolha (que foi há uns 2 meses e não agora, como a reportagem do CM parece não ter percebido).

Não tenho preconceitos, assumo que leio muitas vezes o CM e que, descontados excessos que me chocam (e de que até já me queixei noutro assunto formalmente), não desvalorizo o papel, para a liberdade, de um jornal popular, que levante questões de forma direta e sem grandes pruridos. Não é a minha fonte única de notícias (abençoado café, onde generosamente leio tudo o que quero….) e confio que o meu sentido crítico, não me abandona quando se entusiasmam, por lá, como justiceiros e perdem o pé com os olhos raiados do vermelho do grafismo.

Prendinhas, prendas, impedimentos e prisões morais

(mais…)


A “celência” …. o bom senso ou porque é que andar na escola não é uma corrida por uma camisola amarela….

O bom senso é a coisa do mundo mais bem distribuída: todos pensamos tê-lo em tal medida que até os mais difíceis de contentar nas outras coisas não costumam desejar mais bom senso do que aquele que têm. (René Descartes)

Há um texto fascinante de Lindley Cintra sobre o tratamento de Excelência na língua portuguesa que me vem sempre à memória, quando ouço falar de escolas excelentes e resultados excelentes.

Isso por causa da observação, que nele se faz, sobre os maus efeitos sociais do uso exagerado da palavra excelência e da obsessão com ela nas relações sociais portuguesas nos anos à volta do período da Expansão.

Da minha leitura, ficou-me a ideia de que, preocupados com serem “Excelências” e com a aparência disso, os portugueses perderam o pé na atividade económica e na construção de uma sociedade mais aberta. José Cardoso Pires faz eco desta impressão ao crismar um certo livro de “Dinossauro Excelentíssimo”.

Às tantas, o uso recorrente da ideia de excelência nas discussões sobre as escolas é herdeiro desta emoção ligada à palavra. Há estudos sérios e científicos sobre o tema dos resultados excelentes mas, no uso vulgar das palavras, mormente no debate político, a coisa acaba por ser um recurso banal, quase como os mágicos das fábulas que dizem “hocus pocus” ou “abracadabra” e fazem aparecer uma realidade nova, desaparecendo a necessidade de ser racional.

Vem tudo isto a propósito de declarações, no decorrer da amarela manifestação, em que um anónimo entrevistado dizia “que as escolas com contrato de associação são a minoria excelente do nosso sistema de ensino”. A frase pode ter sido dita no contexto de excitação que uma manifestação, como ajuntamento, sempre provoca (lembrei-me logo, das minhas aulas de rudimentos de sociologia, de uns estudos quantitativos sobre o efeito na natalidade 9 meses depois de uma manifestação).

Uma manifestação é uma festa e uma emoção e, por isso, é normal que se tresleia.

Sou muito chato em discussões em que se caia na argumentação politiqueira sobre a excelência de escolas e de resultados de alunos. Se estiver bem disposto, a conversa começa com uma pergunta sobre a vivência pessoal da dita excelência pelo interlocutor.

Eu falo da minha e a conversa entorta logo. Isto porque tenho uma teoria inventada por mim, por razões que eu cá sei, de que a profusão exagerada da palavra excelência e de objetivos de excelência é, na verdade, em muitas bocas, a sublimação de uma frustração pessoal sobre os próprios resultados.

Do que conheço, alunos com resultados escolares acima da média (coisas na casa dos 18 e 19 ou mais), ao falar disso (em adultos, e depois da excitação e da “vaidadezinha” mais imediata de os terem), não valorizam da escola esses resultados numéricos mas outras coisas (às vezes, algumas que não tiveram tanto por causa de andarem na “busca da excelência”, dando peso sempre ao efetivo conhecimento e às experiências reais obtidas, que não se subsumem na nota).

E já vi muitos a fazer o juízo comparativo, balanceado sobre si próprios, entre o que seja um “aluno excelente” e uma “excelente pessoa”. Em muitas conversas, em número que não se deve desprezar, mas a que a generalidade dos pais liga pouco, encontro até tristeza e sofrimento mas, isso, são contas de outro rosário.

O jogo da glória… digo, da excelência

Mas, quando estou um pouquinho mal disposto e calha de me falarem de “excelências”, abandono a tolerante visão psicanalítica e levo, por desfastio, a coisa a sério. Suspendo as minhas dúvidas sobre o que valem realmente os resultados escolares para  medir a qualidade da educação de pessoas que as escolas devem formar e aceito jogar o jogo.

Para o jogarem comigo proponho um exercício. O Ministério da educação mantém um site  em que publica as estatísticas de resultados das escolas para períodos relativamente longos (oficiais, em que se baseiam os oficiosos rankings).

É possível, para cada escola, ficar a saber quantos alunos estão inscritos, em que cursos, a sua distribuição por idade, a taxa de retenção ou desistência dos alunos da escola e a relação dos resultados com o contexto socio-económico (análise que, azar muito oportuno, não tem dados disponíveis para as escolas privadas…).

Perante as afirmações de excelência, decidi ver os dados mais significativos desse site, na comparação, que me é pessoalmente próxima, entre o meu agrupamento (público) e a escola privada de contrato de associação que convive no mesmo concelho. (Para ver as imagens deste texto ao pormenor devem usar o rato e carregar nelas)

A conclusão imediata é que podem ser esgrimidos todos os argumentos, até os mais despudoradamente disparatados, sob a capa do alegado bom senso (vide Descartes acima) e propalado o bairrismo mais bacoco mas os números dão indícios estranhos.

O exercício merecia ser repetido para as restantes escolas nesta situação.

E gostava de ver gente de amarelo vestida a pensar e falar destas coisas e com uma atitude menos dogmática e clubística.

Nas imagens abaixo estão os dados (recolhidos a 31 de Maio do site) do site e anexo aqui os pdfs completos de cada escola  Ancorensis (Dados Infoescola) e Sidónio Pais (dados infoescola).Progressão de notas 9º 12ºDiapositivo1

Excelência será, no conceito de quem tanto fala dela, os alunos terem notas de exame sistematicamente inferiores às notas que a escola lhes dá internamente?

Isto é, as notas obtidas da escola borregarem sempre no exame?

Ou será chegar a recuar (piorar) na tendência de progressão dos alunos entre os exames de 9º e 12º?

É que não podemos querer falar dessa excelência, que tudo tolhe em educação, gabarmo-nos dela e depois fazer de conta que isto que não merece um ai e recusar pelo menos discutir estes dados.

Realmente, no imediato, é atrativo escolher escolas em que as notas que se dão estão sistematicamente desalinhadas para cima com as dos exames. Mas isso é a excelência?

Como qualquer pessoa sensata diria, quereríamos um médico que, quando suspeitamos que estamos doentes, olhando para as análises, nos diz sempre que o nosso estado está a melhorar e a nossa saúde é excelente?


Sexta às 9 – contratos de associação: “O que o tipo quer é aparecer….”

Sexta às 9Este foi um dos comentários que tive sobre a prestação que dei, que ontem foi divulgada, numa reportagem do programa Sexta às 9 da RTP.

“Aparecer” é um dos temas sociais do momento e o Facebook e outras redes sociais fizeram da fama e da notoriedade um objetivo social generalizado. Curiosamente, ligo pouco a isso.

A educação escolar de que beneficiei teve muito peso para esse olhar. Não esqueço o estudo dos clássicos sobre o real valor da fama (veja-se o nosso Camões).

A verdade é que ontem “apareci”: gordinho, baixinho e com ar zangado.

Disseram-me que “com voz bonita”…

Esperemos que, sendo a voz bonita ou feia, as palavras tenham sido ouvidas. Pelo menos a nível local (onde, por causa da surdez de alguns responsáveis locais e até da comunicação social local, o assunto precisava de ser mais falado).

Um dos problemas desse juízo superficial, de que tudo se resumiu a um desejo de me mostrar, é que, além de uma pouco simpática alusão a um desejo, que não tenho, de protagonismo oco, ignora o que é realmente importante.

Não me aborrece nada o juízo desagradável, sobre mim e sobre a procura de visibilidade (de que realmente prescindo), mas agrada-me pouco que não se perceba que mais importante é a mensagem: a defesa da escola pública.

E, por conta disso, prescindi, por minutos, da aurea mediocritas, a que me remeti, há uns anos, por opção de sossego e vida, e aceitei “aparecer”.

E numa sociedade democrática, se nos pode incomodar “aparecer” e não estarmos à vontade com isso, deixar o espaço público aos que não tem pruridos com isso, tão forte é o seu interesse privado, e que dizem tudo e o seu contrário para manipular, é um risco para a nossa liberdade coletiva (que se define em público, e não, nas conversas privadas de café…).

Por isso, aceito e debato críticas ao conteúdo do que disse, mas acho inadmissível que se critique só porque os defensores da escola pública “apareçam”, sem dizer o mesmo dos que defendem o negócio privado (que, como se viu na reportagem, há coisas de que não querem nem ouvir falar – vide Didaxis e dívidas ao Estado em tribunal).

Uma sociedade democrática é aquela onde se debate e onde se fala em público do que tem interesse coletivo (e não só de gatinhos e fotos de pratos, férias e celebridades nas redes sociais).

A jornalista convenceu-me, e sabe bem que lhe disse que devia falar também e preferencialmente com a direção da minha escola (que, por razões erradas, que os seus colegas de Coimbra, Caldas ou outros locais, que “apareceram”, não partilham, acha que não deve falar, recusando o contacto feito).

No caso concreto, combinamos falar a uma hora de almoço e o único pedido mais pessoal que lhe fiz nem o cumpriu (por esquecimento ou problemas de edição?): divulgar o link do texto deste blog que lhe chamou a atenção (um texto com mensagem forte mas que foge a ser facilitista).

E à conta deste meu “aparecer”, apareceu mais visível o problema local, que até o deputado João Almeida, do CDS no Sexta às 11, veio reconhecer ser muito estranho: uma escola privada a ser paga pelo Estado para tirar alunos a uma escola pública que fica à distância de uma passadeira.

E “apareceram” os meus colegas da escola pública de Vila Praia de Âncora, que me deram a honra (que nem sabem como realmente me tocou) de aceitarem que momentaneamente falasse em seu nome e, em especial, ajudei a dar voz a outros (a Cidália, que falou, e bem, do lado dos pais e encarregados de educação).080701601300021

E se os colégios privados têm em marcha uma campanha mediática (quem a pagará?), cheia de recursos e inspirada em modelos estrangeiros, será a minha “aparição” de uns minutos a maior perturbação mediática ao caso? (Ok, excluindo a estética, mas há também quem ache que amarelo não é bonito…)

E aqui pelo blog (em especial para o seu mentor, enérgico e generoso, o Alexandre) fica a satisfação de que, se ajudamos a debater e a esclarecer um tema essencial para a defesa da escola pública, cumprimos bem a intenção que nos fez meter nisto.

E sobre bocas antipáticas… já sabemos como é, basta ver alguns comentários que moderamos todos os dias.

Aqui ficam os links:

  • Para a reportagem.
  • Para o debate que se seguiu no canal 6 (com mais uma bela prestação da Secretária de Estado Alexandra Leitão e uma trauliteira exibição de João Almeida, mostrando desespero e demagogia, num grau que faz pensar que o trumpismo está a chegar cá)
  • Para parte do rescaldo noticioso hoje e, em especial, para a notícia da posição da escolas de Coimbra, que mostra o que são dirigentes escolares que entendem a sua missão pública e não se atemorizam com “aparecer” ao lado da liberdade contra o interesse privado do lucro.

Procura-se fair play, civismo e cultura desportiva

fair play

Terminou hoje mais um campeonato de futebol no qual o Benfica se sagrou campeão nacional, o que me deixa particularmente feliz. Mas não é sobre isso que vos vou falar, já cometi os meus excessos em privado 😉

Enquanto aluno e professor de Educação Física, pratiquei diversas modalidades e realizei muitos jogos, quer federado quer amigáveis. O futebol em particular, está a milhas de distância no que diz respeito à ética, civismo e fair play. Posso-vos confessar que já cheguei a orientar uma equipa de futsal no âmbito do Desporto Escolar e jurei para nunca mais, desde os miúdos aos colegas professores, impera a política do ganhar a qualquer custo.

Nas minhas aulas assisto frequentemente à imitação dos maus exemplos que todos os fins de semana ocorrem nos relvados deste país: os toques maldosos; os palavrões; as fitas; as simulações; as comemorações provocatórias; os protestos com os árbitros; etc… tudo, tudo é reproduzido pelos alunos.

Os profissionais da bola deviam lembrar-se que são – deveriam ser- um exemplo para os mais novos e que uma imagem vale mais do que mil palavras e vale infinitamente mais do que a orientação do professor.

Dos dirigentes então é puro lixo. Não compreendo como é que os sucessivos Governos deste país não colocam um ponto final na verborreia sistemática que é vomitada semana após semana. Em Inglaterra punem exemplarmente todos os que contribuem para um clima de suspeição e violência. Por exemplo os adeptos mal comportados (hooligans) têm de se apresentar nas esquadras à hora do jogo. Aqui impera a lei da selva…

E o que dizer da comunicação social? A quantidade de programas televisivos e a duração que estes têm para falar de arbitragem futebol, só é comparável às não sei quantas telenovelas que ocupam todo o intitulado horário nobre. Chegámos ao ponto de ver jornalistas a acompanhar “lindas” jaulas caixas de segurança que acompanham os criminosos as claques, na esperança que a coisa corra mal, de preferência com sangue e tudo.

E depois ainda somos brindados com a reação dos adeptos que em cada 3 palavras dizem 4 palavrões, terminando normalmente aos gritos e empurrões ao coitado do jornalista que se submete a esse belo momento televisivo.

A falta de cultura desportiva, a falta de civismo e a falta de fair play que mora neste cantinho à beira mar plantado, revela bem a sociedade que temos, os jovens que temos e consequentemente os alunos que temos.

Mas não faz mal, a malta gosta… Para o ano há mais…


Panfleto sobre os contratos de associação dedicado à liberdade dos meus alunos 5

Amarelo: a cor dos protestos das escolas dos contratos de associaçãoGosto tanto de amarelo que devia ficar sensível à escolha dessa cor para cor oficial do protesto das escolas com contrato de associação.

Gosto muito de amarelo: mas não obrigaria ninguém a usar. Muito menos os meus alunos …..

Mas gosto de usar em mapas e esquemas. Por exemplo, na imagem abaixo, o amarelo destaca bem coisas evidentes que alguns querem esconder.

Planta das escolas situadas na Rua Alexandre Herculano em VPA

Calculo, contudo, que se recordassem o que foi a Revolução Amarela das Filipinas alguns, dos que escolheram essa cor como símbolo nesta histérica luta frenética , talvez ficassem arrepiados.

Comecei por querer escrever este texto para divulgar aqui a moção que os meus colegas professores do agrupamento de Caminha escreveram e enviaram ao ministro sobre este assunto.

O texto, que também subscrevo como professor da escola básica de Vila Praia de Âncora, resume, de forma notável, honesta e sintética os pontos em discussão. Pode ser lido também no final deste post.

Revolução amarela nas Filipinas há 30 anosMerece ser lido porque ilumina melhor o assunto.

Estava a iniciar essa intenção, quando li um comentário que me era dirigido numa das partilhas de Facebook do texto anterior que escrevi aqui sobre este assunto.

Segundo o eloquente comentador quem tal escreveu (o escriba presente) é um “professor parasita e desqualificado que só quer trabalhar 6 horas semanais e viver a mamar (sic) do OE milhares de euros mensais”.

Console-se o poeta inspirado que já me chamaram pior.

De resto, quem me conhece, sabe o quanto trabalho, os meus rendimentos são públicos (2º escalão da carreira docente, sem mais) e sobre o resto, enfim

Aos autores de outros infelizes comentários, que magoaram mais, mas que não me eram dirigidos, só comento que a minha Mãe faleceu há 6 anos (e o seu caráter e personalidade não poderia ser julgado pela ideia que fazem de um dos filhos que teve).

Se os que se deleitam tanto a discutir-me a mim, estão realmente interessados, podem consultar a declaração de interesses, que deixo aqui, para os iluminar melhor na pouca moralidade das suas cabecinhas pouco pensadoras.

Chegados a esta falta de nível, indigna de educadores e de quem tanto discute a Educação e a Liberdade de Aprender e Ensinar (assim mesmo, com maiúscula e calor argumentativo), creio que é preciso voltar a situar o problema no domínio dos princípios.

Curiosamente, os meus colegas, que escreveram a moção acima, fizeram muito bem em não sair desse nível e, com elevação, explicarem o nosso ponto de vista, nesse local do território nacional, onde acontece o que a imagem acima mostra (e nem as linhas amarelas fariam falta para se ver bem o problema).

Tentando manter esse nível, neste panfleto sobre a questão local, inseparável do problema nacional, deixo aqui algumas perguntas, que ilustram o espanto que se sente perante tal caso.

  1. Será que os defensores da liberdade de escolha estariam disponíveis para, em nome do princípio e não do interesse próprio, defender a tão querida liberdade de escolha, na pessoa dos meus alunos da Escola do Vale do Âncora, que a perdem no 3º ciclo, por causa de um contrato de associação monopolista e redundante?
  2. Será que esses alunos vão voltar a ter possibilidade (que existiu 3 anos) de escolherem a escola onde querem frequentar o 3º ciclo (acabando esta situação anómala de quepodem escolher, desde que escolham o privado, que o Estado paga, mesmo sem fazer falta”)?
  3. Aliás, estarão dispostos a reconhecer, perante o exemplar caso de Vila Praia de Âncora, que a questão dos contratos de associação nada tem a ver com liberdade de escolha (mas sim com duplo custo do Estado e o desperdício de dinheiros públicos)?
  4. Porque se fosse um problema de escolha, porque não podem, então, os habitantes de Vila Praia de Âncora escolher o público no 3º ciclo e são obrigados pelo Estado a frequentar uma escola privada, que tem o monopólio desse ciclo (e que fica situada onde a imagem inicial mostra, do outro lado da rua)?
  5. Será que não entendem que a liberdade de escolha é aqui um argumento torto?
    1. Porque é que, mesmo os que dizem querê-la, só admitem que sirva para recusar o público, nunca para o escolher?
    2. Porque não a defendem para os alunos do Vale do Âncora, que querem escolher o público no 3º ciclo?
    3. Porque é que, quem fala de escolha, não admite que há quem queira escolher o público e, por causa da subordinação ao privado, há pelo menos no país um caso em que se cai no paradoxo de que não pode (em nome suposto da escolha) fazer essa escolha?
  6. Porque não referem que a medida de redução dos contratos de associação, a existir, não viola “escolhas” já feitas mas tão só a “tradição”?
  7. Porque não dizem (antes distorcem essa informação) que, aos alunos que já estão nas escolas privadas, ninguém os quer tirar de lá (o que está em causa é a entrada de alunos novos, não a saída dos que já lá estão)?
  8. Porque é que ninguém fala deste caso do concelho de Caminha, em que o Estado paga duas vezes, em escolas diferentes, a 7 metros de distância? E porque não referem que há um caso em que, mesmo que, em 25 alunos do 6º ano, 12 queiram manter-se no público no 7º, e só 13 queiram ir para o privado, fruto do monopólio, que a inércia vem mantendo, acabarão todos a só ter a “liberdade” de ir para a escola privada ?
  9. E que, o que o Estado contratou aqui, é manter uma escola privada desnecessária, só porque sempre foi assim? Ou que a razão passada para haver uma escola privada, a receber dinheiro do Estado para prestar esse serviço, deixou de existir, há muito?
  10. E por que se escamoteia que o Estado tem recursos para fazer ele próprio e, só não faz, porque os titulares políticos da decisão (sejam do poder central mas também, tristemente, do poder local), valorizam mais o que acham que dá votos que o interesse público e impelem o rumo noutro sentido?
  11. E não entendem que, por isso, pode em Vila Praia de Âncora, na escola pública, devolver-se o argumento da escolha e usarmos também t-shirts amarelas, em nome dos alunos que, mesmo que queiram frequentar a escola pública (das que não têm dono que não o conjunto dos cidadãos representados no Estado), não poderão, porque os políticos entregaram a sua escolha a um monopólio privado?

Se lerem a seguir os detalhes do caso acho que ficam claros os pontos mais profundos da polémica e por que razão acho que a qualidade e a liberdade de escolha do privado não são questão aqui.

O problema pode ser até o bairrismo deslocado e mal guiado e falta de pensamento estruturado sobre política educativa.

Porque em educação há autarcas politiqueiros e razoavelmente ignorantes destas matérias que, por serem assim, veem mal ou não veem, o que seria uma verdadeira política no sector.

Espero que o Ministro tenha a coragem, que tem faltado a outros anteriores, e aos políticos locais.  Já o disse aqui.

Curiosamente, ouvindo-o a falar de causas (algo que não se compadece com mercearias eleitorais) começo a acreditar mais nele.

Submarinos amarelos....

Porque, afinal, muita gente protesta com as auto-estradas paralelas, pagas em PPP pelo Estado aos privados, com o dinheiro público a pagar resgates de bancos, os submarinos pagos em leasing e outras aberrações e, quase ninguém, refere, na essência, o que estamos aqui a falar: dinheiro público a pagar devaneios privados desnecessários.

Em suma, é legítimo que o interesse público se subordine a interesses privados, pagando o Estado o que não necessita?